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Diplomacia
Um diplomata alternativo
Com idéias que parecem saídas de
um
catálogo de antiguidades, o segundão
do Itamaraty é radicalmente contra
a Alca e o último brasileiro a fazer
bilhetes usando
papel-carbono

Alexandre Oltramari
José Varella
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| Samuel
Pinheiro Guimarães, o secretário-geral do Itamaraty: um diplomata
sem perfil de diplomata |
É
raro, mas aconteceu: a política externa brasileira virou
tema de debate na semana passada, depois que o Itamaraty começou
a peitar os Estados Unidos nas negociações da Alca,
o mercado que pretende derrubar as fronteiras comerciais entre as
três Américas. O assunto apareceu nas manchetes dos
jornais, em entrevistas de ministros na televisão e em discursos
de parlamentares no Congresso sempre gravitando em torno
da mesma dúvida: afinal, as posições duras,
às vezes intransigentes, do Itamaraty são uma tática
para arrancar maiores concessões dos EUA ou uma estratégia
para inviabilizar a Alca? Na quinta-feira passada, em visita à
Argentina, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou
alguma luz sobre a questão. Repetiu que não quer espírito
de confrontação com a potência americana, numa
indisfarçável censura aos rompantes triunfalistas
de alguns diplomatas, e que insistirá em negociar em dueto
com a Argentina. Faz sentido: Brasil e Argentina, juntos, respondem
por 70% do PIB e 60% da população da América
do Sul. Por trás de toda a polêmica está o embaixador
Samuel Pinheiro Guimarães Neto, carioca de 64 anos que ocupa
o posto de secretário-geral do Itamaraty e é um opositor
pertinaz da Alca. É o segundo homem do Itamaraty e tem laços
de família com o primeiro, o chanceler Celso Amorim.
Pinheiro Guimarães é diplomata de carreira, está
há quarenta anos no Itamaraty, mas não parece diplomata:
fala tudo o que pensa, dá entrevistas rebeldes, escreve livros
afiados e já perdeu mais de um cargo por não ter travas
na língua. "Ao contrário da maioria de nós,
ele não se destaca pela moderação nem pela
sutileza", descreve um diplomata brasileiro que serviu na Argentina
no governo anterior. Em 2001, Pinheiro Guimarães deu uma
palestra a militares no Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos,
no Rio de Janeiro, na qual desancou com tal verve a formação
da Alca que o então chanceler Celso Lafer não teve
alternativa: afastou-o do cargo de diretor do Instituto de Pesquisa
de Relações Internacionais, no qual estava havia seis
anos. Agora, desde que assumiu a secretaria-geral do Itamaraty no
governo petista, Samuel Pinheiro Guimarães adotou o silêncio
em público, mas mantém inalterados hábitos
e posições que parecem saídos de um catálogo
de antiguidades: abomina a idéia da Alca, detesta a globalização,
não gosta de abertura econômica, acredita no imperialismo
ianque e sinal dos tempos! trabalha com ampulheta
e papel-carbono.
Pinheiro Guimarães tem horror à perda de tempo, seja
num debate, despacho ou telefonema. Quando comandou o departamento
econômico do Itamaraty, entre 1988 e 1990, chegou a elaborar
um manual para orientar os funcionários sobre como proceder
nas conversas telefônicas. Pelas suas regras, ninguém
deveria dizer "alô" nem "de onde fala". Em vez de expressões
inúteis, quem ligasse deveria dizer "é fulano" e ir
direto ao assunto. Nos despachos com subalternos, virava sobre a
mesa uma ampulheta para observar a passagem do tempo. Quando a areia
escorria toda para o bojo inferior da ampulheta, o despacho estava
encerrado restasse ou não algum assunto pendente.
"Funcionava, mas era constrangedor", conta um embaixador, que enfrentou
a situação mais de uma vez. Pinheiro Guimarães
talvez seja uma das raras pessoas que ainda usam papel-carbono.
Apesar da internet e do e-mail, ele envia aos subordinados bilhetes
manuscritos sobre papel-carbono: o original vai para o destinatário
e a cópia fica com ele, devidamente arquivada, para cobrança
posterior.
AP
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| Lula
com seu colega argentino Néstor Kirchner: negociando juntos
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Metódico
assim, Pinheiro Guimarães coleciona fichas de todas as pessoas
importantes que conhece. E conhece muitas. Em seu gabinete, pendurou
na parede sua imagem ao lado da de Lula, numa fotografia batida
há uns vinte anos, quando o presidente era apenas um sindicalista
de projeção. É também velho conhecido
do atual ministro José Dirceu, da Casa Civil. Sempre que
deseja relembrar detalhes da biografia de alguém, Pinheiro
Guimarães consulta suas fichas. No plano intelectual, também
é um homem metódico. Mantém fichas dos livros
que leu, nas quais lista as informações fundamentais
de cada título. "Ele é muito organizado intelectualmente",
define um ex-colega, formado na mesma turma do Instituto Rio Branco,
em 1963. Outro embaixador ouvido por VEJA, que, como é praxe
no meio diplomático, também pediu para não
ser identificado, define-o assim: "Ele é intenso, afirmativo
e fascinado por suas idéias e projetos. É pouco sensível
aos interesses e muito sensível às causas". E causas
são tudo o que não falta na vida do doutor Samuel:
é um militante do Terceiro Mundo e defensor férreo
da diplomacia alternativa.
Nos treze livros que já publicou, escolheu como tema central
a visão brasileira sobre países como África
do Sul, Índia, Venezuela e Argentina. Consogro do chanceler
Celso Amorim, ele tem boa formação acadêmica
e intelectual, já serviu na França, nos Estados Unidos
e na ONU, mas é menos experimentado que seu chefe em negociações
comerciais. Entre os diplomatas brasileiros mais destacados ouvidos
por VEJA, há consenso de que o secretário-geral é,
atualmente, mais executor que formulador. "Ele precisa operar para
dentro do Itamaraty, e não para fora, pois é refém
das próprias opiniões", diz um desses diplomatas.
Quem opera para fora, além do chanceler Celso Amorim, é
Marco Aurélio Garcia, antigo ideólogo do PT e assessor
internacional do presidente. Na semana passada, com ares de quem
não vê nada de mais acontecendo, Garcia aproveitou
uma viagem aos EUA e apressou-se em visitar o Departamento de Estado
para acalmar os gringos, avisando que o Brasil não quer "clima
de confronto". É uma mudança e tanto para quem, como
Garcia, chegou a pensar em oferecer asilo ao ditador Saddam Hussein.
| O
pensamento do doutor Samuel
Confira
as opiniões do secretário-geral do Itamaraty,
Samuel Pinheiro Guimarães Neto, sobre as principais
questões comerciais que o Brasil enfrenta hoje
ALCA
A adesão à Alca significa a renúncia
brasileira à soberania. Numa entrevista há
dois anos, Pinheiro Guimarães disse que o Brasil
perderia a capacidade de definir uma política
comercial, industrial e tecnológica numa
palavra, abdicaria de ter uma política econômica
soberana.
MERCOSUL
Num
de seus livros, Quinhentos Anos de Periferia,
o diplomata diz que a Alca é o fim do Mercosul.
De acordo com ele, o enterro do Mercosul teria um impacto
muito negativo nas exportações industriais
brasileiras para a Argentina e nas exportações
agrícolas argentinas para o Brasil.
GLOBALIZAÇÃO
A globalização foi um péssimo negócio
para os países em desenvolvimento. Numa palestra
feita na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS),
Pinheiro Guimarães afirmou que a globalização
acentuou o desequilíbrio entre países
ricos e pobres, gerou altas taxas de desemprego e expandiu
a marginalidade, com crescimento da violência
social e individual e da pobreza.
BRASIL
Conforme a visão do embaixador, também
exposta em entrevista, o Brasil não ficaria isolado
caso fosse o único país latino-americano
a não aderir à Alca. O diplomata imagina
que, por terem economias reduzidas e interesse em fazer
negócios com o Brasil, os países vizinhos
não se distanciariam.
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