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Viveremos séculosGeneticista brasileiro que prolongou Daniel Hessel Teich
Professor na Universidade de Wisconsin, no norte dos Estados Unidos, o geneticista brasileiro Tomas Alberto Prolla, 33 anos, é autor de uma façanha científica de primeira grandeza: encontrou a chave genética capaz de prolongar a vida de ratos. Divulgada há um mês, a pesquisa que comprova, pela primeira vez, a possibilidade real de ampliar a duração da vida humana transformou Prolla numa celebridade no mundo científico. Há treze anos, ele deixou o Brasil para cursar bioquímica em Berkeley, estudou também em Yale e no Baylor College of Medicine – todas escolas de primeiríssimo time. Filho de um professor da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp, casado e com duas filhas pequenas, ele nunca mais voltou a viver no Brasil. Teve a vantagem de ser cidadão americano (nasceu nos Estados Unidos, quando seus pais estudavam no país). Mas a decisão de ficar decorreu das condições encontradas para desenvolver suas pesquisas. "Aqui os estrangeiros têm a oportunidade de suas vidas", diz. "E isso é excelente para a produção científica. Todos querem dar o máximo de si." Veja – O senhor conseguiu identificar os genes responsáveis pelo envelhecimento nos ratos e retardar seus efeitos. Isso também é possível em seres humanos? Prolla – Os genes que identificamos nos ratos existem em quase todas as espécies, entre elas plantas e insetos. Controlam os mesmos mecanismos até em bactérias. Não há motivos para que não tenham funcionamento semelhante no homem. A diferença é que o ser humano tem um sistema mais sofisticado, com maior proteção contra o envelhecimento. Uma mosca vive duas semanas. Um rato, trinta meses. Um chimpanzé, cinqüenta anos. O homem está chegando a 100 anos. Os genes são os mesmos, mas a maneira como agem é ligeiramente diferente. Nossa pesquisa revelou que o número de genes envolvidos no processo é muito pequeno e parte de um grupo bastante restrito. Pensava-se que eram milhares e descobrimos que podem não passar de dez. Veja – Que relação isso tem com a dieta de poucas calorias? Prolla – Há quase quarenta anos a dieta de restrição calórica é vista como o único método eficaz de combate ao envelhecimento. Nossa pesquisa comprova essa tese ao ligar os genes responsáveis pela produção de energia celular e recuperação de proteínas ao envelhecimento. Quando queimam o combustível alimentar, as células funcionam da mesma forma que o carburador de um carro: produzem energia mas também fabricam uma série de resíduos indesejáveis, que acabam reduzindo a vida útil do motor. São os radicais livres, que oxidam o DNA e as proteínas, danificando-os. Consumindo menos calorias há também menos resíduos. As proteínas, por exemplo, não precisam ser recuperadas de forma tão acelerada. Veja – Mas sem combustível o carro corre o risco de não sair do lugar. Prolla – A dieta com menos calorias não significa falta de comida ou desnutrição. Nosso interesse é ter um sistema de geração de energia celular que renda mais, sem excedentes. No caso dos ratos, demos uma dieta composta de apenas 10% de gordura, 50% de carboidratos e o resto de proteínas. Tudo balanceado com suplementos de vitaminas e sais minerais. Com isso, conseguimos esticar a vida deles em 50%, de trinta para 45 meses. Transposta para o padrão humano, essa idade corresponderia a superar em até quarenta anos uma expectativa média de vida de 80. Ou seja, o homem poderá viver facilmente 120 anos. Veja – O senhor segue essa dieta de baixas calorias? Prolla – Eu sou magro por natureza e não costumo comer muito. Quando reduzo o consumo de calorias, eu me sinto meio fraco. Tento manter alguns hábitos alimentares saudáveis, como consumir pouca gordura e substituí-la por carboidratos, que não têm efeitos tão nefastos sobre a saúde. Um grama de carboidrato tem 4 calorias, enquanto a mesma quantidade de gordura tem 10. Acredito que uma dieta com menos calorias traz benefícios à saúde. Na minha própria universidade há um grupo realizando uma pesquisa enorme, que está analisando mais de 100 macacos submetidos à dieta de restrição calórica há pelo menos dez anos. Já se comprovou entre esses animais que a propensão de desenvolver diabetes é muito menor. Agora eles estão estudando a incidência de osteoporose nesses macacos. Veja – Como é possível fazer uma dieta desse tipo sem ter a sensação de estar perdendo um dos maiores prazeres da vida que é comer bem? Prolla – Você pode comer de tudo em quantidades reduzidas, de forma que não tenha excedentes no processo de metabolismo. Além disso, a base de nossa pesquisa não está apenas na conduta alimentar, mas na identificação dos genes que regulam o envelhecimento. A partir disso, a indústria farmacêutica pode desenvolver medicamentos eficientes para controlar o envelhecimento sem a necessidade de dieta. Basta pegar produtos que tenham ação eficaz sobre esse mecanismo e produzir uma droga. Não há motivos para que não possamos viver até dez vezes mais do que vivemos hoje. Não existem barreiras ou limites para o controle do envelhecimento. Isso não aconteceu até agora porque não dispúnhamos de tecnologia para desvendar esses mecanismos. Veja – Os suplementos de vitamina ajudam a prolongar a vida? Prolla – Com base nos estudos que existem não dá para dizer que as vitaminas detêm o envelhecimento. Acho que em um ou dois anos vamos ter essa resposta. Usamos hoje um artefato conhecido como biochip, que reproduz pelo menos 6.500 genes do DNA de ratos. A vantagem é permitir a análise com raio laser a uma velocidade espantosa. Essa ferramenta poderá nos dizer em breve se a vitamina E ou a C são capazes de aumentar a resistência das células do coração, dos músculos ou do cérebro. Veja – É um caminho para a imortalidade? Prolla – Não acredito. O controle dos genes envolvidos no processo de envelhecimento será uma das maiores conquistas da história da sociedade humana. A grande maioria das doenças, entre elas o câncer, o diabetes e os problemas cardíacos, está relacionada ao envelhecimento e raramente acomete os jovens. Em sua versão final, o controle genético do processo de envelhecimento resultará em pessoas que se mantêm por muito mais tempo com saúde física semelhante à de um jovem de 20 anos. Mas o corpo humano na sua forma atual não é compatível com a imortalidade física. Nem é nosso objetivo criar pessoas imortais. Para nós, o importante é como se vive durante a velhice. Não se trata de prolongar simplesmente a velhice de forma indefinida, com velhos vivendo limitadamente, mas de garantir que as condições físicas da juventude sejam mantidas por mais tempo. Há hoje um interessante debate em torno das ligações entre a longevidade e a qualidade de vida. Veja – Que debate? Prolla – Atualmente apenas uma em cada 10.000 pessoas chega aos 90, 100 anos. É pouca gente, mas se você analisar a vida dessas pessoas vai perceber que a maioria delas chegou a essa idade sem ter nenhum problema sério de saúde. Elas são o exemplo de que uma coisa está ligada a outra. O que queremos é repetir esse modelo e não manter vivas por décadas pessoas que estão mal de saúde e vão passar o tempo incapacitadas por doenças repletas de complicações. O que queremos é dar qualidade de vida para que mais gente supere os 100 anos bem e saudável. Mesmo com a imortalidade fora de questão, será possível ter uma vida média de centenas de anos em vez das dezenas que vivemos hoje. Veja – Qual a idade-limite para começar a deter o envelhecimento? Prolla – Quando se começou a pesquisar os efeitos da redução de calorias em animais, achava-se que era necessário iniciar a dieta logo depois da fase de amamentação dos ratinhos. Com o tempo os pesquisadores começaram a alterar a alimentação dos animais cada vez mais tarde. Com ratos de 6 meses, o equivalente a 25 anos no homem, os efeitos eram muito parecidos com os da dieta iniciada logo após o desmame. Mesmo aos 15 meses, a meia-idade dos ratos, ainda é possível prolongar a vida dos animais. Não com a mesma eficiência dos casos anteriores, mas ainda assim de forma considerável. Isso nos leva a crer que se há uma fase crítica no envelhecimento dos ratos ela acontece entre 20 e 25 meses. É um processo de degeneração muito rápido, quase numa progressão geométrica. As doenças sérias começam a aparecer nessa fase e o caminho para a morte é rápido. Acreditamos que o mesmo aconteça com os homens. Veja – O senhor acredita que um dia o código genético será alterado para se prolongar a vida? Prolla – Eu acredito que, no caso do homem, isso é muito mais uma decisão da sociedade do que dos cientistas. Em nosso laboratório já começamos a desenvolver um projeto para alterar geneticamente alguns ratos. Pretendemos criar animais transgênicos programados para viver mais. Tratando-se de pessoas, acho que é mais simples desenvolver terapias que atuem nos genes sem, no entanto, alterar o perfil genético original. Os laboratórios estão extremamente interessados em explorar esse filão com novos medicamentos. Isso é bastante razoável. O que não faz sentido é termos uma tecnologia que nos permite aumentar a vida das pessoas e não usá-la. Veja – Como essa tecnologia poderia ser aplicada de maneira mais imediata em pessoas? Prolla – Uma de nossas ambições é usar a tecnologia do biochip em seres humanos. Queremos produzir um teste simples que se utiliza de amostras de sangue para descobrir a idade biológica das pessoas com o auxílio do perfil genético. Queremos ver como os genes estão reagindo à passagem do tempo e associar os resultados aos hábitos de vida. Já seria um grande avanço detectar desde cedo quanto as células estão se desgastando e podermos traçar uma estratégia para deter esse processo. Seria meio caminho andado no sentido de estender a vida das pessoas. Veja – O senhor já está negociando a venda dos direitos de sua pesquisa? Prolla – Por enquanto a tecnologia é da universidade, que está tratando disso. Tanto eu como o co-autor do trabalho, Richard Weindruch, temos 5% das ações de uma empresa recém-fundada, chamada Mitos, que está negociando a compra dos direitos comerciais dessa tecnologia. Antes mesmo de a pesquisa tornar-se pública, a Mitos, por meio de seu acionista majoritário, se dispôs a investir l milhão de dólares nas pesquisas de envelhecimento em nosso laboratório. O total de investimentos pode chegar a 50 milhões em cinco anos. Esse é o tipo de negociação padrão na transferência de tecnologia acadêmica para a indústria. A universidade faz a pesquisa, registra a patente, revende-a e o dinheiro é investido em novas pesquisas. Há grandes universidades que chegam a gerar até 1 bilhão de dólares por ano negociando todas as tecnologias que desenvolvem. Veja – É um mercado de lucro fácil? Prolla – Não necessariamente. Há formas mais rápidas de ganhar dinheiro neste país. No caso da Mitos é uma questão de interesse pessoal do investidor. Ele é uma pessoa culta, um físico que enriqueceu aplicando dinheiro no mercado imobiliário e em bancos de investimentos. Como outros multimilionários, ele agora quer aplicar seu dinheiro na área de pesquisas sobre envelhecimento. Veja – O senhor já ganhou dinheiro com sua pesquisa? Prolla – Ainda não. No repasse de tecnologia, os inventores normalmente recebem 20% do total negociado pela universidade. Eu ainda não tenho nem idéia de quanto isso significa em dinheiro. Todos os investimentos estão em fase incipiente e as despesas até agora têm sido enormes com a documentação de patente e repasse de tecnologia. É coisa de pelo menos 50.000 dólares. A faculdade banca essa conta e depois desconta na parte que nos cabe. A tendência, como sempre acontece por aqui na área de biotecnologia, é de que pesquisas promissoras, com possibilidade de aplicação comercial, acabem sendo absorvidas por um grande laboratório farmacêutico. Só eles têm meios para fazer nosso trabalho sair da faculdade e virar produto. Atualmente, em volta das universidades há verdadeiros cinturões de pequenas empresas de biotecnologia que se associam a laboratórios. São os "research parks". Veja – Quanto custa uma pesquisa como a que o senhor realizou? Prolla – Caro. Para comprar uma máquina capaz de ler os biochips de DNA são necessários 200.000 dólares. Depois, cada um dos chips custa cerca de 2.000 dólares. Apenas nos biochips usados no estudo do DNA dos ratos gastamos mais de 30.000 dólares. Veja – Teria sido possível realizar um trabalho como esse no Brasil? Prolla – Não. Primeiro, teríamos enormes dificuldades em conseguir os animais para pesquisa. Criar ratos de laboratório é muito caro. Depois, não conseguiríamos ter acesso aos biochips, uma tecnologia que ainda não existe no Brasil. Não acho que o problema da ciência brasileira seja de cérebros. A base científica que existe em nosso país não é ruim. Meu interesse pelo estudo do DNA e pelo processo de envelhecimento, por exemplo, foi despertado pelos professores da Unicamp. Só não continuei meus estudos no Brasil porque não havia especialização em bioquímica nos cursos de graduação. Era o que me interessava quando eu estudava em Campinas. Eu escrevi para pesquisadores nos Estados Unidos e soube que por aqui existia o curso que eu esperava. Assim que fui aceito em um deles, fiz as malas e parti. Veja – O senhor não pensa em voltar? Prolla – Às vezes penso, mais por
motivos sentimentais do que profissionais. Visito o Brasil uma vez por
ano e há três fiz contatos para trabalhar na Universidade de São Paulo,
USP, e na Unicamp. São bons centros de pesquisa, onde fui bem recebido
e me prometeram condições de trabalho. Mas tive um convite da Universidade
de Wisconsin. Era uma chance irrecusável. Teria um laboratório meu, uma
infra-estrutura de ponta e poderia contar com o empenho dos estudantes,
coisa comum de se ver por aqui. No Brasil existe uma outra ética de trabalho.
As coisas não são levadas tão a sério nas universidades brasileiras. Uma
das vantagens das universidades americanas é a presença de tantos estrangeiros.
Querem fazer o máximo, aprender o máximo. Não querem perder tempo, porque
sabem que essa é a oportunidade de suas vidas.
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