Edição 1825 . 22 de outubro de 2003

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Justiça
A dura vida no Big Brother

Prisão de segurança máxima,
Presidente Bernardes
usa câmeras
e psicologia para controlar detentos


Thaís Oyama

 
Jonne Roriz/AE
Bernardes: terreno ŕ prova de túneis e monitores espalhados por todos os cantos

Uma máquina de fazer doidos. Assim o traficante Luiz Fernando da Costa, o "Fernandinho Beira-Mar", preso mais notório do Centro de Readaptação Penitenciária de Presidente Bernardes, definiu aquele que é considerado um dos presídios mais rigorosos do mundo – a versão brasileira das temidas supermax, as prisões de segurança máxima americanas. A penitenciária, construída no interior de São Paulo, a 580 quilômetros da capital, é também conhecida como "masmorra" ou Big Brother, numa referência às 23 câmeras que monitoram o tempo todo os movimentos dos presos. Seus 49 internos, para lá encaminhados por serem particularmente perigosos ou por terem cometido crimes em outras penitenciárias, permanecem trancafiados em celas individuais quase 24 horas por dia. Não têm acesso a nenhuma atividade recreacional ou educativa, não podem ver TV, ouvir rádio nem ler jornais e revistas. Isso porque o Big Brother não foi criado com o intuito de reeducar ou ressocializar, e sim para: 1) manter implacavelmente confinados os que tiveram a má sorte de ir parar lá; e 2) lembrar aos 94.000 presos paulistas que, se eles estão pensando em rebelião, a vida pode ficar bem pior do que está.

Seu formato atual é fruto da humilhante constatação a que chegou a Secretaria da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo em fevereiro de 2001: a de que havia perdido o controle das cadeias paulistas. Naquela data, a facção criminosa autodenominada Primeiro Comando da Capital (PCC) promoveu a maior rebelião já ocorrida no sistema penitenciário brasileiro, amotinando simultaneamente 29 prisões de São Paulo. Em resposta ao desafio, a secretaria criou, pouco tempo depois, o Regime Disciplinar Diferenciado – um conjunto de medidas draconianas que visava a isolar os líderes do PCC e a reverter a sensação pública de que o Estado não era capaz de controlar nem mesmo os criminosos presos. A cadeia de Presidente Bernardes é o principal instrumento desse regime – e destino anunciado de todo aquele que ameace quebrar o frágil equilíbrio das cadeias. Os números sugerem que a má fama tem dado resultados: no ano passado foram registradas oito rebeliões em São Paulo. Neste ano, nenhuma. Em 2002, a quantidade de homicídios nas prisões chegou a 97 – número oito vezes maior que o registrado nos primeiros sete meses de 2003.

 
Fotos Claudio Rossi

Controle total: câmeras e vigilância em torre blindada

O grande trunfo de Bernardes está menos em sua estrutura física, até agora invicta, do que naquilo que o sistema tem de invisível. O Big Brother carcerário foi concebido para intimidar e confundir. A incerteza dos presos em relação à localização das câmeras, por exemplo, faz com que se sintam vigiados o tempo todo, ainda que não estejam sob os monitores. A ausência de rotina – os horários de sol mudam diariamente e, a cada quinze dias, os detentos mudam de cela – acentua a sensação de insegurança. Para completar, o rigor das normas relativas à disciplina não deixa margem para que ninguém se sinta "em casa". Nas paredes das celas, nada de pôsteres ou flâmulas. Até o número de fotos de parentes é controlado: apenas duas. São, sem dúvida, medidas de segurança – facilitam a revista diária, por exemplo –, mas não deixam de servir a outro fim. "Ao privar o indivíduo de suas referências, elas provocam uma sensação de ruptura com o mundo externo. O preso se sente isolado e despido de seu status anterior", analisa a psicóloga e psicanalista Carla Bonadio Audi. Desde que foi criado, o presídio registrou dois suicídios. Casos de depressão são freqüentes. O diretor de segurança de Bernardes, Brás de Oliveira, diz que aprendeu a detectar quando eles se manifestam: "O preso começa a falar sozinho ou fica mudo de repente".

Por lei, o período máximo de internação em Bernardes é de 180 dias – prorrogáveis por mais 180, em caso de indisciplina grave. Um projeto do Ministério da Justiça, na fila de votação do Congresso, propõe que o Regime Disciplinar Diferenciado, hoje restrito a São Paulo, se estenda a todo o território nacional, o que implicaria a construção de diversos Big Brothers pelo país. O que esse tipo de prisão pretende é esfriar a violência de alguns detentos dados a organizar rebeliões em outros presídios. Quem está no centro de um complô para inflamar os internos de determinada unidade corre o risco de ser transferido para Presidente Bernardes. Como o regime lá é famoso pela dureza, presume-se que esses presidiários pensarão duas vezes antes de comandar nova rebelião no futuro ou cometer qualquer falta indisciplinar grave, como homicídio de um outro detento.

Para alguns internos, o isolamento não é a pior das privações. José Márcio Felício chegou ao presídio como um dos mais temidos líderes do PCC. Foi um dos organizadores da grande rebelião de 2001, que demandava nada menos que o fechamento de uma penitenciária, o Anexo da Casa de Custódia de Taubaté. Seis meses de Big Brother baixaram sua crista. Submetido à norma que impede a entrada de alimentos que não os fornecidos pela direção (as visitas só podem trazer determinados produtos e, mesmo assim, em ocasiões especiais), Geleião, como é conhecido, escreveu ao secretário adjunto da Administração Penitenciária para fazer pedido singelo. Queria, como pediu humildemente, autorização para comer 200 gramas de mortadela. A solicitação foi negada.

 

Linha dura

Algumas das regras que regulam a rotina
dos presos de Presidente Bernardes

Passam 22 horas e meia do dia encerrados em celas individuais. O banho de sol é permitido por uma hora e meia. O horário varia para que os detentos nunca saibam o momento em que deixarão a cela

Não podem ver TV, ouvir rádio nem ler jornais ou revistas. A única leitura permitida é a dos livros da biblioteca do presídio  

Não têm nenhuma atividade educacional ou recreativa. Todo equipamento esportivo, como bolas de futebol, está proibido  

Não é permitido "decorar" as celas com pôsteres, desenhos ou rabiscos  

Há controles rigorosos sobre os objetos pessoais de cada detento. Fotos de parentes, por exemplo, estão limitadas a duas  

Cartas, só de pessoas relacionadas em uma lista previamente analisada e aprovada pela direção  

Durante a visita, os presos permanecem atrás de uma grade de ferro protegida por tela, o que impede a troca de objetos. O único contato físico é pelas pontas dos dedos

 

Masmorra moderna

As medidas para dificultar a fuga dos
presos mais perigosos do país

As torres de vigilância são protegidas por vidros blindados. O armamento dos policiais inclui fuzis FAL, capazes de derrubar um helicóptero

Para evitar o pouso de helicópteros, cabos de aço cruzam, de ponta a ponta, a área superior do presídio  

As 160 celas têm paredes de concreto maciço e portas de aço, no lugar de grades. As janelas, protegidas por barras de ferro e vidro blindado, dão para um pátio permanentemente ocupado por cães rottweiler

Um sistema de bloqueio de telefones celulares descarrega a bateria de qualquer aparelho que entre na área proibida  

Os pátios para banho de sol têm muralhas de 7 metros de altura. Os presos os utilizam individualmente ou em grupos de cinco – sempre vigiados por uma câmera, quatro agentes e um cachorro  

As muralhas que delimitam a área da prisão adentram o solo até atingir a superfície rochosa  

O terreno é coberto por uma camada de 1 metro de concreto, recheado com chapas de aço, para impedir a escavação de túneis

 

O dia em que Beira-Mar chorou

Cabelo cortado com máquina 2, barba raspada e 10 quilos mais magro, o preso Fernando Beira-Mar amarga dose extra de solidão em Presidente Bernardes. Ao contrário da maioria dos internos, o traficante que transpôs as fronteiras nacionais e acabou preso na Colômbia toma banho de sol sozinho (os outros o fazem em grupos de cinco), só vai para o pátio na presença de quatro agentes penitenciários (orientados a dirigir-lhe a palavra apenas em caso de necessidade) e ocupa cela tão distante das demais que nem que grite consegue ser ouvido pelo vizinho mais próximo.

Quando não está dormindo, lê – mas consegue manter a disciplina até nisso. Recentemente, um diretor ofereceu-lhe um exemplar de O Senhor dos Anéis. O traficante recusou a oferta: "Obrigado, doutor, mas isso é história da carochinha. Eu não leio para passar o tempo. Leio para aprender". Na chegada, trazia um dicionário de inglês, já pensando na remota hipótese de uma deportação para os Estados Unidos. Atualmente, lê um livro de direito. Não reclama nem faz reivindicações. Até agora, tem mantido a promessa de não causar problemas no Big Brother. "Isto aqui é uma chuva que vai passar. Vou esperar", costuma dizer. Foi visto chorando apenas uma vez: quando ouviu decolar do pátio um helicóptero que, pensava, havia vindo para transferi-lo para um presídio carioca.

Cerca de 300 cartas endereçadas a ele já chegaram a Bernardes. A maioria continha declarações de amor; outras traziam pedidos, como o da mulher que queria sua ajuda para expulsar um inquilino que se recusava a desocupar seu imóvel. Até o momento, o preso solicitou apenas duas entrevistas com o diretor, uma delas logo no início da internação. Queria autorização para ser visitado por "pelo menos" duas de suas alegadas cinco mulheres. Sem chance: teria de escolher uma só. "Fico com a Elizete, então", disse. Elizete da Silva Lira, a quem o traficante chama em cartas de "minha deusa", é mãe de dois de seus dez filhos.

 
 
 
 
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