Overdose na veia

Médicos descobrem por que a cocaína aumenta
tantas vezes o risco de um ataque cardíaco

Um dos mais intrigantes efeitos da cocaína no organismo humano é sua ligação com ataques cardíacos. Na semana passada, um estudo conduzido por pesquisadores americanos finalmente conseguiu detalhar a reação em cadeia iniciada pela droga a partir da corrente sanguínea e que afeta diretamente o coração. Liderados pelo médico Arthur Siegel, da Universidade Harvard, os pesquisadores analisaram amostras de sangue coletadas de vinte pessoas, antes e depois de ingerirem a droga. Os voluntários, que nunca tinham usado a substância, aspiraram a cocaína e a tomaram injetada nas veias. Os resultados dos exames foram semelhantes e mostraram que a cocaína afeta tanto a composição do sangue quanto os vasos por onde ele circula, aumentando os riscos de formação de coágulos (veja quadro abaixo).

Tudo acontece rapidamente. Apenas dez minutos após a ingestão, o número de glóbulos vermelhos começa a crescer, e chega a ser 6% superior às concentrações normais. Isso significa que o sangue fica mais viscoso e circula com maior dificuldade por veias e artérias. A concentração de uma proteína conhecida como fator de Von Willebrand, ligada à coagulação sanguínea, também aumenta. A taxa supera em até 40% os índices normais num período de apenas meia hora. Essa situação persiste por quatro horas, aumentando drasticamente o risco de plaquetas se acumularem nas paredes internas dos vasos e formarem coágulos. Para os pesquisadores de Harvard, a origem do problema estaria no baço, órgão que apresenta uma drástica contração sob efeito da cocaína e influi na liberação de glóbulos vermelhos.

O mecanismo desvendado pelos médicos complementa uma série de pesquisas anteriores sobre os efeitos nefastos da droga no coração. Já se sabia, por exemplo, que o consumo de cocaína provocava o estreitamento de veias e artérias. São comuns também violentas taquicardias causadas pela descarga de adrenalina, um dos efeitos que se seguem a uma cheirada ou a uma picada. O coração acelera e precisa de maiores quantidades de oxigênio, ou seja, de maior irrigação sanguínea. O sangue mais viscoso e com maior índice de coagulantes prejudica a circulação e pode levar o músculo a um colapso. "É o mesmo que praticar uma roleta-russa", compara Siegel. "O estreitamento dos vasos carrega a arma, o espessamento do sangue coloca o gatilho em posição e o fator Willebrand é o disparo", diz. Como resultado dessa combinação, os riscos de uma pessoa sofrer um infarto logo após o consumo de cocaína aumenta em 24 vezes.

 
 

 




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