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Justiça
A
dura vida no Big Brother
Prisão de segurança máxima,
Presidente Bernardes
usa câmeras
e psicologia para controlar detentos

Thaís
Oyama
Jonne Roriz/AE
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| Bernardes:
terreno ŕ prova de túneis e monitores espalhados por todos os
cantos |
Uma
máquina de fazer doidos. Assim o traficante Luiz Fernando
da Costa, o "Fernandinho Beira-Mar", preso mais notório do
Centro de Readaptação Penitenciária de Presidente
Bernardes, definiu aquele que é considerado um dos presídios
mais rigorosos do mundo a versão brasileira das temidas
supermax, as prisões de segurança máxima
americanas. A penitenciária, construída no interior
de São Paulo, a 580 quilômetros da capital, é
também conhecida como "masmorra" ou Big Brother, numa referência
às 23 câmeras que monitoram o tempo todo os movimentos
dos presos. Seus 49 internos, para lá encaminhados por serem
particularmente perigosos ou por terem cometido crimes em outras
penitenciárias, permanecem trancafiados em celas individuais
quase 24 horas por dia. Não têm acesso a nenhuma atividade
recreacional ou educativa, não podem ver TV, ouvir rádio
nem ler jornais e revistas. Isso porque o Big Brother não
foi criado com o intuito de reeducar ou ressocializar, e sim para:
1) manter implacavelmente confinados os que tiveram a má
sorte de ir parar lá; e 2) lembrar aos 94.000 presos paulistas
que, se eles estão pensando em rebelião, a vida pode
ficar bem pior do que está.
Seu formato atual é fruto da humilhante constatação
a que chegou a Secretaria da Administração Penitenciária
do Estado de São Paulo em fevereiro de 2001: a de que havia
perdido o controle das cadeias paulistas. Naquela data, a facção
criminosa autodenominada Primeiro Comando da Capital (PCC) promoveu
a maior rebelião já ocorrida no sistema penitenciário
brasileiro, amotinando simultaneamente 29 prisões de São
Paulo. Em resposta ao desafio, a secretaria criou, pouco tempo depois,
o Regime Disciplinar Diferenciado um conjunto de medidas
draconianas que visava a isolar os líderes do PCC e a reverter
a sensação pública de que o Estado não
era capaz de controlar nem mesmo os criminosos presos. A cadeia
de Presidente Bernardes é o principal instrumento desse regime
e destino anunciado de todo aquele que ameace quebrar o frágil
equilíbrio das cadeias. Os números sugerem que a má
fama tem dado resultados: no ano passado foram registradas oito
rebeliões em São Paulo. Neste ano, nenhuma. Em 2002,
a quantidade de homicídios nas prisões chegou a 97
número oito vezes maior que o registrado nos primeiros
sete meses de 2003.
Fotos Claudio Rossi
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Controle
total: câmeras e vigilância em torre blindada
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O
grande trunfo de Bernardes está menos em sua estrutura física,
até agora invicta, do que naquilo que o sistema tem de invisível.
O Big Brother carcerário foi concebido para intimidar e confundir.
A incerteza dos presos em relação à localização
das câmeras, por exemplo, faz com que se sintam vigiados o
tempo todo, ainda que não estejam sob os monitores. A ausência
de rotina os horários de sol mudam diariamente e,
a cada quinze dias, os detentos mudam de cela acentua a sensação
de insegurança. Para completar, o rigor das normas relativas
à disciplina não deixa margem para que ninguém
se sinta "em casa". Nas paredes das celas, nada de pôsteres
ou flâmulas. Até o número de fotos de parentes
é controlado: apenas duas. São, sem dúvida,
medidas de segurança facilitam a revista diária,
por exemplo , mas não deixam de servir a outro fim.
"Ao privar o indivíduo de suas referências, elas provocam
uma sensação de ruptura com o mundo externo. O preso
se sente isolado e despido de seu status anterior", analisa a psicóloga
e psicanalista Carla Bonadio Audi. Desde que foi criado, o presídio
registrou dois suicídios. Casos de depressão são
freqüentes. O diretor de segurança de Bernardes, Brás
de Oliveira, diz que aprendeu a detectar quando eles se manifestam:
"O preso começa a falar sozinho ou fica mudo de repente".
Por lei, o período máximo de internação
em Bernardes é de 180 dias prorrogáveis por
mais 180, em caso de indisciplina grave. Um projeto do Ministério
da Justiça, na fila de votação do Congresso,
propõe que o Regime Disciplinar Diferenciado, hoje restrito
a São Paulo, se estenda a todo o território nacional,
o que implicaria a construção de diversos Big Brothers
pelo país. O que esse tipo de prisão pretende é
esfriar a violência de alguns detentos dados a organizar rebeliões
em outros presídios. Quem está no centro de um complô
para inflamar os internos de determinada unidade corre o risco de
ser transferido para Presidente Bernardes. Como o regime lá
é famoso pela dureza, presume-se que esses presidiários
pensarão duas vezes antes de comandar nova rebelião
no futuro ou cometer qualquer falta indisciplinar grave, como homicídio
de um outro detento.
Para alguns internos, o isolamento não é a pior das
privações. José Márcio Felício
chegou ao presídio como um dos mais temidos líderes
do PCC. Foi um dos organizadores da grande rebelião de 2001,
que demandava nada menos que o fechamento de uma penitenciária,
o Anexo da Casa de Custódia de Taubaté. Seis meses
de Big Brother baixaram sua crista. Submetido à norma que
impede a entrada de alimentos que não os fornecidos pela
direção (as visitas só podem trazer determinados
produtos e, mesmo assim, em ocasiões especiais), Geleião,
como é conhecido, escreveu ao secretário adjunto da
Administração Penitenciária para fazer pedido
singelo. Queria, como pediu humildemente, autorização
para comer 200 gramas de mortadela. A solicitação
foi negada.
| Linha
dura
Algumas
das regras que regulam a rotina
dos presos de Presidente Bernardes
Passam 22 horas e meia do dia encerrados em celas individuais.
O banho de sol é permitido por uma hora e meia.
O horário varia para que os detentos nunca saibam
o momento em que deixarão a cela
Não podem ver TV, ouvir rádio nem ler
jornais ou revistas. A única leitura permitida
é a dos livros da biblioteca do presídio
Não têm nenhuma atividade educacional ou
recreativa. Todo equipamento esportivo, como bolas de
futebol, está proibido
Não é permitido "decorar" as celas com
pôsteres, desenhos ou rabiscos
Há
controles rigorosos sobre os objetos pessoais de cada
detento. Fotos de parentes, por exemplo, estão
limitadas a duas
Cartas, só de pessoas relacionadas em uma lista
previamente analisada e aprovada pela direção
Durante a visita, os presos permanecem atrás
de uma grade de ferro protegida por tela, o que impede
a troca de objetos. O único contato físico
é pelas pontas dos dedos
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| Masmorra
moderna
As
medidas para dificultar a fuga dos
presos mais perigosos do país
As torres de vigilância são protegidas
por vidros blindados. O armamento dos policiais inclui
fuzis FAL, capazes de derrubar um helicóptero
Para evitar o pouso de helicópteros, cabos de
aço cruzam, de ponta a ponta, a área superior
do presídio
As 160 celas têm paredes de concreto maciço
e portas de aço, no lugar de grades. As janelas,
protegidas por barras de ferro e vidro blindado, dão
para um pátio permanentemente ocupado por cães
rottweiler
Um sistema de bloqueio de telefones celulares descarrega
a bateria de qualquer aparelho que entre na área
proibida
Os pátios para banho de sol têm muralhas
de 7 metros de altura. Os presos os utilizam individualmente
ou em grupos de cinco sempre vigiados por uma
câmera, quatro agentes e um cachorro
As
muralhas que delimitam a área da prisão
adentram o solo até atingir a superfície
rochosa
O
terreno é coberto por uma camada de 1 metro de
concreto, recheado com chapas de aço, para impedir
a escavação de túneis
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O
dia em que Beira-Mar chorou
Cabelo cortado com máquina 2, barba raspada e
10 quilos mais magro, o preso Fernando Beira-Mar amarga
dose extra de solidão em Presidente Bernardes.
Ao contrário da maioria dos internos, o traficante
que transpôs as fronteiras nacionais e acabou
preso na Colômbia toma banho de sol sozinho (os
outros o fazem em grupos de cinco), só vai para
o pátio na presença de quatro agentes
penitenciários (orientados a dirigir-lhe a palavra
apenas em caso de necessidade) e ocupa cela tão
distante das demais que nem que grite consegue ser ouvido
pelo vizinho mais próximo.
Quando não está dormindo, lê
mas consegue manter a disciplina até nisso. Recentemente,
um diretor ofereceu-lhe um exemplar de O Senhor dos
Anéis. O traficante recusou a oferta: "Obrigado,
doutor, mas isso é história da carochinha.
Eu não leio para passar o tempo. Leio para aprender".
Na chegada, trazia um dicionário de inglês,
já pensando na remota hipótese de uma
deportação para os Estados Unidos. Atualmente,
lê um livro de direito. Não reclama nem
faz reivindicações. Até agora,
tem mantido a promessa de não causar problemas
no Big Brother. "Isto aqui é uma chuva que vai
passar. Vou esperar", costuma dizer. Foi visto chorando
apenas uma vez: quando ouviu decolar do pátio
um helicóptero que, pensava, havia vindo para
transferi-lo para um presídio carioca.
Cerca de 300 cartas endereçadas a ele já
chegaram a Bernardes. A maioria continha declarações
de amor; outras traziam pedidos, como o da mulher que
queria sua ajuda para expulsar um inquilino que se recusava
a desocupar seu imóvel. Até o momento,
o preso solicitou apenas duas entrevistas com o diretor,
uma delas logo no início da internação.
Queria autorização para ser visitado por
"pelo menos" duas de suas alegadas cinco mulheres. Sem
chance: teria de escolher uma só. "Fico com a
Elizete, então", disse. Elizete da Silva Lira,
a quem o traficante chama em cartas de "minha deusa",
é mãe de dois de seus dez filhos.
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