|
|
Turismo
Tem
de gostar
muito do Brasil
Da
falta de vôos a descabidos
maus tratos,
sobram motivos para os
estrangeiros
evitarem as
viagens ao país. Mesmo
assim,
há os que persistem

Diogo Schelp
Você
visitaria um país distante dos roteiros turísticos
mais completos, com poucas e caras opções de vôos,
onde poucos falam outro idioma além da complicada língua
local, existe franca exploração de preços para
estrangeiros, os níveis de insegurança são
internacionalmente famosos, a conservação de monumentos
é precária, as estradas são esburacadas e as
informações sobre lugares históricos ou belezas
naturais são elementares, quando existem? Convenhamos, é
difícil convencer-se de que vale a pena visitar o Brasil.
Não é por acaso que o país ocupa o 34º
posto no ranking do turismo internacional e perdeu 20% do movimento
de visitantes de 2001 para o ano passado. Mesmo assim, 3,8 milhões
de estrangeiros estiveram por aqui em 2002.
Claudio Rossi
 |
O
EXECUTIVO
"Vou ficar uma semana em São Paulo para uma feira
de educação. Gosto de ir a restaurantes e museus,
se bem que nesse quesito Londres é mais bem servida.
O trânsito da cidade é o que me irrita."
Graham Snape, inglês de 56 anos, já veio
ao Brasil três vezes, a trabalho |
A Embratur, que planeja elevar esse total para 9 milhões
de visitantes em quatro anos e triplicar os 3 bilhões de
dólares gastos por estrangeiros no país, fez um estudo
para mapear quem são esses turistas que vencem tantos obstáculos
e insistem em conhecer o Brasil. Descobriu dados e gente interessantes.
Só uma minoria vem ao país como resultado de uma política
consistente de marketing no exterior. Quase 70% dos visitantes recebidos
no ano passado já haviam estado aqui anteriormente. Mais
de 50% fizeram a primeira visita por influência de relatos
de amigos que já tinham vindo ao país. A maioria deles
chega reclamando de ter ficado no avião pelo menos quatro
horas a mais que o suportável para uma viagem confortável.
Perto de 15% recorreram à internet para colher informações
básicas antes da viagem. A desinformação sobre
o Brasil é tanta que muitos se surpreendem quando chegam
aqui. "Decidimos passar as férias no Brasil porque somos
admiradores da arquitetura modernista brasileira, mas não
imaginávamos que o país tivesse uma diversidade cultural
tão grande", disse Oriol Casas Cancer, de 31 anos, espanhol,
enquanto visitava Salvador com sua namorada holandesa, Candice de
Rooij, de 29 anos.
Eduardo Queiroga
 |
O
BON VIVANT
"Não estou interessado em atrações
turísticas ou praias. Venho para conhecer pessoas. Adoro
as mulheres brasileiras. Não existe motivo melhor para
visitar o Brasil."
Patrice, francês de 43 anos, trabalha na construção
civil e mora em Paris. Na última viagem, passou seis
dias em Fortaleza e quatro no Recife |
Como
esse casal de europeus, grande parte dos turistas chega ao Brasil
com motivação específica. É o caso do
pescador de tucunaré na Amazônia, da estudante portuguesa
que é fã das novelas brasileiras e do negro americano
que quer conhecer a influência africana na cultura baiana.
Também há os que passam apenas o Carnaval no Brasil
e as levas de homens desacompanhados que desembarcam no Nordeste
interessados em sexo barato. Em razão da crise na Argentina,
caiu à metade a freqüência dos visitantes do país
vizinho, que vinham dando alguma consistência à estrutura
de turismo receptivo no sul do país. "Mas mesmo assim, e
ainda que tenham sido sempre tratados a pontapés no Brasil,
os argentinos continuam a ser nossos clientes mais importantes",
diz Tasso Gadzanis, presidente da Associação Brasileira
de Agências de Viagens. "Isso mostra que precisamos perder
o preconceito e anunciar o Brasil no mercado sul-americano."
Marcia Lima
 |
OS
APOSENTADOS
"Viajamos todo ano, quase sempre para um
país tropical. Decidimos vir ao Brasil convencidos por
nosso vizinho. Eu tinha a imagem de um Rio muito violento. Mas
não vi assaltos e achei as praias bem policiadas."
Elena Messina, professora universitária italiana
de 62 anos, acompanhada do marido, Giuseppe, de 65 anos, e de
um grupo de vinte italianos |
Desde o início deste ano, a Embratur só cuida da promoção
do Brasil no exterior como destino turístico. Livre de tarefas
como atribuir estrelas aos hotéis ou licenças a motoristas
de vans, espera-se que a empresa possa melhorar o foco de sua atuação.
"Estamos aumentando nossa participação em feiras e
vendendo o país em toda a sua diversidade", diz Eduardo Sanovicz,
presidente da Embratur. É pouco. O orçamento da companhia
na área de publicidade é de 12 milhões de reais.
O governo gasta nesse tipo de promoção menos do que
a Jamaica país com metade do tamanho de Sergipe e
cuja população não passa de 2,7 milhões
de habitantes. A própria Bahia, sozinha, consome quase a
mesma coisa que o governo federal. No ano passado foram 10 milhões
de reais para promover o Estado no exterior. Salvador é a
terceira cidade mais visitada por estrangeiros, atrás de
Rio de Janeiro e São Paulo, cujo grande trunfo é o
turismo ligado a feiras e convenções de negócios.
No uso desse dinheiro escasso, os baianos procuram ser criativos.
"Anunciar no exterior é caro", diz Cláudio Taboada,
presidente da empresa estadual de turismo. "Mas existem formas mais
baratas de criar uma imagem positiva, como incentivar a produção
de documentários sobre a cultura e o esporte."
Carlos Edvardo Berni
 |
O
PESCADOR
"A Amazônia é um dos melhores lugares
do mundo para a pesca esportiva. Acho inconcebível que
um americano tenha de desembarcar em São Paulo e depois
voar de novo em direção ao norte para chegar à
floresta."
Timothy Anderson, de 51 anos, empresário americano,
pesca todo ano no Brasil |
O
desafio torna-se mais complexo porque existem inúmeros detalhes
a superar. O Brasil fica a pelo menos dez horas de viagem dos principais
países emissores de turistas quanto a isso, não
há o que fazer. As companhias aéreas, numa crise mundial,
reduziram em 6% o total de assentos oferecidos em rotas ao país.
A imprensa estrangeira dá mais destaque à pobreza
e à violência do Brasil do que a suas belezas naturais.
Segundo o Ministério da Educação, só
15% dos universitários conseguem comunicar-se em espanhol
e 35% dizem saber inglês imagine-se o que ocorre entre
os 90% da população que não têm curso
superior. Não faltam hotéis que insistem em cobrar
de estrangeiros preços diferenciados mais altos, claro.
Para complicar, 77% dos turistas que vêm de outros países
chegam aqui sem ter contratado os serviços de agências
de viagem e acabam ainda mais expostos a essas dificuldades.
Oscar Cabral
 |
AS
MOCHILEIRAS
"De tanto ouvirmos falar bem do Brasil, decidimos vir,
depois de uma boa pesquisa na internet. No Rio, esquecemos uma
máquina fotográfica no táxi, mas o motorista
a achou e a devolveu no hotel."
Mona Badani e Elena Gold, estudantes americanas de 25
anos, pela primeira vez no Brasil |
Alguns desses problemas podem ser reduzidos. Para minimizar as escalas
longas e desconexas nos aeroportos, por exemplo, há a possibilidade
de aumentar a quantidade de vôos fretados a serviço
de turistas. "Temos só 2% de vôos domésticos
desse tipo, enquanto na Europa a taxa de vôos fretados é
de 40%", diz Milton Zuanazzi, secretário nacional de Políticas
de Turismo do Ministério do Turismo. Isso também baratearia
as tarifas. Um europeu que paga o equivalente a 200 reais por uma
passagem de Berlim a Paris se assusta com os 360 reais que se cobram
para ir de São Paulo a Brasília percurso praticamente
igual ao realizado entre as capitais da Europa. Outro investimento
prioritário, por razões óbvias, é proporcionar
segurança nas áreas de grande afluxo turístico.
"É uma regra simples", diz José Manuel Iglesias Garcia,
sócio de uma agência receptiva em Salvador. "Se durante
toda a viagem o turista não for assaltado nem uma vez, ele
sai dizendo que quer voltar ao Brasil." Nos primeiros nove meses
deste ano, a Delegacia Especial de Atendimento ao Turista no Rio
de Janeiro registrou 2.290 ocorrências
envolvendo estrangeiros.
Com
reportagem de
Adriana Negreiros,
Danielle Nogueira, Giuliano Ventura e Leonardo Coutinho
|