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Cinema
Diretor
e arquiteto
O
inglês Ridley Scott faz de Los Angeles
a melhor personagem de Os Vigaristas

Isabela
Boscov
Divulgação
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| Cage
e Alison: o elenco se diverte, mas a cidade é a grande
atração |
Uma
espécie de Lua de Papel em cores é como o co-roteirista
Ted Griffin descreve Os Vigaristas (Matchstick
Men, Estados Unidos, 2003), que estréia nesta sexta-feira
no país. Em parte aquela que lhe cabe , Griffin
está certo. O novo filme do diretor Ridley Scott trata, como
seu predecessor, de um homem mais velho que tem a vida transformada
pelo aparecimento de uma menina que talvez seja sua filha e que,
como ele, tem grande talento para a vigarice. Para Roy (Nicolas
Cage), essa propensão demonstrada por Angela (Alison Lohman,
de 24 anos e passando muito bem por 14) é motivo de um misto
de orgulho e culpa uma combinação que, de resto,
governa toda a sua vida. Roy usufrui a satisfação
de ser um bom profissional, que sabe planejar e executar e tem o
bom senso de não se envolver em golpes mais ambiciosos, que
possam atrair a atenção da polícia e sujar
sua ficha impecável. Mas, como explica para Angela, ele sabe
que o que faz é desprezível: roubar de pessoas idosas,
obesas ou infelizes, que não merecem ser ludibriadas. Em
Roy, o peso da consciência se manifesta por meio de um transtorno
obsessivo-compulsivo quase debilitante. Mesmo com a ajuda de seus
medicamentos, obtidos ilegalmente, ele é presa de tiques
nervosos, de uma incontrolável mania de limpeza e do pavor
a qualquer espaço aberto um obstáculo especialmente
difícil de contornar para quem, como Roy, mora em Los Angeles.
Ao perder suas pílulas no ralo da pia, Roy sem querer abre
a porta para as variáveis que tentava eliminar de sua vida:
os relacionamentos. Para conseguir uma nova receita, ele precisa
ir a um psiquiatra, que o coloca em contato com sua filha
que, por sua vez, faz com que ele se sinta em dívida com
seu parceiro (Sam Rockwell), até que tudo o mais escape ao
seu controle.
Desde
Thelma & Louise o inglês Scott não filmava
com prazer tão perceptível e abria tanto espaço
para o seu elenco. Mesmo Cage, que até o recente Adaptação
andava numa fase decepcionante e repetitiva, parece estar se divertindo.
O conjunto final, porém, seria apenas brando, não
fosse a inspiração com que Scott retrata sua locação.
A Los Angeles que se vê em Os Vigaristas é a
da pintura de David Hockney não por acaso, um estrangeiro
na cidade, como Scott e a do apuro das linhas modernistas
dos anos 40 e 50: uma vastidão de luz, horizonte e azuis
impossíveis. É uma aula magna na arte de caracterizar
os personagens por meio dos ambientes em que eles circulam, e em
captar numa geografia as perspectivas que a lente de uma câmera
compreende melhor do que o olho humano. Scott não gosta muito
da reputação que tem, de um cineasta que se preocupa
mais com a composição visual do que com a história
ou o desempenho dos atores. Mas, no caso de Os Vigaristas,
essa é uma reputação merecida bem merecida.
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