Edição 1825 . 22 de outubro de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Diplomacia
Um diplomata alternativo

Com idéias que parecem saídas de um
catálogo de antiguidades, o segundão
do Itamaraty é radicalmente contra
a Alca e o último brasileiro a fazer
bilhetes
usando papel-carbono


Alexandre Oltramari

 
José Varella
Samuel Pinheiro Guimarães, o secretário-geral do Itamaraty: um diplomata sem perfil de diplomata

É raro, mas aconteceu: a política externa brasileira virou tema de debate na semana passada, depois que o Itamaraty começou a peitar os Estados Unidos nas negociações da Alca, o mercado que pretende derrubar as fronteiras comerciais entre as três Américas. O assunto apareceu nas manchetes dos jornais, em entrevistas de ministros na televisão e em discursos de parlamentares no Congresso – sempre gravitando em torno da mesma dúvida: afinal, as posições duras, às vezes intransigentes, do Itamaraty são uma tática para arrancar maiores concessões dos EUA ou uma estratégia para inviabilizar a Alca? Na quinta-feira passada, em visita à Argentina, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou alguma luz sobre a questão. Repetiu que não quer espírito de confrontação com a potência americana, numa indisfarçável censura aos rompantes triunfalistas de alguns diplomatas, e que insistirá em negociar em dueto com a Argentina. Faz sentido: Brasil e Argentina, juntos, respondem por 70% do PIB e 60% da população da América do Sul. Por trás de toda a polêmica está o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães Neto, carioca de 64 anos que ocupa o posto de secretário-geral do Itamaraty e é um opositor pertinaz da Alca. É o segundo homem do Itamaraty e tem laços de família com o primeiro, o chanceler Celso Amorim.

Pinheiro Guimarães é diplomata de carreira, está há quarenta anos no Itamaraty, mas não parece diplomata: fala tudo o que pensa, dá entrevistas rebeldes, escreve livros afiados e já perdeu mais de um cargo por não ter travas na língua. "Ao contrário da maioria de nós, ele não se destaca pela moderação nem pela sutileza", descreve um diplomata brasileiro que serviu na Argentina no governo anterior. Em 2001, Pinheiro Guimarães deu uma palestra a militares no Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos, no Rio de Janeiro, na qual desancou com tal verve a formação da Alca que o então chanceler Celso Lafer não teve alternativa: afastou-o do cargo de diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, no qual estava havia seis anos. Agora, desde que assumiu a secretaria-geral do Itamaraty no governo petista, Samuel Pinheiro Guimarães adotou o silêncio em público, mas mantém inalterados hábitos e posições que parecem saídos de um catálogo de antiguidades: abomina a idéia da Alca, detesta a globalização, não gosta de abertura econômica, acredita no imperialismo ianque e – sinal dos tempos! – trabalha com ampulheta e papel-carbono.

Pinheiro Guimarães tem horror à perda de tempo, seja num debate, despacho ou telefonema. Quando comandou o departamento econômico do Itamaraty, entre 1988 e 1990, chegou a elaborar um manual para orientar os funcionários sobre como proceder nas conversas telefônicas. Pelas suas regras, ninguém deveria dizer "alô" nem "de onde fala". Em vez de expressões inúteis, quem ligasse deveria dizer "é fulano" e ir direto ao assunto. Nos despachos com subalternos, virava sobre a mesa uma ampulheta para observar a passagem do tempo. Quando a areia escorria toda para o bojo inferior da ampulheta, o despacho estava encerrado – restasse ou não algum assunto pendente. "Funcionava, mas era constrangedor", conta um embaixador, que enfrentou a situação mais de uma vez. Pinheiro Guimarães talvez seja uma das raras pessoas que ainda usam papel-carbono. Apesar da internet e do e-mail, ele envia aos subordinados bilhetes manuscritos sobre papel-carbono: o original vai para o destinatário e a cópia fica com ele, devidamente arquivada, para cobrança posterior.

 
AP
Lula com seu colega argentino Néstor Kirchner: negociando juntos

Metódico assim, Pinheiro Guimarães coleciona fichas de todas as pessoas importantes que conhece. E conhece muitas. Em seu gabinete, pendurou na parede sua imagem ao lado da de Lula, numa fotografia batida há uns vinte anos, quando o presidente era apenas um sindicalista de projeção. É também velho conhecido do atual ministro José Dirceu, da Casa Civil. Sempre que deseja relembrar detalhes da biografia de alguém, Pinheiro Guimarães consulta suas fichas. No plano intelectual, também é um homem metódico. Mantém fichas dos livros que leu, nas quais lista as informações fundamentais de cada título. "Ele é muito organizado intelectualmente", define um ex-colega, formado na mesma turma do Instituto Rio Branco, em 1963. Outro embaixador ouvido por VEJA, que, como é praxe no meio diplomático, também pediu para não ser identificado, define-o assim: "Ele é intenso, afirmativo e fascinado por suas idéias e projetos. É pouco sensível aos interesses e muito sensível às causas". E causas são tudo o que não falta na vida do doutor Samuel: é um militante do Terceiro Mundo e defensor férreo da diplomacia alternativa.

Nos treze livros que já publicou, escolheu como tema central a visão brasileira sobre países como África do Sul, Índia, Venezuela e Argentina. Consogro do chanceler Celso Amorim, ele tem boa formação acadêmica e intelectual, já serviu na França, nos Estados Unidos e na ONU, mas é menos experimentado que seu chefe em negociações comerciais. Entre os diplomatas brasileiros mais destacados ouvidos por VEJA, há consenso de que o secretário-geral é, atualmente, mais executor que formulador. "Ele precisa operar para dentro do Itamaraty, e não para fora, pois é refém das próprias opiniões", diz um desses diplomatas. Quem opera para fora, além do chanceler Celso Amorim, é Marco Aurélio Garcia, antigo ideólogo do PT e assessor internacional do presidente. Na semana passada, com ares de quem não vê nada de mais acontecendo, Garcia aproveitou uma viagem aos EUA e apressou-se em visitar o Departamento de Estado para acalmar os gringos, avisando que o Brasil não quer "clima de confronto". É uma mudança e tanto para quem, como Garcia, chegou a pensar em oferecer asilo ao ditador Saddam Hussein.

 

 
O pensamento do doutor Samuel

Confira as opiniões do secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães Neto, sobre as principais questões comerciais que o Brasil enfrenta hoje

ALCA
A adesão à Alca significa a renúncia brasileira à soberania. Numa entrevista há dois anos, Pinheiro Guimarães disse que o Brasil perderia a capacidade de definir uma política comercial, industrial e tecnológica – numa palavra, abdicaria de ter uma política econômica soberana.

MERCOSUL
Num de seus livros, Quinhentos Anos de Periferia, o diplomata diz que a Alca é o fim do Mercosul. De acordo com ele, o enterro do Mercosul teria um impacto muito negativo nas exportações industriais brasileiras para a Argentina e nas exportações agrícolas argentinas para o Brasil.

GLOBALIZAÇÃO
A globalização foi um péssimo negócio para os países em desenvolvimento. Numa palestra feita na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Pinheiro Guimarães afirmou que a globalização acentuou o desequilíbrio entre países ricos e pobres, gerou altas taxas de desemprego e expandiu a marginalidade, com crescimento da violência social e individual e da pobreza.

BRASIL
Conforme a visão do embaixador, também exposta em entrevista, o Brasil não ficaria isolado caso fosse o único país latino-americano a não aderir à Alca. O diplomata imagina que, por terem economias reduzidas e interesse em fazer negócios com o Brasil, os países vizinhos não se distanciariam.

 
 
 
 
topo voltar