Edição 1825 . 22 de outubro de 2003

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Cinema
Diretor e arquiteto

O inglês Ridley Scott faz de Los Angeles
a melhor personagem de Os Vigaristas


Isabela Boscov


Divulgação
Cage e Alison: o elenco se diverte, mas a cidade é a grande atração


Trailer e fotos do filme

Uma espécie de Lua de Papel em cores é como o co-roteirista Ted Griffin descreve Os Vigaristas (Matchstick Men, Estados Unidos, 2003), que estréia nesta sexta-feira no país. Em parte – aquela que lhe cabe –, Griffin está certo. O novo filme do diretor Ridley Scott trata, como seu predecessor, de um homem mais velho que tem a vida transformada pelo aparecimento de uma menina que talvez seja sua filha e que, como ele, tem grande talento para a vigarice. Para Roy (Nicolas Cage), essa propensão demonstrada por Angela (Alison Lohman, de 24 anos e passando muito bem por 14) é motivo de um misto de orgulho e culpa – uma combinação que, de resto, governa toda a sua vida. Roy usufrui a satisfação de ser um bom profissional, que sabe planejar e executar e tem o bom senso de não se envolver em golpes mais ambiciosos, que possam atrair a atenção da polícia e sujar sua ficha impecável. Mas, como explica para Angela, ele sabe que o que faz é desprezível: roubar de pessoas idosas, obesas ou infelizes, que não merecem ser ludibriadas. Em Roy, o peso da consciência se manifesta por meio de um transtorno obsessivo-compulsivo quase debilitante. Mesmo com a ajuda de seus medicamentos, obtidos ilegalmente, ele é presa de tiques nervosos, de uma incontrolável mania de limpeza e do pavor a qualquer espaço aberto – um obstáculo especialmente difícil de contornar para quem, como Roy, mora em Los Angeles. Ao perder suas pílulas no ralo da pia, Roy sem querer abre a porta para as variáveis que tentava eliminar de sua vida: os relacionamentos. Para conseguir uma nova receita, ele precisa ir a um psiquiatra, que o coloca em contato com sua filha – que, por sua vez, faz com que ele se sinta em dívida com seu parceiro (Sam Rockwell), até que tudo o mais escape ao seu controle.

Desde Thelma & Louise o inglês Scott não filmava com prazer tão perceptível e abria tanto espaço para o seu elenco. Mesmo Cage, que até o recente Adaptação andava numa fase decepcionante e repetitiva, parece estar se divertindo. O conjunto final, porém, seria apenas brando, não fosse a inspiração com que Scott retrata sua locação. A Los Angeles que se vê em Os Vigaristas é a da pintura de David Hockney – não por acaso, um estrangeiro na cidade, como Scott – e a do apuro das linhas modernistas dos anos 40 e 50: uma vastidão de luz, horizonte e azuis impossíveis. É uma aula magna na arte de caracterizar os personagens por meio dos ambientes em que eles circulam, e em captar numa geografia as perspectivas que a lente de uma câmera compreende melhor do que o olho humano. Scott não gosta muito da reputação que tem, de um cineasta que se preocupa mais com a composição visual do que com a história ou o desempenho dos atores. Mas, no caso de Os Vigaristas, essa é uma reputação merecida – bem merecida.

 
 
 
 
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