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Livros
Coração
de estudante
A
história de setenta dias de terror
que terminam em epifania, nos
tempos negros da ditadura

Roberto Pompeu de Toledo
Carmen Prado
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| O
show de Gil na USP, em 26 de maio de 1973 |
Cale-se,
do jornalista Caio Túlio Costa (A Girafa; 352 páginas;
43 reais), é um livro que começa com uma tragédia
e termina com uma celebração. A tragédia é
a morte, no dia 17 de março de 1973, vítima de torturas,
no famigerado DOI-Codi de São Paulo, do estudante da USP
Alexandre Vannucchi Leme, aos 22 anos. A celebração
é um show que Gilberto Gil fez para os estudantes, em 26
de maio do mesmo ano, no campus da universidade. Entre uma data
e outra, a máquina torpe do regime movera-se a todo o vapor
contra a estudantada. Quarenta e quatro deles foram presos, sendo
43 da USP. Houve outro assassinato, além do de Vannucchi,
o de Ronaldo Mouth Queiróz. Alguns poucos, como os dois mortos,
tinham relação com a luta armada em curso contra o
regime, mas a grande maioria apenas resistia com as pobres armas
da política estudantil. Virtualmente todos mereceram o mesmo
tratamento pancada, choque, pau-de-arara. O show de Gil,
que teve até gente trepada nas janelas do anfiteatro da Escola
Politécnica, constituiu-se, na visão do autor, corroborada
por vários depoimentos, num momento em que os estudantes
lavaram a alma e espantaram o terror.
Cale-se
é a história dos setenta dias entre um evento e outro.
Não se espere deste livro apuro literário nem elaboradas
reflexões sobre o período. Tal qual no show de Gil,
adivinha-se em suas páginas como que uma catarse do autor,
ele próprio estudante ao tempo dos fatos narrados e igualmente
tocado por eles. É um livro escrito, digamos, com coração
de estudante. Até na linguagem, atravessada ora por um "putz!",
ora por um "ficar na sua", é o jovem dos anos 70 que conduz
a narrativa. O "cale-se" do título refere-se ao entendimento
alternativo que a música Cálice, de Giberto
Gil e Chico Buarque, oferecia. A música ("Pai, afasta de
mim este cálice") fora proibida pelo regime. Seus autores,
mesmo assim, tentaram cantá-la, num show duas semanas antes
da apresentação de Gil na USP, mas tiveram o som dos
microfones cortado. Agora, atendendo ao apelo dos estudantes, e
em desafio aos censores, Gil foi em frente e cantou-a não
uma, mas duas vezes. Ao som de Cálice, conheceu seu
paroxismo um evento já de si apoteótico.
À
morte de Vannucchi seguiram-se as características baixezas
de lhe enterrarem o corpo como indigente, negando-o à família,
e de inventarem que teria sido vítima de atropelamento. Era
o regime no esplendor de sua nojeira. Contra esse estado de coisas
insurgiam-se o "Babão", o "Bombom", o "Massa", o "Minhoca".
Era assim, pelo apelido, como é próprio da moçada,
que se tratava a turma da USP. Até um "Cascão" havia
entre eles, inspirado no personagem das histórias infantis.
A infância, para eles, ainda estava perto. Isso não
impedia antes, favorecia que abrigassem delírios
como o de enfrentar a ditadura pelas armas. Mesmo para aqueles que
não tinham ligação com os movimentos armados,
essa era uma alternativa debatida e deixada em reserva. Pois o show
de Gil teve o efeito, segundo o livro, de mexer com os jovens até
nesse ponto. "Estavam dadas as bases da transformação
do sofrimento em prazer", escreve o autor, resumindo o impacto do
evento; "dera-se mais um passo para o abandono definitivo da luta
armada em favor de uma política pacífica de mobilização
das massas." Lembre-se que Gil, como sócio fundador do tropicalismo,
era um dos responsáveis maiores pelo aporte do prazer e da
esculhambação entre os ingredientes da contestação
à ordem vigente. Por isso mesmo, era hostilizado pela esquerda
"séria". Naquele momento, e ao cabo de setenta dias de luto
e pavor, deu-se como que uma reconciliação do grupo
com a vida. Gil, no show, que o livro transcreve na íntegra,
tanto canta quanto faz longos discursos. Lidas hoje, suas intervenções
soam como prosa tumultuada. Naquele momento, funcionaram como uma
epifania.
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