Edição 1825 . 22 de outubro de 2003

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Carta ao leitor
O bom senso de Lula


AE
O presidente brasileiro em Buenos Aires: realismo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode computar como êxito de seu governo e uma vitória pessoal o fato de, nos dez primeiros meses de mandato, ter tido a competência política de reconduzir ao trilho diversas questões vitais para o país que ameaçavam enveredar pelo caminho da irracionalidade ou da paixão partidária ou ideológica. Fez isso de novo na semana passada, em Buenos Aires, onde ele e seu colega argentino Néstor Kirchner afinaram uma estratégia de negociação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Em um comunicado conjunto, os presidentes reafirmaram pontos essenciais do acordo, entre eles o compromisso de "levar as negociações a uma conclusão exitosa e equilibrada em janeiro de 2005". Lula e Kirchner se propuseram a negociar "de forma realista e pragmática" com os Estados Unidos e os demais países envolvidos na Alca, de modo a "superar, em particular no que tange ao capítulo agrícola, a falta de resultados concretos em Cancún".

Sem menosprezo pelos méritos do mandatário argentino, o comunicado dos dois países, que reafirma o calendário e a retomada de negociações na Alca, reflete com clareza cristalina a formação de Lula. É o resultado de uma personalidade política construída ao longo de uma vitoriosa carreira de sindicalista e de político pragmático, obcecado pelo resultado. A fala de Lula em Buenos Aires recoloca nos eixos do interesse nacional a discussão do acordo comercial das Américas. Ele estava paralisado pela dupla ação da intransigência dos americanos e de parte de uma diplomacia brasileira obnubilada por ilusões de grandeza, erros de cálculo e deformações ideológicas.

Lula no governo foi colocado diante de encruzilhadas dramáticas. Em todas elas, o presidente, mesmo à custa de parte de sua imensa popularidade, evitou a escolha mais fácil e optou pelo caminho que se mostrou o correto – e que muitas vezes foi o mais árduo para ele pessoalmente. Isso ocorreu no processo de afastamento dos deputados petistas rebelados, na retomada da iniciativa da reforma agrária e no redesenho radical do projeto Fome Zero. Ilustra também essa faceta positiva de Lula a decisão de manter e até aprofundar o rigor monetário preconizado pelo ministro Antonio Palocci, da Fazenda, para segurar um surto inflacionário. A bonança dos mercados, o dólar em queda e a euforia nas bolsas que o país vive, embora pouco significativos em si próprios, podem ser fenômenos precursores do ciclo de crescimento que Lula prometeu ao país. O presidente e os brasileiros bem que merecem.

 

 
 
 
 
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