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Especial
Cobras e dólares
Os brasileiros com experiência no
país de Mao descrevem o dia-a-dia
e contam como se fecham negócios
no capitalismo de Estado chinês

Ariel
Kostman e Chrystiane Silva
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Fotos álbum de família

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"A
paciência é a grande arma para negociar na China. Eles
são hábeis nas relações comerciais. As reuniões de negócios
duram horas e ocorrem durante jantares. Nas fábricas,
a mão-de-obra ainda tem pouca capacidade para assimilar
conceitos como produtividade. Eles trabalham como no sistema
agrícola, por tarefas. É comum pararem no meio do expediente
para descansar."
RUBEN ANTONIO BISI, diretor
da Marcopolo, e o time dos funcionários na fábrica em
Changzhou |
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Em
apenas um ano, a China saltou da sétima colocação
para o segundo posto na lista dos principais destinos das exportações
do Brasil. Entre janeiro e setembro deste ano, os chineses compraram
3,4 bilhões de dólares em produtos brasileiros, o
dobro do mesmo período do ano passado. As vendas de soja
triturada, o item mais exportado, aumentaram mais de 250%. Os chineses
queriam mais soja, os americanos, os maiores exportadores mundiais,
não tinham grandes excedentes e o mercado comprador recorreu
ao Brasil. O outro pulo entre as principais exportações
foi dado pelo aço, ajudado pelo milagre imobiliário
chinês e pela competitividade da indústria siderúrgica
brasileira. A venda total de aço brasileiro à China
usado na construção civil aumentou 1.500% desde 1999.
A demanda chinesa foi o principal motor dessa decolagem.
No fim do ano passado, a Volkswagen do Brasil assinou um contrato
de 500 milhões de dólares para a venda de carros adaptados
às condições de tráfego na China. A
Embraer decidiu fincar raízes na Ásia para explorar
o mercado local. Fez um acordo comercial com a Avic II (Aviation
Industry Corporation) para fabricar jatos regionais na China. A
meta é produzir por mês um avião com capacidade
entre 30 e 110 lugares. A primeira aeronave deve ficar pronta em
dezembro. A fabricante de ônibus Marcopolo instalou-se em
2001 na cidade de Changzhou, quase 1.000 quilômetros ao sul
de Pequim, e já produz três modelos. A Embraco, uma
das pioneiras, fabrica compressores em Pequim desde 1995. A vantagem
dos que decidiram investir em fábricas na China é
contar com o conhecimento de mercado do parceiro local, uma imposição
do governo chinês.
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"Quando
fui à China pela primeira vez, pensei que ia encontrar
um país com muita gente pobre, todos andando de bicicleta.
Levei um choque. O que vi foram pessoas com carro novo,
telefone celular. Elas parecem contentes com o desenvolvimento
e pouco preocupadas com política. Dizem que o importante
é o país crescer e haver emprego."
LUIZ CABRAL, dono
de oito escolas de inglês em Pequim e Xangai |
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O
que mais impressiona os empresários brasileiros que atuam
na China é a velocidade das mudanças. Em poucos meses,
as cidades se transformam. "O ritmo de construção
deles é fantástico", diz Antonio Julio de Azevedo
Jr., gerente de contratos internacionais da Voith Siemens Hydro,
empresa que participa da construção da usina hidrelétrica
Três Gargantas. "Vou para lá a cada três meses
e sempre me espanto com o número de novos prédios,
viadutos e avenidas." Em Xangai, de um lado do rio ainda estão
as edificações antigas. Do outro, há prédios
com mais de oitenta andares. Em Pequim, as transformações
também são constantes. "Várias construções
antigas foram substituídas por prédios residenciais",
diz Marcos Andrade, ex-diretor da Samarco Mineradora. Mas ainda
existem grandes contrastes. Ruas sujas, poluição e
pobreza convivem lado a lado com a assepsia e a modernidade. Basta
se afastar um pouco das ruas principais para encontrar a velha China.
Roupas penduradas nas janelas dos prédios, barracas que vendem
comida e muita gente comendo de cócoras. "A China é
um país onde convivem várias camadas de civilização",
diz o engenheiro Sérgio Leite, diretor da Vale do Rio Doce
que morou quatro anos em Xangai. "Você vê um prédio
supermoderno sendo construído com andaimes de bambu."
Os hábitos dos chineses bafejados pelo sucesso econômico
estão mudando. Eles compram roupas de marca, relógios,
celulares. Freqüentam discotecas e restaurantes. Mas nem tudo
que é ocidental tem aceitação imediata. A maioria
dos chineses prefere não usar cheques nem cartões
de crédito. As transações em dinheiro ainda
superam as eletrônicas e os cheques. Por isso, eles andam
com os bolsos cheios de cédula de yuan. O hábito de
cuspir no chão ou em escarradeiras, sempre presentes nas
salas de estar das casas, está sendo combatido pelo governo
e pelo Partido Comunista. O risco de contágio da Sars, a
mortal pneumonia asiática, levou o governo a impor uma multa
de 200 dólares a quem cuspir na rua. "Aprender inglês
virou uma mania", diz Luiz Cabral, brasileiro que já abriu
oito escolas do idioma na China.
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"A
China é uma mistura de tradição e modernidade. Xangai
é futurista, com avenidas de até oito pistas. Mas os jantares
são tradicionais, com mais de trinta tipos de pratos,
entre eles carne de cachorro e de cobra."
MANUEL ALVAREZ, diretor
da Cosipa, que já viajou oito vezes para a China |
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Outra
peculiaridade a ser enfrentada pelos estrangeiros é a alimentação.
A primeira diferença é que os chineses preferem não
comprar animais já abatidos. Nos mercados, peixes, aves e
bichos exóticos, como cobra e escorpião, são
vendidos vivos. Cobras vivas ficam expostas nos restaurantes. Quanto
mais venenosas, mais caras. O cliente escolhe a cobra, o garçom
a enrola no braço e a leva até a mesa para confirmar
o pedido. O cozinheiro então corta a cabeça do animal
e separa o sangue em uma xícara. O líquido é
servido como bebida aos clientes, que apreciam o sangue do réptil
como fortificante e tônico sexual. Ser convidado para uma
refeição em casa é uma honra. Breno Rossi,
dono da exportadora de granitos Brex do Brasil, lembra-se de um
jantar de negócios em que o prato principal era pato. "A
maior honra para um convidado é comer a cabeça. E
eu tive de fazer isso", diz o empresário. Breno está
se saindo bem na China. Em dois anos, as exportações
da Brex para o país asiático cresceram 230%. Intermináveis,
os jantares são a ocasião preferida para tratar de
negócios. Demoram três ou até quatro horas.
À mesa, os hábitos dos chineses são estranhos
para a maioria dos ocidentais. Arrotar, comer de boca aberta ou
palitar os dentes são coisas normais. "É preciso ter
paciência. Por mais simples que seja, uma transação
qualquer demora no mínimo dois dias", diz o superintendente
de vendas no mercado externo da Cosipa, Manuel Raimundez Alvarez.
Pela experiência de Ruben Antonio Bisi, diretor da Marcopolo,
os primeiros contatos são feitos em mesas quadradas. De um
lado, sentam-se os chineses. Do outro, os estrangeiros. Após
cada reunião, faz-se uma ata, que é assinada por todos
os participantes. Mas essa ata não vale muita coisa. No encontro
seguinte, todos os pontos que já haviam sido definidos podem
ser revistos ou anulados. A reunião decisiva é feita
em uma mesa redonda, que simboliza a confiança entre os negociadores.
É preciso prestar atenção até mesmo
nas vírgulas dos contratos. Uma palavra fora do lugar é
suficiente para suspender um negócio.
Também é fundamental formar o guanxi, uma rede
de contatos semelhante ao que no Brasil os descolados chamam de
networking. "Quem não entra nessa teia não consegue
nada", diz Marcos Andrade, ex-diretor da Samarco, que viveu seis
anos na China. A corrupção é uma instituição.
É explícita até para os padrões brasileiros.
Dos portos às delegacias e nas repartições
equivalentes às juntas comerciais brasileiras, as coisas
só andam empurradas por propinas. A China ocupa a 59ª
posição na lista de 2002 dos países mais corruptos
do mundo, em que o Brasil é o 45º. Bangladesh, em 102º,
é o pior. A Finlândia, em primeiro, é o menos
corrupto.
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"Brasil
e China estão estreitando as relações. A exposição Guerreiros
de Xian e os Tesouros da Cidade Proibida foi visitada
por 800 000 pessoas em São Paulo. O maior público em uma
mostra temática no Brasil."
EDEMAR CID FERREIRA
posa ao lado de um dos agricultores chineses que encontraram
as estátuas em Xian |
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