Edição 1825 . 22 de outubro de 2003

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Sociedade
Vive la polémique!

Agora é a calcinha fio-dental que
agita debates na França: tecido
de menos, exposição de mais


Flávia Varella, de Paris

 
Divulgação
A propaganda recolhida: apelação e controle nas escolas

Os franceses pensam que calcinha e biquíni fio-dental são coisa de brasileira. Mas tente se lembrar da última vez em que viu um, fora do Carnaval. Saiu de moda há anos e mesmo assim nunca foi muito além do Posto 9 de Ipanema. Na França, ao contrário, ele está por toda parte. É mais fácil ver os minúsculos triângulos das calcinhas fio-dental saindo por cima das calças cintura baixa das madames do que lenços no pescoço. Além de usar as incômodas calcinhas, as francesas alimentam uma indústria ansiosa por expandir o mercado. E é justamente por isso que o fio-dental – string, para os franceses – ganhou o status de polêmica nacional do momento. Para coibir seu uso na faixa etária infanto-juvenil, origem das discussões mais acaloradas, escolas introduziram em seus regulamentos a necessidade de "uma vestimenta correta". Uma delas acrescentou a obrigatoriedade de roupas que "respeitem a decência e a segurança". Mas foi quando o fio-dental apareceu em grande formato nos cartazes publicitários da marca de lingerie suíça Sloggi que a indignação explodiu, com os argumentos habituais: apelação publicitária, exploração do corpo feminino e ofensa aos mais pudicos. Até o governo teve de tomar posição. Os cartazes com modelos com a lingerie minimalista agarradas a barras de boate de strip-tease ou com luvas de boxe diante de um homem e de costas para o público tiveram de ser retirados pelo anunciante.

Sempre afeita ao debate das grandes questões da humanidade, a França discute o fio-dental com desvelo. O sociólogo Jean-Paul Amadieu analisa o uso da microcalcinha como "o atual rito de passagem para a idade adulta". A deputada socialista e ex-ministra Ségolène Royal acha a proibição do fio-dental nas escolas uma boa coisa: "Aos olhos dos meninos, o fio-dental reduz as jovens ao seu traseiro. Depois nos surpreendemos que garotas sejam vítimas de violência sexual". O ministro do Ensino Escolar, Xavier Darcos, questionado sobre a interdição nas escolas, disse considerar "normal que se peça às jovens, assim que elas começam a ser desejáveis, que se portem de maneira a não provocar ninguém". À porta de uma das escolas envolvidas, as meninas desdenham da polêmica. "Está na moda, e daí?", diz uma. "É um acessório de moda como uma pulseira, uma bolsa" ou "a gente vê muito bem o fio-dental da professora de matemática", provocam outras. Enquanto a nação discute suas implicações sociais, os fabricantes vendem fio-dental a rodo. A marca Dim, que detém 60% do mercado, informa que as compras de fio-dental mais que dobraram entre 2002 e 2003. "Nunca vi um modelo de lingerie fazer tanto sucesso", disse a VEJA a diretora Véronique Carn. Só a rede C&A vende 12.000 por semana. Um estudo do Instituto Francês de Moda estima que o fio-dental seja o responsável pelo crescimento recente das vendas de lingerie acima das médias do mercado de vestuário.

 
 
 
 
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