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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
O
relógio avariado
do Planalto
Está
em falta
entre os agentes supremos
do governo o hábito
respeitoso e
civilizador da pontualidade
Um
episódio de impontualidade sacramentou a saída do
deputado Fernando Gabeira do Partido dos Trabalhadores. Outro episódio
de impontualidade deitou uma sombra sobre a comemoração,
no Palácio do Planalto, do Dia do Professor, na semana passada.
O governo vai mal do relógio. Quem se importa? Sob o ponto
de vista da histórica leniência brasileira com a impontualidade,
tal característica não passaria de um pecadilho. Na
verdade, há na impontualidade mais razões do que imagina
nossa vã filosofia. Não há só indelicadeza.
Há soberba e prepotência. Transposta para a esfera
das relações de poder, a impontualidade é um
utensílio que reforça a dominação do
forte sobre o fraco, do rico sobre o pobre, do mandão sobre
o mandado, do poderoso sobre o indefeso.
O
caso de Gabeira foi amplamente noticiado. O ministro José
Dirceu, da Casa Civil, convidou-o a uma reunião em que faria
um derradeiro esforço para mantê-lo no partido. A reunião
estava marcada para as 11 horas da sexta-feira, dia 10, no gabinete
de Dirceu. Onze e quinze, e nada de o ministro aparecer. Onze e
meia, e nada. Acompanhava Gabeira, entre outros, a ministra do Meio
Ambiente, Marina Silva. Como se sabe, a gota d'água na decisão
do deputado de abandonar o PT fora a liberação, pelo
governo, do plantio da soja transgênica. A reunião
no Planalto versaria, portanto, sobre a questão ambiental,
sua principal bandeira. Quando deu uma hora de espera e nada de
Dirceu aparecer, Gabeira resolveu ir embora. "Deselegância
tem limite", afirmou. O fato de, três décadas atrás,
quando ambos militavam contra o regime militar, Gabeira ter sido
o cérebro do seqüestro do embaixador americano Charles
Burke Elbrick, moeda com a qual se conseguiu a libertação,
entre outros prisioneiros da ditadura, do líder estudantil
José Dirceu, apenas acrescentava à descortesia o patético.
No
caso do Dia do Professor, o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva chegou com uma hora de atraso ao encontro de 150 professores
que o aguardavam no Salão Oeste do Palácio do Planalto.
Entre eles se encontrava uma senhora de 69 anos, Justa Tarifa Valentim,
vinda de São Paulo. Dona Justa foi professora de Lula, por
três meses, na década de 50. É discutível
se uma professora que deu aulas por apenas três meses tenha
lembrança do aluno, ou o aluno dela, mas vá lá
que são as limitações da memória
humana diante dos imperativos do marketing? Era preciso arrumar
uma professora de Lula para a ocasião, e arrumou-se dona
Justa. Ocorre que, sem dúvida em decorrência do atraso,
do atropelo resultante, e da falta de preparação do
presidente para a cerimônia, Lula mal e mal cumprimentou a
professora, e foi em frente. Nem falou com ela. Dona Justa acabou
largada pelos cantos. Menos mal que, ao contrário de Gabeira,
ela não se ofendeu. "Não dava tempo, é assim
mesmo", conformou-se. Nem por isso, como no episódio anterior,
deixou-se de acrescentar ao descaso o patético.
O
antropólogo Roberto DaMatta, mestre na decifração
do significado da malandragem, do "sabe com quem está falando"
e de outros itens do repertório de usos e costumes brasileiros,
escreveu, num artigo publicado na semana passada pelo jornal O
Estado de S. Paulo, que "no Brasil a importância social
faculta descumprir horários e compromissos, de modo que,
quanto mais poderoso, mais atrasado". Eis uma lei de ouro das relações
pessoais no Brasil. O que está por cima julga de seu direito
fazer o que está por baixo esperar. No episódio Dirceu-Gabeira,
Dirceu achou de seu direito deixar o convidado esperando enquanto,
sem avisá-lo, ia até a Câmara dos Deputados
atender sabe-se lá a que urgência. Já Gabeira
não se sentiria no direito de, sem avisar, resolver dar uma
passada em algum outro lugar na hora do encontro. Se assim é
em qualquer repartição pública, onde o dono
do guichê tem o direito de fazer o usuário esperar
pelo tempo que bem entender, que dizer do Palácio do Planalto,
o guichê de todos os guichês, a mãe de todas
as repartições? Isso faz parte, para voltar a DaMatta,
do "exercício do poder à brasileira".
Com
licença do mestre, talvez nem se trate propriamente de característica
brasileira. Antes, seria uma característica das sociedades
atrasadas em geral, aquelas em que a igualdade ainda não
se impôs na relação entre as pessoas. Pois,
se a impontualidade é uma forma de dominação,
a pontualidade, como seu inverso, é expressão de igualitarismo.
É, para usar detestável palavrão em voga, uma
manifestação de "cidadania". Na pontualidade, duas
pessoas chegam junto. Empatam. Quer dizer: apresentam-se justas
e quites entre si. Esta é uma época em que não
cabe esperar grandes coisas dos governos. As engrenagens sociais,
econômicas e políticas, complexas demais, pesadas demais,
mostram-se com freqüência fora do alcance deles. Sobra
que já farão muito se começarem a atentar para
as coisas pequenas, ou aparentemente pequenas. Por exemplo, incutir
em seus agentes o valor respeitoso e civilizador da pontualidade.
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