Edição 1825 . 22 de outubro de 2003

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Ponto de vista: Claudio de Moura Castro
As três leis do Império Tupiniquim

"Quando experimentamos e adaptamos
o que melhor funcionou em outras
paragens, a educação avança"

Nossa educação parece ser regida por três leis:

1. Todo fenômeno mundial tem aqui uma explicação tupiniquim e diferente.

2. Como a solução tupiniquim é sempre melhor, não carece ver o que se faz no resto do mundo.

3. Em caso de dúvidas, consulta-se um autor defunto, jamais o mundo real, pois isso é um perigo para as teorias.

Vejamos as leis em ação:

Alfabetização de crianças – Virtualmente, todos os países do Primeiro Mundo usam o método fônico. Ainda assim, nossos professores não têm sequer acesso aos livros e artigos que explicam como funciona. Em vez de testar os diferentes métodos, optamos por decidir o assunto consultando autores defuntos.

Formação profissional – A compreensão dos problemas de como educar as pessoas para o trabalho passa longe da revisão do que fazem os países mais bem-sucedidos no assunto. Ao invés disso, a inspiração está em Gramsci, cujos escritos datam da década de 20, quando praticamente não havia cursos profissionais nem no Primeiro Mundo. Muito do que ele propôs ou já está nos sistemas conhecidos ou não deu certo.

A graduação curta – Na América do Norte e na Europa, onde estão os países mais comprometidos com eqüidade, há vagas para todos nos cursos de graduação de quatro ou cinco anos. Ainda assim, mais da metade dos alunos preferem os curtos. Não obstante, muitos tupiniquins têm ojeriza aos cursos técnicos ou de tecnólogos, acusando-os de ser uma forma de segregação dos pobres.

Promoção automática e ciclo – Discutem-se a promoção automática e os ciclos como se algum ser maligno houvesse inventado tais soluções. Afirma-se serem piores do que a alternativa anterior, em que havia repetência em massa. Mas, nos países mais avançados, nem há repetência em massa nem os alunos ficam sem aprender. Por que será?

Ilustração Ale Setti


Péssima compreensão de leitura –
Nem os filhos das nossas elites entendem o que lêem. Mas não ocorre ir à Finlândia, primeiro lugar no teste do Programa Internacional de Avaliação do Estudante, o Pisa, que entre outras coisas avalia a qualidade da leitura dos estudantes.

Queimemos os livros! – Enfurece a alguns a proposta de um livro-texto, passo a passo, orientando o professor. A ortodoxia vigente diz que o professor tem de criar seu próprio material. Citam-se, para demonstrar, autores vivos e defuntos. Mas a ninguém ocorre perguntar como são os livros nos países onde os alunos aprendem.

Formação de professores – Em vez de ensinar o futuro professor a dar aula, gasta-se o tempo repetindo as teorias dos autores defuntos. Não se ensina a lidar com o cotidiano da sala de aula. Como se ensina regra de três? Como se ensina densidade? Portanto, os professores acabam tendo de se lembrar das aulas dos próprios professores quando estavam naquela mesma série. Parece que nossos educadores mais viajados jamais foram ver uma faculdade de educação do Primeiro Mundo.

Alfabetização de adultos – Há meio século de experiência acumulada. Conhecemos o risco da regressão ao analfabetismo, por parte daqueles que fizeram cursos de poucos meses. Sabemos das dificuldades enormes de aprendizado dos alunos acima de 40 anos (dois terços de nossos analfabetos). Sabemos como avaliar o aprendizado ao fim do curso. Conhecemos o impacto dos programas curtos de alfabetização sobre o emprego e a produtividade (é pífio, na melhor das hipóteses). Não obstante, há amnésia coletiva. Tudo foi esquecido. Estamos condenados a repetir os erros do passado, a gastar mal os recursos do contribuinte e a lesar as expectativas dos que acreditaram em promessas impossíveis.

A xenofobia seria compreensível se estivéssemos defendendo nossa criatividade pedagógica contra a invasão externa. Mas as práticas tupiniquins também não passam de modelos importados – como, aliás, acontece em todas as partes. Por exemplo, os europeus copiam a pós-graduação americana. Inovamos e a educação avança quando experimentamos e adaptamos o que melhor funcionou em outras paragens. O progresso resulta dos aperfeiçoamentos que se introduzem a cada dia. O critério não é a originalidade ou a pureza ideológica, mas o teste da realidade.


Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)

 
 
 
 
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