Edição 1825 . 22 de outubro de 2003

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Perfil
De ator global
a ator total

Objetivo, perseverante e muito
talentoso, Selton Mello brilha no
cinema. E no teatro, e na TV...


Marcelo Marthe


Fotos Oscar Cabral/álbum de família/divulgação
bral
Selton, em sua casa (à esq.), como calouro mirim (no alto, à dir.) e em Lisbela e o Prisioneiro: rolos, casos ficantes, quase-casamentos...


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Selton Mello lembra de sua adolescência como um período de inferno profissional. Depois de ganhar alguma notoriedade aos 11 anos, na novela Corpo a Corpo, exibida em 1984, ele caiu no esquecimento. Apesar de investir alto na carreira – seus pais mudaram-se de São Paulo para o Rio de Janeiro apenas para viabilizar seu sonho –, Selton passou os sete anos seguintes sem conseguir nada além de pontas na televisão. O jeito foi se virar num emprego de dublador, emprestando sua voz a filmes como Karatê Kid. "Eu achava que nunca mais seria ator. Virei um poço de desânimo, perdi a auto-estima e engordei muito", recorda-se. Como sabe qualquer um que não tenha passado os últimos tempos fora de órbita, sua sorte estava destinada a mudar – e como. Aos 30 anos, Selton é hoje um dos atores mais populares do país e pode se dar ao luxo de recusar papéis na TV para apostar naquilo que considera prioritário: o cinema. Nenhum ator brasileiro da nova geração vem colecionando tantos êxitos nessa área. Com sua veia humorística afiada, Selton virou um talismã para o diretor Guel Arraes, com quem fez o sucesso O Auto da Compadecida e Caramuru – A Invenção do Brasil. Lisbela e o Prisioneiro é o mais novo fenômeno de bilheteria da dupla Selton-Arraes. Em cartaz há dois meses, já acumula um público de 2,6 milhões de espectadores e até a semana passada permanecia em 219 salas. Esses números fazem do filme o sétimo mais visto de 2003, à frente de pesos-pesados como Exterminador do Futuro 3 e 007 – Um Novo Dia para Morrer.

A performance de Selton em Lisbela é uma amostra de suas habilidades. No papel de Leléu, um malandro cujo coração é fisgado pela donzela do título, ele demonstra timing perfeito: em segundos, é capaz de mudar da comédia para o melodrama e desse para a farsa, sem parecer artificial. "Além de ser um ator completo, Selton raciocina como diretor: ele interage com a câmera já pensando como a cena será editada e sabe crescer e baixar de tom apenas com um olhar ou uma mudança sutil na voz", diz Arraes. Com Leléu, o ator acrescenta mais um tipo nordestino engraçado a seu currículo – mas não involuntariamente engraçado, frise-se. "Minha primeira preocupação, sempre, é não fazer aquele sotaque caricato dos nordestinos de novela, que é constrangedor de tão ruim", diz Selton. Embora tenha se tornado um especialista em compor personagens leves como Leléu ou o Chicó de Compadecida, ele também funciona bem nos registros dramáticos – por exemplo, como o atormentado protagonista de Lavoura Arcaica, adaptado do romance de Raduan Nassar. Para fazer o filme, Selton teve de emagrecer 20 quilos. "Fiz uma dieta radical à base de líquidos. Mas, como a intenção era parecer mesmo um esqueleto, tive ainda de tomar um remédio para a tireóide que atrofiou meus músculos. Tudo sob acompanhamento médico, é claro", conta ele.

Selton, em suas próprias palavras, tem alma de administrador de empresas. Ele é seu próprio empresário, assessor de imprensa e também produtor teatral. Depois que foi redescoberto pela Globo, no início dos anos 90, passou a fazer novelas aos montes. Mas, com o sucesso de Compadecida, isso mudou. Já faz quase quatro anos que ele não se anima a participar de um folhetim. Contratado da Globo até 2002, Selton hoje não mantém vínculo com a emissora: negocia seus cachês trabalho a trabalho, como ocorreu em sua recente participação no programa Os Normais. "Os diretores da Globo me vêem ali desde criança, sabem discernir um cara bonitinho que vai durar três novelas de alguém que tem um trabalho consistente como o meu", diz. O tempo que economiza na TV é revertido para três atividades: o cinema (tem dois longas para estrear e iniciará as filmagens de um terceiro em novembro), o teatro (está excursionando pelo país com dois espetáculos, alternadamente) e o ócio. "Preciso de um tempo para curtir minhas coisas", diz o ator.

Selton foi batizado com uma fusão dos nomes de seus pais, a dona-de-casa Selva e o bancário Dalton – que hoje cuida das finanças do filhão. Ele nasceu em Passos, no interior mineiro, mudou-se para São Paulo ainda pequeno e vive no Rio desde que foi chamado para fazer novela na Globo. Antes mesmo de ser ator mirim, já atacava em outra área: a música. Aos 7 anos, ia a todos os shows de calouros que se possa imaginar, como os extintos programas do Bolinha e de Dárcio Campos, para cantar músicas de Roberto Carlos. Até recentemente, era guitarrista de uma banda grunge. Com 85 quilos declarados, distribuídos por 1,81 metro de altura, Selton tem um físico fofinho. "Sou o efeito sanfona em pessoa", brinca ele. Não é um porte de galã, mas isso não tem lhe causado problemas no mercado da azaração. O ator, cujo namoro mais notório foi com a exuberante Danielle Winits, hoje leva uma vida de solteirão desencanado em sua casa de quatro andares num condomínio fechado carioca. "Estou sozinho há uns três anos, mas é claro que sempre pintam rolos, casos ficantes, possíveis namoros, quase-casamentos. Procuro aproveitar a vida de um jeito maneiro", explica. Selton é mesmo maneiro, cara.

 
 
 
 
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