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Tales
Alvarenga
Classes esfolantes
"Vivemos num mundo mais arriscado e mais
interessante do que aquele que existe na
cabeça de certos ideólogos retardatários da
esquerda aninhados na máquina petista"
O PT no poder continua com a mesma tendência
de ver o país como um território em que a classe dominante
e a classe provisoriamente dominada estão em luta para conquistar
o comando da sociedade. Para os petistas tradicionais, que ainda
não fizeram sua conversão à complexidade do
mundo que os cerca, a classe dominante exerce o poder de forma sistemática
para esfolar ao máximo as classes dominadas. Segundo essa
visão, o quadro econômico e social é mantido
em desequilíbrio porque sua alteração acabaria
com as vantagens tenebrosamente injustas que são auferidas
pela elite, à custa das classes populares. Esse é
o marxismo vulgar que as esquerdas brasileiras conjugam. Por esse
catecismo simplório, cabe às esquerdas (no governo)
a missão de tirar o comando da sociedade das mãos
da elite e assumi-lo integralmente em nome do "conjunto da sociedade".
Isso não passa de tolice, é
claro, mas essa visão aparece mascarada em muitas atitudes
adotadas pelo governo petista. Os projetos para censurar a imprensa
e impor controle das atividades culturais, hoje em discussão
no Congresso, são parte dessa crença essencial do
petismo em sua missão de comandar a sociedade de alto a baixo.
Outra manifestação que brota da mesma fonte é
a idéia, retomada nas últimas semanas, de promover
no Brasil um "pacto social" sob o comando do governo.
O pacto social é a substituição
da guerra entre as classes pela assinatura de um tratado de paz
entre elas, sob a vigilância de Brasília. Na semana
passada, o presidente Lula falou evocativamente da importância
de um entendimento desse tipo, bem como seu ministro José
Dirceu, chefe da Casa Civil. A nova direção da Federação
das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), apadrinhada
pelo governo, já apresentara a idéia, da mesma forma
que a Central Única dos Trabalhadores (CUT), aliada de primeira
hora do PT.
No pacto social os capitalistas se sentariam
à mesa com os trabalhadores e os representantes do governo.
O capital pararia de elevar o preço das mercadorias, os trabalhadores
interromperiam pressões por aumentos salariais e Brasília
daria uma folga a todos com corte de impostos e outros benefícios.
Num mundo assim, cor-de-rosa, cooperativo, sob controle de um governo
sábio e justo, só coisas boas poderiam acontecer.
Para começar, os juros cairiam, mesmo porque o risco de subida
da inflação seria inexistente. Por fim, ao cabo de
mais de duas décadas de tentativas interrompidas de produzir
crescimento sustentado, o Brasil poderia substituir seus "vôos
de galinha", barulhentos mas curtos, pela decolagem definitiva para
o desenvolvimento com distribuição de renda.
O Brasil tentou inúmeros desses pactos
e todos caíram no ridículo. Encenar um pacto social
é fácil. Fazê-lo produzir efeitos é a
dificuldade. A fórmula para o crescimento não comporta
mais dirigismo governamental, nem mágica de sindicatos, tampouco
ideologia. Vivemos num mundo muito mais arriscado e mais interessante
do que aquele que existe na cabeça de certos ideólogos
retardatários da esquerda aninhados na máquina petista.
O caminho do crescimento exige disciplina, organização
gerencial do governo, amadurecimento da sociedade. Esse caminho
não é romântico. É feito de uma luta
diária contra o atraso, e seus atores serão todos
os brasileiros. O governo pode ajudar, mas se não atrapalhar
já estará de bom tamanho.
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