Edição 1872 . 22 de setembro de 2004

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Tales Alvarenga
Classes esfolantes

"Vivemos num mundo mais arriscado e mais
interessante do que aquele que existe na
cabeça de certos ideólogos retardatários da
esquerda aninhados na máquina petista"

O PT no poder continua com a mesma tendência de ver o país como um território em que a classe dominante e a classe provisoriamente dominada estão em luta para conquistar o comando da sociedade. Para os petistas tradicionais, que ainda não fizeram sua conversão à complexidade do mundo que os cerca, a classe dominante exerce o poder de forma sistemática para esfolar ao máximo as classes dominadas. Segundo essa visão, o quadro econômico e social é mantido em desequilíbrio porque sua alteração acabaria com as vantagens tenebrosamente injustas que são auferidas pela elite, à custa das classes populares. Esse é o marxismo vulgar que as esquerdas brasileiras conjugam. Por esse catecismo simplório, cabe às esquerdas (no governo) a missão de tirar o comando da sociedade das mãos da elite e assumi-lo integralmente em nome do "conjunto da sociedade".

Isso não passa de tolice, é claro, mas essa visão aparece mascarada em muitas atitudes adotadas pelo governo petista. Os projetos para censurar a imprensa e impor controle das atividades culturais, hoje em discussão no Congresso, são parte dessa crença essencial do petismo em sua missão de comandar a sociedade de alto a baixo. Outra manifestação que brota da mesma fonte é a idéia, retomada nas últimas semanas, de promover no Brasil um "pacto social" sob o comando do governo.

O pacto social é a substituição da guerra entre as classes pela assinatura de um tratado de paz entre elas, sob a vigilância de Brasília. Na semana passada, o presidente Lula falou evocativamente da importância de um entendimento desse tipo, bem como seu ministro José Dirceu, chefe da Casa Civil. A nova direção da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), apadrinhada pelo governo, já apresentara a idéia, da mesma forma que a Central Única dos Trabalhadores (CUT), aliada de primeira hora do PT.

No pacto social os capitalistas se sentariam à mesa com os trabalhadores e os representantes do governo. O capital pararia de elevar o preço das mercadorias, os trabalhadores interromperiam pressões por aumentos salariais e Brasília daria uma folga a todos com corte de impostos e outros benefícios. Num mundo assim, cor-de-rosa, cooperativo, sob controle de um governo sábio e justo, só coisas boas poderiam acontecer. Para começar, os juros cairiam, mesmo porque o risco de subida da inflação seria inexistente. Por fim, ao cabo de mais de duas décadas de tentativas interrompidas de produzir crescimento sustentado, o Brasil poderia substituir seus "vôos de galinha", barulhentos mas curtos, pela decolagem definitiva para o desenvolvimento com distribuição de renda.

O Brasil tentou inúmeros desses pactos e todos caíram no ridículo. Encenar um pacto social é fácil. Fazê-lo produzir efeitos é a dificuldade. A fórmula para o crescimento não comporta mais dirigismo governamental, nem mágica de sindicatos, tampouco ideologia. Vivemos num mundo muito mais arriscado e mais interessante do que aquele que existe na cabeça de certos ideólogos retardatários da esquerda aninhados na máquina petista. O caminho do crescimento exige disciplina, organização gerencial do governo, amadurecimento da sociedade. Esse caminho não é romântico. É feito de uma luta diária contra o atraso, e seus atores serão todos os brasileiros. O governo pode ajudar, mas se não atrapalhar já estará de bom tamanho.

 
 
 
 
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