Edição 1825 . 22 de outubro de 2003

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Turismo
Tem de gostar
muito do Brasil

Da falta de vôos a descabidos maus tratos,
sobram motivos para
os estrangeiros
evitarem
as viagens ao país. Mesmo
assim,
há os que persistem


Diogo Schelp


Você visitaria um país distante dos roteiros turísticos mais completos, com poucas e caras opções de vôos, onde poucos falam outro idioma além da complicada língua local, existe franca exploração de preços para estrangeiros, os níveis de insegurança são internacionalmente famosos, a conservação de monumentos é precária, as estradas são esburacadas e as informações sobre lugares históricos ou belezas naturais são elementares, quando existem? Convenhamos, é difícil convencer-se de que vale a pena visitar o Brasil. Não é por acaso que o país ocupa o 34º posto no ranking do turismo internacional e perdeu 20% do movimento de visitantes de 2001 para o ano passado. Mesmo assim, 3,8 milhões de estrangeiros estiveram por aqui em 2002.


Claudio Rossi
O EXECUTIVO
"Vou ficar uma semana em São Paulo para uma feira de educação. Gosto de ir a restaurantes e museus, se bem que nesse quesito Londres é mais bem servida. O trânsito da cidade é o que me irrita."
Graham Snape, inglês de 56 anos, já veio ao Brasil três vezes, a trabalho


A Embratur, que planeja elevar esse total para 9 milhões de visitantes em quatro anos e triplicar os 3 bilhões de dólares gastos por estrangeiros no país, fez um estudo para mapear quem são esses turistas que vencem tantos obstáculos e insistem em conhecer o Brasil. Descobriu dados e gente interessantes. Só uma minoria vem ao país como resultado de uma política consistente de marketing no exterior. Quase 70% dos visitantes recebidos no ano passado já haviam estado aqui anteriormente. Mais de 50% fizeram a primeira visita por influência de relatos de amigos que já tinham vindo ao país. A maioria deles chega reclamando de ter ficado no avião pelo menos quatro horas a mais que o suportável para uma viagem confortável. Perto de 15% recorreram à internet para colher informações básicas antes da viagem. A desinformação sobre o Brasil é tanta que muitos se surpreendem quando chegam aqui. "Decidimos passar as férias no Brasil porque somos admiradores da arquitetura modernista brasileira, mas não imaginávamos que o país tivesse uma diversidade cultural tão grande", disse Oriol Casas Cancer, de 31 anos, espanhol, enquanto visitava Salvador com sua namorada holandesa, Candice de Rooij, de 29 anos.



Eduardo Queiroga
O BON VIVANT
"Não estou interessado em atrações turísticas ou praias. Venho para conhecer pessoas. Adoro as mulheres brasileiras. Não existe motivo melhor para visitar o Brasil."
Patrice,
francês de 43 anos, trabalha na construção civil e mora em Paris. Na última viagem, passou seis dias em Fortaleza e quatro no Recife

Como esse casal de europeus, grande parte dos turistas chega ao Brasil com motivação específica. É o caso do pescador de tucunaré na Amazônia, da estudante portuguesa que é fã das novelas brasileiras e do negro americano que quer conhecer a influência africana na cultura baiana. Também há os que passam apenas o Carnaval no Brasil e as levas de homens desacompanhados que desembarcam no Nordeste interessados em sexo barato. Em razão da crise na Argentina, caiu à metade a freqüência dos visitantes do país vizinho, que vinham dando alguma consistência à estrutura de turismo receptivo no sul do país. "Mas mesmo assim, e ainda que tenham sido sempre tratados a pontapés no Brasil, os argentinos continuam a ser nossos clientes mais importantes", diz Tasso Gadzanis, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens. "Isso mostra que precisamos perder o preconceito e anunciar o Brasil no mercado sul-americano."

Marcia Lima
OS APOSENTADOS
"Viajamos todo ano, quase sempre para um país tropical. Decidimos vir ao Brasil convencidos por nosso vizinho. Eu tinha a imagem de um Rio muito violento. Mas não vi assaltos e achei as praias bem policiadas."
Elena Messina,
professora universitária italiana de 62 anos, acompanhada do marido, Giuseppe, de 65 anos, e de um grupo de vinte italianos


Desde o início deste ano, a Embratur só cuida da promoção do Brasil no exterior como destino turístico. Livre de tarefas como atribuir estrelas aos hotéis ou licenças a motoristas de vans, espera-se que a empresa possa melhorar o foco de sua atuação. "Estamos aumentando nossa participação em feiras e vendendo o país em toda a sua diversidade", diz Eduardo Sanovicz, presidente da Embratur. É pouco. O orçamento da companhia na área de publicidade é de 12 milhões de reais. O governo gasta nesse tipo de promoção menos do que a Jamaica – país com metade do tamanho de Sergipe e cuja população não passa de 2,7 milhões de habitantes. A própria Bahia, sozinha, consome quase a mesma coisa que o governo federal. No ano passado foram 10 milhões de reais para promover o Estado no exterior. Salvador é a terceira cidade mais visitada por estrangeiros, atrás de Rio de Janeiro e São Paulo, cujo grande trunfo é o turismo ligado a feiras e convenções de negócios. No uso desse dinheiro escasso, os baianos procuram ser criativos. "Anunciar no exterior é caro", diz Cláudio Taboada, presidente da empresa estadual de turismo. "Mas existem formas mais baratas de criar uma imagem positiva, como incentivar a produção de documentários sobre a cultura e o esporte."



Carlos Edvardo Berni
O PESCADOR
"A Amazônia é um dos melhores lugares do mundo para a pesca esportiva. Acho inconcebível que um americano tenha de desembarcar em São Paulo e depois voar de novo em direção ao norte para chegar à floresta."
Timothy Anderson,
de 51 anos, empresário americano, pesca todo ano no Brasil

O desafio torna-se mais complexo porque existem inúmeros detalhes a superar. O Brasil fica a pelo menos dez horas de viagem dos principais países emissores de turistas – quanto a isso, não há o que fazer. As companhias aéreas, numa crise mundial, reduziram em 6% o total de assentos oferecidos em rotas ao país. A imprensa estrangeira dá mais destaque à pobreza e à violência do Brasil do que a suas belezas naturais. Segundo o Ministério da Educação, só 15% dos universitários conseguem comunicar-se em espanhol e 35% dizem saber inglês – imagine-se o que ocorre entre os 90% da população que não têm curso superior. Não faltam hotéis que insistem em cobrar de estrangeiros preços diferenciados – mais altos, claro. Para complicar, 77% dos turistas que vêm de outros países chegam aqui sem ter contratado os serviços de agências de viagem e acabam ainda mais expostos a essas dificuldades.

Oscar Cabral
AS MOCHILEIRAS
"De tanto ouvirmos falar bem do Brasil, decidimos vir, depois de uma boa pesquisa na internet. No Rio, esquecemos uma máquina fotográfica no táxi, mas o motorista a achou e a devolveu no hotel."
Mona Badani e Elena Gold,
estudantes americanas de 25 anos, pela primeira vez no Brasil


Alguns desses problemas podem ser reduzidos. Para minimizar as escalas longas e desconexas nos aeroportos, por exemplo, há a possibilidade de aumentar a quantidade de vôos fretados a serviço de turistas. "Temos só 2% de vôos domésticos desse tipo, enquanto na Europa a taxa de vôos fretados é de 40%", diz Milton Zuanazzi, secretário nacional de Políticas de Turismo do Ministério do Turismo. Isso também baratearia as tarifas. Um europeu que paga o equivalente a 200 reais por uma passagem de Berlim a Paris se assusta com os 360 reais que se cobram para ir de São Paulo a Brasília – percurso praticamente igual ao realizado entre as capitais da Europa. Outro investimento prioritário, por razões óbvias, é proporcionar segurança nas áreas de grande afluxo turístico. "É uma regra simples", diz José Manuel Iglesias Garcia, sócio de uma agência receptiva em Salvador. "Se durante toda a viagem o turista não for assaltado nem uma vez, ele sai dizendo que quer voltar ao Brasil." Nos primeiros nove meses deste ano, a Delegacia Especial de Atendimento ao Turista no Rio de Janeiro registrou 2.290 ocorrências envolvendo estrangeiros.

 


Com reportagem de Adriana Negreiros,
Danielle Nogueira, Giuliano Ventura e Leonardo Coutinho

 
 
 
 
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