Edição 1825 . 22 de outubro de 2003

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Livros
Coração de estudante

A história de setenta dias de terror
que terminam em epifania, nos
tempos negros da ditadura


Roberto Pompeu de Toledo



Carmen Prado
O show de Gil na USP, em 26 de maio de 1973

Cale-se, do jornalista Caio Túlio Costa (A Girafa; 352 páginas; 43 reais), é um livro que começa com uma tragédia e termina com uma celebração. A tragédia é a morte, no dia 17 de março de 1973, vítima de torturas, no famigerado DOI-Codi de São Paulo, do estudante da USP Alexandre Vannucchi Leme, aos 22 anos. A celebração é um show que Gilberto Gil fez para os estudantes, em 26 de maio do mesmo ano, no campus da universidade. Entre uma data e outra, a máquina torpe do regime movera-se a todo o vapor contra a estudantada. Quarenta e quatro deles foram presos, sendo 43 da USP. Houve outro assassinato, além do de Vannucchi, o de Ronaldo Mouth Queiróz. Alguns poucos, como os dois mortos, tinham relação com a luta armada em curso contra o regime, mas a grande maioria apenas resistia com as pobres armas da política estudantil. Virtualmente todos mereceram o mesmo tratamento – pancada, choque, pau-de-arara. O show de Gil, que teve até gente trepada nas janelas do anfiteatro da Escola Politécnica, constituiu-se, na visão do autor, corroborada por vários depoimentos, num momento em que os estudantes lavaram a alma e espantaram o terror.


Cale-se
é a história dos setenta dias entre um evento e outro. Não se espere deste livro apuro literário nem elaboradas reflexões sobre o período. Tal qual no show de Gil, adivinha-se em suas páginas como que uma catarse do autor, ele próprio estudante ao tempo dos fatos narrados e igualmente tocado por eles. É um livro escrito, digamos, com coração de estudante. Até na linguagem, atravessada ora por um "putz!", ora por um "ficar na sua", é o jovem dos anos 70 que conduz a narrativa. O "cale-se" do título refere-se ao entendimento alternativo que a música Cálice, de Giberto Gil e Chico Buarque, oferecia. A música ("Pai, afasta de mim este cálice") fora proibida pelo regime. Seus autores, mesmo assim, tentaram cantá-la, num show duas semanas antes da apresentação de Gil na USP, mas tiveram o som dos microfones cortado. Agora, atendendo ao apelo dos estudantes, e em desafio aos censores, Gil foi em frente e cantou-a não uma, mas duas vezes. Ao som de Cálice, conheceu seu paroxismo um evento já de si apoteótico.

À morte de Vannucchi seguiram-se as características baixezas de lhe enterrarem o corpo como indigente, negando-o à família, e de inventarem que teria sido vítima de atropelamento. Era o regime no esplendor de sua nojeira. Contra esse estado de coisas insurgiam-se o "Babão", o "Bombom", o "Massa", o "Minhoca". Era assim, pelo apelido, como é próprio da moçada, que se tratava a turma da USP. Até um "Cascão" havia entre eles, inspirado no personagem das histórias infantis. A infância, para eles, ainda estava perto. Isso não impedia – antes, favorecia – que abrigassem delírios como o de enfrentar a ditadura pelas armas. Mesmo para aqueles que não tinham ligação com os movimentos armados, essa era uma alternativa debatida e deixada em reserva. Pois o show de Gil teve o efeito, segundo o livro, de mexer com os jovens até nesse ponto. "Estavam dadas as bases da transformação do sofrimento em prazer", escreve o autor, resumindo o impacto do evento; "dera-se mais um passo para o abandono definitivo da luta armada em favor de uma política pacífica de mobilização das massas." Lembre-se que Gil, como sócio fundador do tropicalismo, era um dos responsáveis maiores pelo aporte do prazer e da esculhambação entre os ingredientes da contestação à ordem vigente. Por isso mesmo, era hostilizado pela esquerda "séria". Naquele momento, e ao cabo de setenta dias de luto e pavor, deu-se como que uma reconciliação do grupo com a vida. Gil, no show, que o livro transcreve na íntegra, tanto canta quanto faz longos discursos. Lidas hoje, suas intervenções soam como prosa tumultuada. Naquele momento, funcionaram como uma epifania.

 
 
 
 
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