Edição 1825 . 22 de outubro de 2003

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Especial
A grande hipocrisia

Cegados pelo potencial econômico, os
países ricos fecham os olhos à ditadura
e à violação dos direitos humanos na China


Leandra Peres


NESTA EDIÇÃO
As ambições do planeta China
Cobras e dólares
O peso da China
NA INTERNET
Em Profundidade: China

Por alguma razão ainda não explicada, os governos dos países ricos agem como se liberdade política fosse boa apenas para seus próprios povos. Os pobres chineses, em especial, não precisariam dela. Pelo menos nenhum governante ou líder empresarial poderoso do Ocidente com interesses econômicos na China levanta a voz quando chegam ao Ocidente notícias de atos bárbaros e cruéis cometidos pelo governo chinês contra seu povo. É um contraste forte com outras ditaduras e mesmo com outros governos democráticos do mundo. Fidel Castro, de Cuba, é condenado publicamente sempre que comete suas insanidades políticas, como o recente fuzilamento de cidadãos que pretendiam escapar da ilha em direção aos Estados Unidos. Mas é condenado ainda por entidades e governos por violações menores ou por apenas teimar em se manter no poder sem o respaldo de eleições livres. A Coréia do Norte também é mantida em hermético isolamento comercial e diplomático. A China parece protegida por uma imunidade virtual e hipócrita especialmente desenhada para superpotências do futuro.

As sanções internacionais à China ou são apenas verbais ou têm duração curta. Logo depois do massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, em que os militares chineses usaram tanques e metralhadoras contra estudantes desarmados, matando 200 deles, a China perdeu a condição de "parceira comercial especial" dos EUA. Quatro anos depois, lá estavam os chineses de volta ao círculo íntimo da Casa Branca. Em 1996, o presidente Bill Clinton deu mostras de se impacientar com a lentidão da prometida abertura política na China. Ameaçou cortar de novo os privilégios de comércio de Pequim, mas as trovoadas não viraram chuva, e tudo continuou na mesma. A hipocrisia americana que dá carta branca aos desmandos da ditadura chinesa se esconde atrás do argumento de que alguma forma de arrefecimento do regime será inevitável assim que se aprofundarem os laços comerciais da China com o Ocidente. Os exemplos de que à abertura econômica se segue a abertura política estão por toda parte. Na Ásia, a Coréia do Sul e Taiwan exemplificam bem esse fenômeno. No caso chinês, o que há é apenas a esperança de que essa tendência seja seguida. Por enquanto, no campo dos direitos humanos, a China evoluiu muito desde os tempos de Mao Tsé-tung, mas continua uma aberração pelos padrões dos países democráticos.

No início deste ano, o agricultor chinês Liu Baocheng foi condenado à pena de morte por transmitir involuntariamente a Sars, a pneumonia asiática, a outras quarenta pessoas. Um funcionário do serviço de saúde da província de Henan, no centro da China, corre o risco de ter o mesmo destino. O pecado desta vez foi a revelação de dados sobre o aumento nos casos de Aids na região. A Anistia Internacional considera subestimado o número de 1.060 execuções de chineses no ano passado. Qualquer que seja a cifra exata, a China é de longe a campeã mundial em número de execuções. Os acusados de um delito qualquer passam por julgamentos sumários, que duram poucos dias, e, condenados à morte, levam um tiro na nuca. Muitas vezes, as execuções são feitas em estádios. Dezenas de condenados são mortos diante de multidões, para que sirvam de exemplo. "Os ocidentais não conseguem imaginar o grau de poder discricionário que os dirigentes chineses possuem", diz o americano Ross Terril, veterano estudioso da China, que morou em Pequim e visita o país regularmente desde 1964.

A polícia chinesa pode manter por tempo indefinido uma pessoa presa sem acusação formal de crime. Bêbados, contra-revolucionários, pessoas acusadas de práticas anti-socialistas, dependentes de drogas e prostitutas podem desaparecer de repente, levados ninguém sabe para onde. É comum a condenação a trabalho forçado por até quatro anos. O acesso dos presos a advogados não é permitido durante o período de investigação. Há corrupção nos altos escalões sem punição e prostitutas desfilam nos lobbies dos melhores hotéis de algumas metrópoles chinesas com mais desembaraço do que o fazem em qualquer capital do Ocidente. Quer dizer: a punição, além de brutal, pode ser aleatória.

O controle que o governo chinês exerce sobre a população vai muito além da esfera política. Até o início de outubro, qualquer chinês ou chinesa que quisesse se casar ou se divorciar só poderia marcar a data depois de uma autorização escrita de seus empregadores. Casais que vivem nas cidades só podem ter um único filho. Quem desrespeita a lei paga multa altíssima. Na província de Guangdong, no sudeste da China e uma das mais ricas do país, um segundo filho custa oito vezes a renda anual do casal. Introduzida na década de 80, a política do filho único, desenhada para controlar o crescimento populacional do país, levou à esterilização de 16,4 milhões de mulheres e à vasectomia de 4 milhões de homens. O governo controla toda a produção jornalística e os servidores de acesso à internet são obrigados a instalar filtros que proíbem o acesso a sites que contenham expressões como "Praça da Paz Celestial" e "direitos humanos". Os servidores também são obrigados a notificar as autoridades sempre que alguém tenta esse tipo de acesso. Mais de 500.000 sites têm acesso bloqueado na China e 33 pessoas estão presas por usar a internet para fins "subversivos", como denunciar violações aos direitos humanos.

A discriminação contra as mulheres, tradicional na sociedade chinesa, é tolerada na prática, embora seja oficialmente combatida pelo Partido Comunista. O uso do ultra-som é proibido, para evitar que o casal saiba com antecedência o sexo do bebê e force o aborto das meninas. Ainda assim, as organizações não-governamentais e a ONU recebem relatos periódicos de abortos e assassinatos de bebês do sexo feminino. Os próprios pais chegam a matar as filhas recém-nascidas. O motivo é que, enquanto os homens serão produtivos para a família, as moças só darão despesa, em particular quando o pai precisar dar o dote obrigatório na hora do casamento. Em razão dos abortos de meninas e dos assassinatos, o número de bebês do sexo feminino registrados na China é muito inferior ao de crianças do sexo masculino. Em 1990, para cada 100 meninas nasciam na China 111,3 meninos. Essa proporção havia subido para 116,9 garotos para cada 100 garotas em 2002. Em uma mostra de que a irracionalidade das ações humanas resiste à passagem das eras, a brutalidade dos pais para evitar o nascimento de meninas gerou uma falta crônica de mulheres adultas. Na pior tradição oriental, o problema tem sido contornado com o aumento da freqüência de outro crime: o seqüestro de moças que se submeterão a casamentos forçados. De acordo com dados do governo chinês, entre 1990 e 1998 a polícia libertou 65.000 mulheres que foram obrigadas a se casar contra a vontade. Já se verificaram casos de mulheres que se casam com um homem e acabam servindo sexualmente a todos os irmãos dele. De acordo com estudos do Banco Mundial, até mesmo a liberalização da economia tem afetado negativamente as mulheres. Em 1990, elas recebiam o equivalente a 83% do salário de um homem. Em 1999, esse porcentual havia se reduzido para 70%.

Tão zelosos e estritos com outros países, os americanos fingem não enxergar o que se passa na China. Com a exceção de dois curtos períodos na década de 80 e nos anos 90, a política que predomina em relação à China é a do "engajamento". Chineses e americanos reataram relações diplomáticas em 1972, quando o então secretário de Estado, Henry Kissinger, organizou a viagem à China do presidente Richard Nixon. Foi um dos feitos diplomáticos mais espetaculares do século passado. Kissinger se impressionou com a personalidade de Mao Tsé-tung. Ele o descreveu em seu livro de memórias como alguém que "irradia autoridade e profunda sabedoria". O ex-secretário apreciou mesmo a descoberta de que os chineses tinham tanta desconfiança da União Soviética quanto ele próprio e Nixon. Foi o início de uma grande amizade. Depois da morte de Mao, as relações melhoraram ainda mais. Deng Xiaoping, o sucessor, era bem mais eficiente na costura de acordos bilaterais. Definiu-se, assim, a política oficial americana de usar o comércio como forma de aproximar a liderança chinesa das idéias americanas de direitos humanos.

A justificativa dessa teoria é que, adicionados às transações comerciais, vão também valores de cada cultura. Assim, junto com os computadores, os Estados Unidos exportariam pequenas doses do sonho americano. A interdependência criada a partir de investimentos estrangeiros também ajudaria a disciplinar os países receptores do dinheiro. O trabalho infantil, por exemplo, poderia ser reduzido com a proibição a empresas americanas na China de usar crianças para fabricar seus produtos. A política americana funcionou até certo ponto. As fábricas chinesas sentem-se mais vigiadas pelo Ocidente e tratam com mais dignidade os empregados. Mas, claramente, o gosto pelo consumo e pelas marcas requintadas pegou mais na China até agora do que o apego à democracia e o respeito aos direitos humanos.

No livro Os EUA Precisam de uma Política Externa?, Kissinger resume a questão: "Não há sentido numa política de confronto gratuito, quando a China não representa uma ameaça real". Além disso, é necessário lembrar que os líderes chineses têm ganho pontos na Casa Branca. Um dos primeiros países a apoiar a ação dos Estados Unidos no combate ao terrorismo foi a China. Os contrastes criados por um sistema político fechado e por uma economia mais aberta levantam questões sobre a sustentabilidade do modelo chinês de "socialismo de mercado". Jonathan Spence, professor da Universidade Yale, nos EUA, e um dos maiores estudiosos sobre China, acredita em mudanças graduais que tragam maior espaço de representação política. "A China não seguirá necessariamente um modelo de democracia ocidental. Ela pode achar uma solução própria. Há muitas maneiras de fazer mudanças graduais", disse Spence a VEJA. Um exemplo disso é a experiência de conselhos locais em alguns vilarejos, que permitem a "eleição" de "candidatos" que não são obrigatoriamente membros do Partido Comunista. É uma esperança.

 




7 000 anos de civilização

Invenções e eventos da história
chinesa que influenciaram o mundo



Fontes: Cambridge Illustrated History of China, Cronologia das Ciências e das Descobertas, Dicionário de Inventos e Inventores

 
 
 
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