Edição 1825 . 22 de outubro de 2003

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Realeza
A rainha do deserto

Rania da Jordânia é bonita, simpática,
chique e ainda defende as causas certas

Todo mundo comentou na época e a história é repetida até hoje: ao ser coroada rainha da Jordânia, em 1999, Rania, a bonita, articulada e elegante mulher do rei Abdullah II, usou à guisa de coroa a tiara de diamantes da cunhada, a princesa Haya. "Para que gastar um monte de dinheiro numa coisa que só vou usar raramente?", disse, toda modesta, na época. E assim, de tiara emprestada, Rania brilhou ao lado do marido atarracado e sem glamour. Apesar do coque bufante e da maquiagem pesada, já era uma visão de beleza e porte imponente, capazes de encantar os súditos e ajudar na aceitação popular de um novo e imprevisto soberano. De lá para cá, Rania só fez refinar seus dotes. Depois de ter a terceira filha, em setembro de 2000, emagreceu até o padrão de modelo. O que economizou com a tiara, gastou em roupas de grifes, jóias, sapatos e uma vastíssima coleção de bolsas (em Amã, é chamada de "rainha das bolsas"). Aprendeu a se maquiar, a deixar soltos os cabelos brilhantes ou a prendê-los em penteados elegantes. No começo do mês, em visitas seguidas a Paris e a Estocolmo, deslumbrou os anfitriões com sua vivacidade e sua figura impecável, tanto de dia, em terninhos e conjuntos justos e salto altíssimo, quanto nas noites de gala, nos longos de refinada inspiração oriental que costuma usar. Numa parte do mundo onde até as mulheres emancipadas estão voltando a usar o véu, Rania só cobre os cabelos quando vai à mesquita e projeta uma imagem de independência e segurança quase sem paralelos.

A plebéia Rania, filha de um médico palestino criada no Kuwait e formada em administração de empresas pela Universidade Americana no Cairo, casou-se com Abdullah em 1993. O príncipe, filho mais velho do rei Hussein da Jordânia, não era herdeiro do trono – antes dele vinha o tio, Hassan. Duas semanas antes de morrer, de câncer, Hussein virou o jogo e pôs seu primogênito na frente da fila. E assim o casal se viu catapultado para o trono da Jordânia, ambos – monarquia e país – criações coloniais dos ingleses num cantinho desértico e altamente problemático do Oriente Médio. Rania, aos 28 anos, tornou-se a mais jovem rainha do mundo e uma anomalia por natureza. Para começar, praticamente não existem rainhas no mundo árabe (até recentemente, os monarcas remanescentes continuavam a praticar a poligamia) e, quando existem, não falam nem aparecem em público. A idéia de uma rainha à moda ocidental foi introduzida justamente pela última mulher do rei Hussein, a americana Noor, bonita, ativa e tarimbada em circular nas altas-rodas internacionais. Diante do precedente (embora as duas não sejam exatamente grandes amigas), Rania arregaçou as mangas do tailleurzinho Saint Laurent e seguiu o exemplo. Com uma vantagem enorme sobre a antecessora, pois como palestina tem a simpatia automática de 60% da população da Jordânia. Para o marido, isso é um trunfo extra. Filho de uma inglesa, a segunda mulher de Hussein, Abdullah até hoje treina para falar árabe correntemente.

Antes de se casar, Rania trabalhou no Citibank e na Apple. Já desfilou na rua com o kaffiyeh, o lenço quadriculado palestino no pescoço, mas em geral defende causas "femininas" e politicamente corretas, como campanhas contra o abuso infantil ("Quando comecei a denunciar a violência contra crianças em casa, não havia sequer um termo para isso na nossa língua", diz) e a favor do microcrédito. Na abertura da Cúpula das Mulheres Árabes em Amã, no ano passado – onde fez bonito com um longo azul bordado em dourado, obra do libanês Elie Saab, seu estilista favorito –, conclamou as jordanianas a se modernizar e aderir à internet, que só é usada por 4% da população feminina do país. Esportiva (correu a maratona de Amã junto com todo mundo) e dedicada aos filhos, ajuda a cultivar a imagem de família unida, feliz e moderna. Passa férias na Côte d'Azur e não resiste a uma roupa de grife, mas fazer o quê? A uma rainha jovem, bonita e cada vez mais elegante, vinda de um lugar do mundo de onde habitualmente só chegam notícias trágicas, não só se perdoa como até se aplaude por proporcionar uma pausa para a fantasia.

 
 
 
 
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