Carta ao Leitor
Uma questão institucional
Ana
Araujo
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| Marcelo Itagiba, da CPI dos
Grampos: Lacerda, da Abin, é culpado por omissão ou responsabilidade |
Em meio aos furacões financeiro e eleitoral das últimas
semanas no Brasil e no mundo, não se pode deixar de
prestar atenção a um assunto, a CPI dos Grampos,
em que estão em jogo questões de enorme significado
institucional. A CPI investiga as ilegalidades cometidas pelos
delegados da Polícia Federal Protógenes Queiroz
e Paulo Lacerda, este diretor afastado da Agência Brasileira
de Inteligência, a Abin. Lacerda e Queiroz comandaram
a Operação Satiagraha, que visava a desvendar
atividades criminosas do banqueiro Daniel Dantas e se pretendia
uma exemplar malha fina em que se enredariam centenas de apoiadores
do principal investigado. A CPI está revelando que
a Operação Satiagraha de pífios
resultados práticos em relação aos objetivos
propostos foi montada e conduzida ao arrepio da lei,
com quebra de hierarquia e com seus agentes atuando como se
legitimados por um estado policial.
Em entrevista a VEJA, o presidente
da CPI, deputado Marcelo Itagiba, do PMDB do Rio de Janeiro,
diz não ter mais dúvidas de que agentes da Polícia
Federal e da Abin usaram um esquema paralelo em suas investigações
e com ele desenvolveram ações clandestinas.
Itagiba afirma que, em seu depoimento à CPI, Paulo
Lacerda mentiu aos deputados. Itagiba, que também é
delegado da Polícia Federal por profissão, defende
que Lacerda não só seja processado por falso
testemunho como também demitido pelo presidente Lula
por responsabilidade ou omissão nos desvios de conduta
produzidos no decorrer da operação em pauta.
As conclusões de Itagiba revestem-se de importância
ainda maior por duas razões. A primeira é que
a CPI sob seu comando se tornou talvez a última barreira
aos desmandos de agentes do estado e seus chefes que se acham
portadores de licença para desrespeitar a Constituição
e espionar os cidadãos brasileiros.
A segunda é que os trabalhos da comissão podem
ajudar a abortar a operação política
em curso, na surdina, para livrar Lacerda e seus colaboradores.
Não é mais admissível que continue a
haver no Brasil tantos crimes sem culpados na esfera político-institucional.