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Pobreza
Vem aí mais um nome
Depois do Fome Zero, o PT lança o
Bolsa-Família e repete a tradição de ir
criando sempre novos programas sociais
sem aproveitar o que já vinha sendo feito

Monica
Weinberg
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| O
presidente Getúlio Vargas faz visita oficial a um restaurante
popular de sua criação |
Entra
governo, sai governo, as pessoas são obrigadas a acompanhar
um roteiro que se repete. A equipe que entra acusa a que sai de
ter realizado gastos públicos desnecessários, sugerindo
que em alguns casos pode ter havido alguma irregularidade. Passado
o bombardeio inicial, os recém-chegados lançam uma
coleção de novos programas acompanhados de promessas
para tirar o país do atraso, sempre naquele clima de "agora,
vai!". Os programas têm nomes e logotipos estudados com muito
carinho pela equipe de marketing que assessora o governo. Esse comportamento
se verifica nas eleições municipais, estaduais e na
disputa mais importante de todas, a do governo federal. Com a chegada
de Lula ao Palácio do Planalto, a seqüência descrita
se repetiu. No Ministério da Educação, o ministro
Cristovam Buarque anunciou o extermínio do Provão,
que será substituído por outro teste de avaliação,
com o pomposo e ridículo nome de Paideia. A equipe encarregada
de cuidar da área social do governo petista fez o mesmo.
Chegou dizendo que Fernando Henrique havia deixado uma herança
maldita e, sob a orientação do marqueteiro
Duda Mendonça, lançou o Fome Zero. Passados dez meses
de governo Lula, o Fome Zero infelizmente continua sendo um programa
que não saiu do zero. Agora, numa segunda tentativa de colocar
selo próprio no social, os petistas anunciam para esta semana
o lançamento de outro programa, o Bolsa-Família.
A base da boa gerência é a continuidade. Isso vale
para empresas e também para países. A experiência
mundial mostra que as nações colhem resultados melhores
quando as ações iniciadas sob um governo são
mantidas ao longo dos anos pelos sucessores. Lamentavelmente, a
não ser em casos excepcionais, os políticos não
trabalham dessa forma no Brasil. Na campanha eleitoral, para demonstrar
racionalidade nos debates, até declaram que vão manter
o que for bom, trocando apenas os programas ruins. Mas não
é isso o que acontece na prática. O resultado é
que mesmo os bons programas acabam apresentando resultados pífios,
porque são interrompidos precocemente e não têm
tempo suficiente para alçar vôo. O mau hábito
de matar as iniciativas do antecessor, apenas porque foram pensadas
pelo antecessor, é uma das mesquinharias e incompetências
que corroem a eficiência do Estado brasileiro.
De
1947 até hoje, criaram-se no Brasil sete programas nacionais
de combate ao analfabetismo de jovens e adultos. Cristovam Buarque
inventou o oitavo. Chama-se Brasil Alfabetizado, do PT. Quase todos
os governantes tiveram o seu, sempre sob o argumento de que o método
anterior estava defasado ou que as equipes escolhidas para tocar
o projeto não tinham a qualificação da nova
equipe. A prática resultou numa miríade de nomes e
siglas que foram desaparecendo da memória dos brasileiros
sem que o analfabetismo fosse erradicado. O excesso de trocas teve
efeito desastroso. O Brasil ainda possui uma taxa de analfabetismo
vergonhosa, de 13,6%. Quanto tempo se perdeu a cada troca de programa
apenas para instruir as novas equipes, distribuir o novo material
didático, treinar os professores segundo as últimas
diretrizes?
O mesmo ocorre com os programas de distribuição de
comida. O primeiro Fome Zero foi criado em 1877, quando o imperador
dom Pedro II enviou ao Nordeste navios carregados de alimentos e
remédios para minimizar os estragos de uma seca que matou
cerca de meio milhão de pessoas. O Brasil sofreu outras dez
vezes com a mesma catástrofe climática, e em todas
as ocasiões o governo deu ao problema tratamento semelhante
ao do século XIX, incluindo as frentes de trabalho. O governo
Lula também já distribuiu comida a necessitados, como
o fizeram dom Pedro II e a extinta Legião Brasileira da Boa
Vontade (LBA). E está para lançar o programa Oferta
Emergencial de Oportunidades de Trabalho e Renda, que gerará
emprego a brasileiros em situação de risco em troca
de serviços prestados para a comunidade. O que intriga é
o tom de ineditismo dado à adoção de idéias
do passado. Veja o caso dos restaurantes populares, esparramados
pelo território nacional com nomes variados, que mudam conforme
o governante e constam das metas do Fome Zero. Governadores
e prefeitos que disputam a autoria da idéia nos anos 90 deixam
de dizer que os primeiros surgiram na década de 40, durante
o governo de Getúlio Vargas, quando o Estado começou
a intervir para valer na área social. Vargas chegou a posar
com uma bandeja num desses restaurantes. Seis décadas depois,
a governadora Rosinha Garotinho, do Rio de Janeiro, repetiu o ato
em seu Restaurante Popular.
Roberto Castro/AE
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| O
ministro Cristovam Buarque: mudando o que já deu certo |
A grife Fome Zero do PT angariou a simpatia nacional. Empresas e
celebridades fizeram fila para ajudar. Apesar disso, o programa
não aconteceu, até porque continha em seu núcleo
um cheiro de retrocesso ao pregar idéias antiquadas como
a distribuição de cupons para alimentação.
Por isso o governo avaliou que era necessário apostar em
outro carro-chefe, o Bolsa-Família, resultado da unificação
de programas sociais federais criados por FHC. A unificação,
que havia sido esboçada no governo anterior e agora é
levada a cabo, enxuga os custos de operação e torna
mais fácil fazer uma distribuição equilibrada
do dinheiro entre a população pobre. Embora o ideal
fosse também juntar ao pacote de unificação
os programas municipais e estaduais, a iniciativa é louvável.
Ao manter diversos programas, algumas famílias conseguiam
se cadastrar para receber vários benefícios e outras
ficavam de mãos abanando. Tudo dependia da agilidade do chefe
da casa. Agora, isso acaba. A iniciativa de aprofundar os avanços
na área social é uma grande contribuição
do PT a essa área. Infelizmente, o Bolsa-Família não
está sendo apresentado dessa forma, como um aprimoramento.
Seus organizadores, com a soberba dos novatos, o apresentam como
uma grande novidade. Isso ele não é.
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