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Diogo
Mainardi
Eu
quero sexo
"A
gente não se mete na vida sexual dos políticos
por
um atavismo escravocrata. Os
senhores de escravos se comportavam como
bem entendiam, e seus dependentes eram
obrigados a fingir que não viam nada"
Os
americanos gostam de saber tudo sobre a vida sexual de seus políticos.
Os brasileiros também gostariam. Só que ninguém
lhes conta nada. Pelas histórias que circulam nos bastidores
da imprensa, nossos políticos poderiam oferecer grande divertimento
aos leitores. Estão sempre se metendo em alguma grotesca
enrascada amorosa. É comum que tenham filhos ilegítimos.
É comum que mantenham casamentos de fachada. É comum
que abandonem amantes mais velhas por amantes mais jovens. Pena
que a gente não seja informado. Teríamos um bom assunto
para a hora do jantar. Os americanos argumentam que um político
que mente para a própria mulher também mente para
os eleitores. Bobagem. Todos os políticos mentem. Adúlteros
ou não. O único motivo pelo qual vale a pena investigar
suas vidas sexuais é tentar arruinar suas carreiras. Qualquer
meio para tentar arruinar a carreira de um político é
plenamente legítimo.
O
silêncio dos brasileiros em relação à
vida sexual dos políticos não tem nada a ver com o
respeito à privacidade. Mesmo porque nenhum político
tem direito a privacidade. Também não é um
sinal de maturidade, contraposto idealmente ao puritanismo infantil
dos americanos. A gente não se intromete na vida sexual dos
políticos por um atavismo escravocrata. Os senhores de escravos
se comportavam como bem entendiam, e seus dependentes eram obrigados
a fingir que não viam nada. Suas mulheres ficavam caladas.
Suas escravas ficavam caladas. Os maridos de suas escravas ficavam
calados. Até hoje é assim. Continuamos calados diante
do comportamento de nossos políticos. Os antropólogos
brasileiros, nos últimos setenta anos, conseguiram nos convencer
de que a devassidão dos senhores de escravos era um motivo
de orgulho, um traço distintivo de nosso caráter,
uma demonstração de tolerância e liberdade.
Não era. Era estupro. Era ameaça de chibatada. A liberdade
de alguns, no Brasil, sempre dependeu do cativeiro de outros.
O
maior problema do Brasil é que acabamos por acreditar em
todos os estereótipos a nosso respeito. O estereótipo
da nação alegre. O estereótipo do povo irreverente.
O estereótipo do gigante adormecido. Tudo falso, claro. Somos
o contrário de tudo isso. Somos uma gente sem graça,
bem-comportada, subalterna, previsível, desimportante, sem
futuro. O estereótipo mais difundido sobre os brasileiros
se refere à nossa suposta liberdade sexual. As violências
e os abusos cometidos pelos senhores de escravos passaram a ser
vistos como um atributo de todos nós. Passamos a nos identificar
com nossos donos. De chavão em chavão sobre nossa
sexualidade, apagamos da memória a limpeza étnica
que se deu por aqui. Se o Brasil quiser sair do lugar, se quiser
aprender a lidar com autoridades, precisa lembrar que não
é uma nação de senhores de escravos: é
uma nação de filhos ilegítimos, uma nação
de bastardos. Por isso devemos saber como se comportam nossos políticos.
Para que eles não se sintam livres para agir como nossos
senhores. Eles são tão bastardos quanto nós.
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