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Especial
A
grande hipocrisia
Cegados
pelo potencial econômico, os
países ricos fecham os olhos à ditadura
e à violação dos direitos humanos na China

Leandra
Peres
Por
alguma razão ainda não explicada, os governos dos
países ricos agem como se liberdade política fosse
boa apenas para seus próprios povos. Os pobres chineses,
em especial, não precisariam dela. Pelo menos nenhum governante
ou líder empresarial poderoso do Ocidente com interesses
econômicos na China levanta a voz quando chegam ao Ocidente
notícias de atos bárbaros e cruéis cometidos
pelo governo chinês contra seu povo. É um contraste
forte com outras ditaduras e mesmo com outros governos democráticos
do mundo. Fidel Castro, de Cuba, é condenado publicamente
sempre que comete suas insanidades políticas, como o recente
fuzilamento de cidadãos que pretendiam escapar da ilha em
direção aos Estados Unidos. Mas é condenado
ainda por entidades e governos por violações menores
ou por apenas teimar em se manter no poder sem o respaldo de eleições
livres. A Coréia do Norte também é mantida
em hermético isolamento comercial e diplomático. A
China parece protegida por uma imunidade virtual e hipócrita
especialmente desenhada para superpotências do futuro.
As
sanções internacionais à China ou são
apenas verbais ou têm duração curta. Logo depois
do massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, em que os
militares chineses usaram tanques e metralhadoras contra estudantes
desarmados, matando 200 deles, a China perdeu a condição
de "parceira comercial especial" dos EUA. Quatro anos depois, lá
estavam os chineses de volta ao círculo íntimo da
Casa Branca. Em 1996, o presidente Bill Clinton deu mostras de se
impacientar com a lentidão da prometida abertura política
na China. Ameaçou cortar de novo os privilégios de
comércio de Pequim, mas as trovoadas não viraram chuva,
e tudo continuou na mesma. A hipocrisia americana que dá
carta branca aos desmandos da ditadura chinesa se esconde atrás
do argumento de que alguma forma de arrefecimento do regime será
inevitável assim que se aprofundarem os laços comerciais
da China com o Ocidente. Os exemplos de que à abertura econômica
se segue a abertura política estão por toda parte.
Na Ásia, a Coréia do Sul e Taiwan exemplificam bem
esse fenômeno. No caso chinês, o que há é
apenas a esperança de que essa tendência seja seguida.
Por enquanto, no campo dos direitos humanos, a China evoluiu muito
desde os tempos de Mao Tsé-tung, mas continua uma aberração
pelos padrões dos países democráticos.
No
início deste ano, o agricultor chinês Liu Baocheng
foi condenado à pena de morte por transmitir involuntariamente
a Sars, a pneumonia asiática, a outras quarenta pessoas.
Um funcionário do serviço de saúde da província
de Henan, no centro da China, corre o risco de ter o mesmo destino.
O pecado desta vez foi a revelação de dados sobre
o aumento nos casos de Aids na região. A Anistia Internacional
considera subestimado o número de 1.060
execuções de chineses no ano passado. Qualquer que
seja a cifra exata, a China é de longe a campeã mundial
em número de execuções. Os acusados de um delito
qualquer passam por julgamentos sumários, que duram poucos
dias, e, condenados à morte, levam um tiro na nuca. Muitas
vezes, as execuções são feitas em estádios.
Dezenas de condenados são mortos diante de multidões,
para que sirvam de exemplo. "Os ocidentais não conseguem
imaginar o grau de poder discricionário que os dirigentes
chineses possuem", diz o americano Ross Terril, veterano estudioso
da China, que morou em Pequim e visita o país regularmente
desde 1964.
A
polícia chinesa pode manter por tempo indefinido uma pessoa
presa sem acusação formal de crime. Bêbados,
contra-revolucionários, pessoas acusadas de práticas
anti-socialistas, dependentes de drogas e prostitutas podem desaparecer
de repente, levados ninguém sabe para onde. É comum
a condenação a trabalho forçado por até
quatro anos. O acesso dos presos a advogados não é
permitido durante o período de investigação.
Há corrupção nos altos escalões sem
punição e prostitutas desfilam nos lobbies dos melhores
hotéis de algumas metrópoles chinesas com mais desembaraço
do que o fazem em qualquer capital do Ocidente. Quer dizer: a punição,
além de brutal, pode ser aleatória.
O
controle que o governo chinês exerce sobre a população
vai muito além da esfera política. Até o início
de outubro, qualquer chinês ou chinesa que quisesse se casar
ou se divorciar só poderia marcar a data depois de uma autorização
escrita de seus empregadores. Casais que vivem nas cidades só
podem ter um único filho. Quem desrespeita a lei paga multa
altíssima. Na província de Guangdong, no sudeste da
China e uma das mais ricas do país, um segundo filho custa
oito vezes a renda anual do casal. Introduzida na década
de 80, a política do filho único, desenhada para controlar
o crescimento populacional do país, levou à esterilização
de 16,4 milhões de mulheres e à vasectomia de 4 milhões
de homens. O governo controla toda a produção jornalística
e os servidores de acesso à internet são obrigados
a instalar filtros que proíbem o acesso a sites que contenham
expressões como "Praça da Paz Celestial" e "direitos
humanos". Os servidores também são obrigados a notificar
as autoridades sempre que alguém tenta esse tipo de acesso.
Mais de 500.000 sites têm acesso
bloqueado na China e 33 pessoas estão presas por usar a internet
para fins "subversivos", como denunciar violações
aos direitos humanos.
A
discriminação contra as mulheres, tradicional na sociedade
chinesa, é tolerada na prática, embora seja oficialmente
combatida pelo Partido Comunista. O uso do ultra-som é proibido,
para evitar que o casal saiba com antecedência o sexo do bebê
e force o aborto das meninas. Ainda assim, as organizações
não-governamentais e a ONU recebem relatos periódicos
de abortos e assassinatos de bebês do sexo feminino. Os próprios
pais chegam a matar as filhas recém-nascidas. O motivo é
que, enquanto os homens serão produtivos para a família,
as moças só darão despesa, em particular quando
o pai precisar dar o dote obrigatório na hora do casamento.
Em razão dos abortos de meninas e dos assassinatos, o número
de bebês do sexo feminino registrados na China é muito
inferior ao de crianças do sexo masculino. Em 1990, para
cada 100 meninas nasciam na China 111,3 meninos. Essa proporção
havia subido para 116,9 garotos para cada 100 garotas em 2002. Em
uma mostra de que a irracionalidade das ações humanas
resiste à passagem das eras, a brutalidade dos pais para
evitar o nascimento de meninas gerou uma falta crônica de
mulheres adultas. Na pior tradição oriental, o problema
tem sido contornado com o aumento da freqüência de outro
crime: o seqüestro de moças que se submeterão
a casamentos forçados. De acordo com dados do governo chinês,
entre 1990 e 1998 a polícia libertou 65.000
mulheres que foram obrigadas a se casar contra a vontade. Já
se verificaram casos de mulheres que se casam com um homem e acabam
servindo sexualmente a todos os irmãos dele. De acordo com
estudos do Banco Mundial, até mesmo a liberalização
da economia tem afetado negativamente as mulheres. Em 1990, elas
recebiam o equivalente a 83% do salário de um homem. Em 1999,
esse porcentual havia se reduzido para 70%.
Tão
zelosos e estritos com outros países, os americanos fingem
não enxergar o que se passa na China. Com a exceção
de dois curtos períodos na década de 80 e nos anos
90, a política que predomina em relação à
China é a do "engajamento". Chineses e americanos reataram
relações diplomáticas em 1972, quando o então
secretário de Estado, Henry Kissinger, organizou a viagem
à China do presidente Richard Nixon. Foi um dos feitos diplomáticos
mais espetaculares do século passado. Kissinger se impressionou
com a personalidade de Mao Tsé-tung. Ele o descreveu em seu
livro de memórias como alguém que "irradia autoridade
e profunda sabedoria". O ex-secretário apreciou mesmo a descoberta
de que os chineses tinham tanta desconfiança da União
Soviética quanto ele próprio e Nixon. Foi o início
de uma grande amizade. Depois da morte de Mao, as relações
melhoraram ainda mais. Deng Xiaoping, o sucessor, era bem mais eficiente
na costura de acordos bilaterais. Definiu-se, assim, a política
oficial americana de usar o comércio como forma de aproximar
a liderança chinesa das idéias americanas de direitos
humanos.
A
justificativa dessa teoria é que, adicionados às transações
comerciais, vão também valores de cada cultura. Assim,
junto com os computadores, os Estados Unidos exportariam pequenas
doses do sonho americano. A interdependência criada a partir
de investimentos estrangeiros também ajudaria a disciplinar
os países receptores do dinheiro. O trabalho infantil, por
exemplo, poderia ser reduzido com a proibição a empresas
americanas na China de usar crianças para fabricar seus produtos.
A política americana funcionou até certo ponto. As
fábricas chinesas sentem-se mais vigiadas pelo Ocidente e
tratam com mais dignidade os empregados. Mas, claramente, o gosto
pelo consumo e pelas marcas requintadas pegou mais na China até
agora do que o apego à democracia e o respeito aos direitos
humanos.
No
livro Os EUA Precisam de uma Política Externa?, Kissinger
resume a questão: "Não há sentido numa política
de confronto gratuito, quando a China não representa uma
ameaça real". Além disso, é necessário
lembrar que os líderes chineses têm ganho pontos na
Casa Branca. Um dos primeiros países a apoiar a ação
dos Estados Unidos no combate ao terrorismo foi a China. Os contrastes
criados por um sistema político fechado e por uma economia
mais aberta levantam questões sobre a sustentabilidade do
modelo chinês de "socialismo de mercado". Jonathan Spence,
professor da Universidade Yale, nos EUA, e um dos maiores estudiosos
sobre China, acredita em mudanças graduais que tragam maior
espaço de representação política. "A
China não seguirá necessariamente um modelo de democracia
ocidental. Ela pode achar uma solução própria.
Há muitas maneiras de fazer mudanças graduais", disse
Spence a VEJA. Um exemplo disso é a experiência de
conselhos locais em alguns vilarejos, que permitem a "eleição"
de "candidatos" que não são obrigatoriamente membros
do Partido Comunista. É uma esperança.
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