Edição 1825 . 22 de outubro de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O relógio avariado
do Planalto

Está em falta entre os agentes supremos
do governo o hábito respeitoso e
civilizador da
pontualidade

Um episódio de impontualidade sacramentou a saída do deputado Fernando Gabeira do Partido dos Trabalhadores. Outro episódio de impontualidade deitou uma sombra sobre a comemoração, no Palácio do Planalto, do Dia do Professor, na semana passada. O governo vai mal do relógio. Quem se importa? Sob o ponto de vista da histórica leniência brasileira com a impontualidade, tal característica não passaria de um pecadilho. Na verdade, há na impontualidade mais razões do que imagina nossa vã filosofia. Não há só indelicadeza. Há soberba e prepotência. Transposta para a esfera das relações de poder, a impontualidade é um utensílio que reforça a dominação do forte sobre o fraco, do rico sobre o pobre, do mandão sobre o mandado, do poderoso sobre o indefeso.

O caso de Gabeira foi amplamente noticiado. O ministro José Dirceu, da Casa Civil, convidou-o a uma reunião em que faria um derradeiro esforço para mantê-lo no partido. A reunião estava marcada para as 11 horas da sexta-feira, dia 10, no gabinete de Dirceu. Onze e quinze, e nada de o ministro aparecer. Onze e meia, e nada. Acompanhava Gabeira, entre outros, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Como se sabe, a gota d'água na decisão do deputado de abandonar o PT fora a liberação, pelo governo, do plantio da soja transgênica. A reunião no Planalto versaria, portanto, sobre a questão ambiental, sua principal bandeira. Quando deu uma hora de espera e nada de Dirceu aparecer, Gabeira resolveu ir embora. "Deselegância tem limite", afirmou. O fato de, três décadas atrás, quando ambos militavam contra o regime militar, Gabeira ter sido o cérebro do seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, moeda com a qual se conseguiu a libertação, entre outros prisioneiros da ditadura, do líder estudantil José Dirceu, apenas acrescentava à descortesia o patético.

No caso do Dia do Professor, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou com uma hora de atraso ao encontro de 150 professores que o aguardavam no Salão Oeste do Palácio do Planalto. Entre eles se encontrava uma senhora de 69 anos, Justa Tarifa Valentim, vinda de São Paulo. Dona Justa foi professora de Lula, por três meses, na década de 50. É discutível se uma professora que deu aulas por apenas três meses tenha lembrança do aluno, ou o aluno dela, mas vá lá – que são as limitações da memória humana diante dos imperativos do marketing? Era preciso arrumar uma professora de Lula para a ocasião, e arrumou-se dona Justa. Ocorre que, sem dúvida em decorrência do atraso, do atropelo resultante, e da falta de preparação do presidente para a cerimônia, Lula mal e mal cumprimentou a professora, e foi em frente. Nem falou com ela. Dona Justa acabou largada pelos cantos. Menos mal que, ao contrário de Gabeira, ela não se ofendeu. "Não dava tempo, é assim mesmo", conformou-se. Nem por isso, como no episódio anterior, deixou-se de acrescentar ao descaso o patético.

O antropólogo Roberto DaMatta, mestre na decifração do significado da malandragem, do "sabe com quem está falando" e de outros itens do repertório de usos e costumes brasileiros, escreveu, num artigo publicado na semana passada pelo jornal O Estado de S. Paulo, que "no Brasil a importância social faculta descumprir horários e compromissos, de modo que, quanto mais poderoso, mais atrasado". Eis uma lei de ouro das relações pessoais no Brasil. O que está por cima julga de seu direito fazer o que está por baixo esperar. No episódio Dirceu-Gabeira, Dirceu achou de seu direito deixar o convidado esperando enquanto, sem avisá-lo, ia até a Câmara dos Deputados atender sabe-se lá a que urgência. Já Gabeira não se sentiria no direito de, sem avisar, resolver dar uma passada em algum outro lugar na hora do encontro. Se assim é em qualquer repartição pública, onde o dono do guichê tem o direito de fazer o usuário esperar pelo tempo que bem entender, que dizer do Palácio do Planalto, o guichê de todos os guichês, a mãe de todas as repartições? Isso faz parte, para voltar a DaMatta, do "exercício do poder à brasileira".

Com licença do mestre, talvez nem se trate propriamente de característica brasileira. Antes, seria uma característica das sociedades atrasadas em geral, aquelas em que a igualdade ainda não se impôs na relação entre as pessoas. Pois, se a impontualidade é uma forma de dominação, a pontualidade, como seu inverso, é expressão de igualitarismo. É, para usar detestável palavrão em voga, uma manifestação de "cidadania". Na pontualidade, duas pessoas chegam junto. Empatam. Quer dizer: apresentam-se justas e quites entre si. Esta é uma época em que não cabe esperar grandes coisas dos governos. As engrenagens sociais, econômicas e políticas, complexas demais, pesadas demais, mostram-se com freqüência fora do alcance deles. Sobra que já farão muito se começarem a atentar para as coisas pequenas, ou aparentemente pequenas. Por exemplo, incutir em seus agentes o valor respeitoso e civilizador da pontualidade.

 
 
 
 
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