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Entrevista:
Leonard
Nimoy
Ser
ou não ser Spock
Há
37 anos convivendo com o personagem
de Jornada nas Estrelas, seu intérprete
acha que ele lhe trouxe um misto de
bênção e castigo

Isabela
Boscov
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AP

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"A
saudação de Spock é um gesto feito
por rabinos, que
chamava a minha atenção
quando era criança" |
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Para
as gerações que assistiram a Jornada nas Estrelas
na televisão ou no cinema, ele é a personificação
da temperança, do equilíbrio e da razão
qualidades raramente encontradas em abundância nos seres humanos,
mas típicas dos vulcanos, como o Sr. Spock. Desde 1966 associado
ao personagem, o ator americano Leonard Nimoy assegura ser bem mais
inquieto do que sua versão de orelhas pontudas. Mas tem em
comum com ela os modos distintos e a clareza de expressão.
Nascido em Boston, numa família de imigrantes do Leste Europeu,
Nimoy começou a atuar aos 8 anos. Fez teatro, televisão
e cinema e teve uma passagem pelo Exército antes de, aos
35 anos, ganhar o papel de segundo em comando da nave Enterprise.
Desde então, diz, nunca passou um dia sem emprego
feito raro para um ator, de qualquer planeta. Aos 72 anos, e com
uma carreira que inclui incursões pela poesia, pela fotografia
e pela direção, Nimoy prepara-se para vir ao Brasil,
na próxima semana. De Los Angeles, onde mora, ele concedeu
a VEJA a seguinte entrevista.
Veja
Quantas vezes já lhe perguntaram se ter interpretado
o Sr. Spock foi mais uma bênção ou um castigo?
Nimoy Muitas, muitas vezes. E o certo seria dizer que
ser lembrado como Spock é um misto de bênção
e castigo. Nunca reclamei a esse respeito porque desde setembro
de 1966, quando Jornada nas Estrelas foi ao ar pela primeira
vez, nunca fiquei sem emprego e não há muitos
atores no mundo que possam fazer uma afirmação semelhante.
Antes de Jornada nas Estrelas, eu vivia em busca de emprego,
como a maioria dos atores. Por outro lado, não há
dúvida de que perdi várias oportunidades profissionais
por estar tão fortemente associado a um personagem como Spock.
Mas esses são os ossos desse ofício.
Veja
Que tipo de oportunidade o senhor acredita ter perdido?
Nimoy Só posso especular a esse respeito. Mas
nunca recebi um convite para atuar numa comédia de situações,
por exemplo. Normalmente, os papéis que me são oferecidos
têm alguma ligação com o personagem pelo qual
fiquei conhecido. Em uma ou outra ocasião, consegui escapar
a essa fôrma. Interpretei, por exemplo, o marido da primeira-ministra
de Israel Golda Meir num filme para a televisão, com Ingrid
Bergman. O que aconteceu é que o produtor me conhecia bem,
e sabia que eu era mais versátil do que me julgavam ser.
Daí todos os resenhistas terem escrito que minha escolha
para o papel fora surpreendente, o que não deixou de ser
divertido e compensador.
Veja
Jornada nas Estrelas foi ao ar pela primeira vez, entre
1966 e 1969, sem grande sucesso. Como o senhor vê o fato de
ela ter se transformado inesperadamente em objeto de culto?
Nimoy Quando tiraram a série do ar, no fim da
terceira temporada, fiquei aliviado. Nosso trabalho já não
se comparava, em qualidade e criatividade, ao que havíamos
feito nas duas primeiras temporadas, e do qual tenho muito orgulho.
Andávamos à deriva, o que me fez pensar que seria
melhor não continuar assim. Quando se filma uma série,
espera-se pelo novo roteiro a ser filmado, a cada semana, com esperança
e impaciência. Se ele se revela sempre desapontador, essa
é uma experiência terrível, que mata qualquer
entusiasmo. Daí seguem-se aquelas conversas dolorosas com
os produtores, que por sua vez não agüentam as reclamações
dos atores. Por isso achei, quando Jornada nas Estrelas foi
cancelada, que em dois ou três anos ninguém mais se
lembraria de nós. Em vez disso, a série tomou uma
nova vida. Achei intrigante, e nem sonhava que sete ou oito anos
depois voltaríamos àqueles personagens no cinema.
Veja
Quando foi que o senhor se deu conta de que os trekkers
(nome dado aos fãs da série, por causa de seu
título original, Star Trek) haviam transformado Jornada
nas Estrelas num fenômeno cultural?
Nimoy Aonde quer que eu fosse, só me perguntavam
sobre a série, ainda que eu estivesse lá para promover
algum outro trabalho. Eu estava fazendo muito teatro na época,
e isso era frustrante. Em meados dos anos 70, quando essa coisa
das convenções de trekkers começou, atraindo
multidões, me dei conta de que fazia parte de um fenômeno.
Fomos a uma convenção em Chicago onde 10 000 pessoas
eram esperadas. Mais de 30 000 apareceram, e a polícia e
os bombeiros tiveram de fechar o hotel. Todos os elevadores e escadas
rolantes quebraram, tal o movimento.
Veja
Como era o relacionamento entre o senhor e os outros membros
do elenco de Jornada nas Estrelas? Vocês chegaram a
se tornar amigos íntimos?
Nimoy Sou amigo de William Shatner, que interpretava
o capitão Kirk. Não nos vemos com freqüência
às vezes saímos para um jantar a quatro com
nossas esposas, ou nos encontramos em algum evento. Mas o considero
bastante próximo. Tenho amizade também por outros
atores, embora só nos vejamos em situações
de caráter profissional.
Veja
Diz-se que havia um clima de animosidade entre o elenco,
e especialmente com relação a Shatner, por ele ser
o comandante da nave Enterprise.
Nimoy A imprensa gosta de drama e conflito. Convivíamos
num ambiente de muito profissionalismo.
Veja
Dois anos atrás, numa entrevista com Shatner, o
senhor disse que começou a abusar do álcool na época
em que Jornada nas Estrelas estava na televisão. O
senhor diria que foi em decorrência das pressões da
série?
Nimoy Não. Muitas outras pessoas têm problemas
com o álcool, e nenhuma delas trabalhou em Jornada nas
Estrelas. O que acontecia é que todos os dias, depois
das filmagens, eu bebia um drinque ou dois, ou três,
ou mais. Isso nunca interferiu no trabalho, e por isso mesmo demorei
a reconhecer que tinha uma doença. Mas chegou o dia em que
percebi que, mesmo quando queria beber menos, eu não conseguia.
Eu havia perdido o controle da quantidade. O mesmo se passava com
o cigarro. Tive de deixá-lo porque não conseguia fumar
pouco. Era sempre muito. Felizmente, colocaram-me em contato com
um programa de reabilitação. É provável
que eu tenha uma personalidade de viciado. Não consigo fumar
ou beber de forma controlada. Por isso tive de abandonar os dois,
primeiro o tabaco e depois o álcool. O cigarro foi o mais
difícil.
Veja
Há quanto tempo o senhor não bebe?
Nimoy Faz quinze anos que não tomo um drinque.
E não sinto a menor falta. Mesmo quando outras pessoas bebem
perto de mim, isso não me incomoda em nada.
Veja
Alguns anos atrás, Shatner causou comoção
ao aparecer no programa humorístico Saturday Night Live
e dizer aos fãs, ainda que em tom de brincadeira, que parassem
com a idolatria e fossem "viver a vida". Como o senhor se sente
a respeito dessa forma tão extrema de adoração
que os trekkers devotam a Jornada nas Estrelas?
Nimoy William tem um senso de humor único. Mas,
ao longo dos anos, descobri que há trekkers de todos os matizes.
É verdade que há uma parte deles que é extremamente
devotada, e vai às convenções vestindo fantasias
estranhas de klingons ou vulcanos. Por outro lado, não passa
um dia sem que alguém venha me falar sobre o impacto que
Jornada nas Estrelas teve em sua vida. São pessoas
que dizem ter sido levadas à ciência, ou ao magistério,
por causa da série, e que levam uma vida rica e completa.
Algumas dessas pessoas também vão às convenções,
muitas vezes em companhia de mulher e filhos. Mas obviamente essa
gente não interessa aos repórteres que cobrem esses
eventos. Todas as câmeras estão voltadas para as pessoas
em fantasias bizarras. De modo que acho que a impressão que
se tem desse tipo de encontro não é totalmente fiel
à realidade.
Veja
O senhor assiste às reprises de Jornada nas
Estrelas?
Nimoy Não.
Veja
E seus filhos e netos, eles gostam da série?
Nimoy Sim, eles são fãs, e têm muito
orgulho da minha participação nela.
Veja
Com Jornada nas Estrelas, o senhor cruzou a fronteira
que separa as celebridades dos ícones. Como isso mudou sua
vida?
Nimoy Não me vejo como um ícone, e sim
como um profissional que vive do seu trabalho e se sente grato pelas
oportunidades que tem. É verdade que durante algum tempo
hoje não mais isso constituiu um problema físico.
Era impossível ir a um lugar onde houvesse muita gente, sob
pena de iniciar uma comoção pública. Certa
vez fui convidado por Elton John para o encerramento de uma turnê,
no Madison Square Garden, em Nova York. Quando entrei no auditório,
as luzes ainda estavam acesas. Em dois minutos, já havia
se formado uma multidão à minha volta, de pessoas
que pediam autógrafo ou queriam tirar fotografia. Tive de
ser levado aos bastidores e esperar até que o show começasse
para poder voltar à minha poltrona. Com o tempo, aprende-se
a evitar situações que dêem margem a esse tipo
de embaraço.
Veja
O senhor tem muito orgulho de sua origem judaica. Mas,
recentemente, teve problemas com religiosos ortodoxos por causa
do seu livro de fotografias, Shekhina, em que modelos femininas
aparecem vestidas em objetos rituais tradicionalmente masculinos,
como o xale de orações. O senhor acha que foi mal
interpretado?
Nimoy Não. Acho que as pessoas que se sentiram
incomodadas com o livro entenderam o que eu fiz. Elas só
não querem que eu o faça. A razão, acho, é
mais cultural do que religiosa: os ortodoxos têm dificuldade
em aceitar essa idéia do aspecto feminino da divindade, que
é o que significa a palavra shekhina. A cultura judaica é
predominantemente masculina. Todos os ritos religiosos são
desempenhados por homens. Às mulheres, cabe apenas assistir
às cerimônias. Além disso, elas devem ser mantidas
separadas. Meu livro eleva as mulheres à mais alta esfera
do judaísmo, e isso perturba alguns homens.
Veja
Pode-se dizer, então, que o senhor foi movido por
uma visão feminista.
Nimoy Eu diria que sou um feminista inconsciente. Não
milito por uma causa, mas meu trabalho tem esse aspecto feminista.
Acredito na igualdade, e também que este seria um mundo melhor
se as mulheres dividissem igualitariamente com os homens o processo
de tomada de decisões. Acho que estamos num mundo desequilibrado,
e talvez parte do caos em que vivemos hoje se deva a essa abordagem
cultural desigual. Quando comecei Shekhina, pensei em fazer
algo que fosse inspirador para mim, e que tivesse um forte elemento
espiritual. Mas às vezes é o público que revela
a você, o artista, aquilo que você realizou. E isso
aconteceu comigo. Minha intenção não foi provocar.
Mas, mal o livro foi publicado, a confusão começou.
Por exemplo, fui desconvidado de um jantar da Federação
Judaica em Seattle no qual deveria falar sobre Shekhina.
A agência de notícias Associated Press divulgou o ocorrido
e, de uma hora para outra, estava-se falando nisso no país
inteiro. Algumas sinagogas mais liberais começaram a me convidar
para palestras, e já fiz umas dezoito delas em várias
cidades.
Veja
A saudação típica do Sr. Spock, com
os dedos da mão separados, também tem origem religiosa,
não é?
Nimoy Esse é um gesto feito pelos rabinos num
certo momento do serviço religioso, e simboliza o nome do
Todo-Poderoso. Quando eu era criança, ele me chamava muito
a atenção. No momento em que foi preciso criar uma
saudação para o Sr. Spock, o gesto me voltou à
mente. Curiosamente, nunca um ortodoxo implicou com o uso ficcional
dessa saudação.
Veja
O senhor não costuma fazer comentários sobre
questões políticas que envolvam judeus ou o Estado
de Israel.
Nimoy Já fui muito ativo em questões políticas
gerais, como eleições para a Presidência e o
Congresso, ou no movimento pelos direitos civis liderado por Martin
Luther King. Mas, como judeu, não sou politicamente ativo.
Arrasa-me ver o ciclo de vingança e violência que aflige
o Oriente Médio, mas prefiro me manter calado a esse respeito
porque não sou um profundo conhecedor do tema. Talvez isso
seja um erro e caiba a cada um de nós tentar encontrar uma
solução.
Veja
O senhor é um diretor com boas credenciais e alguns
sucessos, como Jornada na Estrelas IV A Volta para Casa
e Três Solteirões e Um Bebê, mas há
tempos não se dedica à direção. O senhor
perdeu o interesse?
Nimoy Não quero mais dirigir. Tenho uma vida nova,
na qual sou extraordinariamente feliz. Sou casado pela segunda vez.
Meu primeiro casamento durou 33 anos, mas cheguei a um ponto em
que já não era possível levá-lo adiante.
Tenho sido muito feliz desde então. Por isso evito compromissos
profissionais longos. Minha mulher e eu viajamos muito ela
é curadora no Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles
e somos também colecionadores de arte. A fotografia é
algo a que posso me dedicar sem que isso prejudique nossa vida em
comum. Mas já não tenho interesse em abrir mão
de um ano inteiro da minha vida para dirigir um filme.
Veja
O senhor escreveu dois livros muito comentados pelos fãs.
O primeiro se chamava Eu Não Sou Spock, e o segundo,
Eu Sou Spock. Qual título é o mais verdadeiro?
Nimoy Não parece fazer muito sentido, não
é? Mas o estranho é que os dois são verdadeiros.
Chamei o primeiro livro de Eu Não Sou Spock porque
um dia, num aeroporto, um menino pequeno se aproximou de mim e,
apesar do que sua mãe lhe dizia que eu era o Sr. Spock
e ele me via todas as semanas na televisão , ele simplesmente
não conseguiu me reconhecer. Isso me fascinou. Ali, no aeroporto,
eu era um sujeito qualquer, não Spock, e o menino sabia disso.
Os fãs, claro, não gostaram muito do título.
Anos mais tarde, percebi que depois de tanto tempo envolvido com
o personagem eu havia absorvido algumas características dele.
Spock me ensinou a ter mais equilíbrio emocional, por exemplo.
Daí o segundo título. E assumi que, para muita gente,
eu sou Spock. Até porque ninguém mais é.
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