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Carta
ao leitor
O
bom senso de Lula
AE
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| O
presidente brasileiro em Buenos Aires: realismo |
O presidente
Luiz Inácio Lula da Silva pode computar como êxito
de seu governo e uma vitória pessoal o fato de, nos dez primeiros
meses de mandato, ter tido a competência política de
reconduzir ao trilho diversas questões vitais para o país
que ameaçavam enveredar pelo caminho da irracionalidade ou
da paixão partidária ou ideológica. Fez isso
de novo na semana passada, em Buenos Aires, onde ele e seu colega
argentino Néstor Kirchner afinaram uma estratégia
de negociação da Área de Livre Comércio
das Américas (Alca). Em um comunicado conjunto, os presidentes
reafirmaram pontos essenciais do acordo, entre eles o compromisso
de "levar as negociações a uma conclusão exitosa
e equilibrada em janeiro de 2005". Lula e Kirchner se propuseram
a negociar "de forma realista e pragmática" com os Estados
Unidos e os demais países envolvidos na Alca, de modo a "superar,
em particular no que tange ao capítulo agrícola, a
falta de resultados concretos em Cancún".
Sem
menosprezo pelos méritos do mandatário argentino,
o comunicado dos dois países, que reafirma o calendário
e a retomada de negociações na Alca, reflete com clareza
cristalina a formação de Lula. É o resultado
de uma personalidade política construída ao longo
de uma vitoriosa carreira de sindicalista e de político pragmático,
obcecado pelo resultado. A fala de Lula em Buenos Aires recoloca
nos eixos do interesse nacional a discussão do acordo comercial
das Américas. Ele estava paralisado pela dupla ação
da intransigência dos americanos e de parte de uma diplomacia
brasileira obnubilada por ilusões de grandeza, erros de cálculo
e deformações ideológicas.
Lula
no governo foi colocado diante de encruzilhadas dramáticas.
Em todas elas, o presidente, mesmo à custa de parte de sua
imensa popularidade, evitou a escolha mais fácil e optou
pelo caminho que se mostrou o correto e que muitas vezes
foi o mais árduo para ele pessoalmente. Isso ocorreu no processo
de afastamento dos deputados petistas rebelados, na retomada da
iniciativa da reforma agrária e no redesenho radical do projeto
Fome Zero. Ilustra também essa faceta positiva de Lula a
decisão de manter e até aprofundar o rigor monetário
preconizado pelo ministro Antonio Palocci, da Fazenda, para segurar
um surto inflacionário. A bonança dos mercados, o
dólar em queda e a euforia nas bolsas que o país vive,
embora pouco significativos em si próprios, podem ser fenômenos
precursores do ciclo de crescimento que Lula prometeu ao país.
O presidente e os brasileiros bem que merecem.
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