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| Ponto
de vista: Lya Luft Onde
está a nossa essência?
"A
rainha da nossa perplexidade, que torna o presente tão importante, o
amor tão urgente, a
bondade tão necessária ela, a
majestade morte, deveria nos tornar
muito melhores do que somos"
A recente
carnificina numa cidadezinha russa deixou muita gente nauseada, assustada. Refletiu-se
imediatamente no mundo inteiro, pois os meios de comunicação modernos
praticamente anulam distâncias, com sua afiadíssima lâmina
dupla: de um lado, o mundo à nossa disposição com suas belezas
e encantos; de outro, nós expostos como nunca ao horror.
Aliás, desde aquele 11 de setembro de 2001, sempre presente, parece que
mudamos. Não nos satisfazem mais receitas fáceis de viver bem. Estamos
nos questionando seriamente. Buscamos significados mais profundos, porque nos
sentimos responsáveis: por nós, pelo outro, pelo mundo, pela vida.
E pela
morte?
Pela morte às vezes também. Ou, ao menos, pelo que fazemos em relação
a ela, ou diante dela.
Outro dia fui ao velório de um homem muito moço. Abracei a jovem
viúva, e mais uma vez me dei conta do peso dessa palavra. Recordei a primeira
vez em que tive de escrever "Estado civil: viúva". Embora aquele fosse
meu estado havia semanas, senti um choque. Mesmo tantos anos depois, a sensação
retorna: sou eu, isso aconteceu comigo?
Ilustração
Ale Setti
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Como
todos ali, eu me sentia impotente para ajudar, a morte sendo a maior prova da
impotência de todos os amores. Fugi do tumulto de emoções
que enchiam o recinto e saí para o parque, onde os jazigos mal se distinguiam
no gramado com árvores e pássaros. Pensava no quanto as palavras
não adiantam nada, são nada, tudo é nada diante dessa realidade
irreal: aquele a quem amamos filho, marido, pai, mãe, irmão,
amigo , que momentos atrás nos abraçava, falava conosco, esse
se ausentara. Sua carne, seu cabelo, sua mão, seu olho atrás da
pálpebra tornavam-se meros resquícios, e também nos eram
tirados.
Onde está a nossa essência? Onde estaremos nós um dia, um
dia que pode ser hoje, amanhã, daqui a um mês?
Por não saber a resposta, nos defendemos no cotidiano, no trabalho, na
arte, na filosofia, na bebida, na droga, na frivolidade, na ideologia não
importa. Em tudo o que de legítimo ou ilegítimo fazemos, nos ocultamos.
Atrás de barricadas belas ou feias, medíocres ou grandiosas. Porém
o olho mágico da que fatalmente virá nos espreita, e dificilmente
estaremos preparados. Ninguém nem ao menos sabe nos dizer o que é
estar "preparado" para isso isso que é a um tempo separação
e encontro.
A rainha da nossa perplexidade, que torna o presente tão importante, o
amor tão urgente, a bondade tão necessária, a ética
tão essencial, a arte tão explicável ela, a majestade
morte, deveria nos tornar muito melhores do que somos. Muito mais generosos. Muito
mais audaciosos. Muito mais abertos para a vida, a alegria, a claridade, em lugar
de tão enredados em nossas intrigas mesquinhas, nossas reclamações
cotidianas, nossas vinganças minúsculas.
Porque só com vida bem vivida, com decência, coragem e doçura,
prepara-se alguém, ainda que sem muita habilidade, para isso que chamamos
morte: que nos espreita na cama, no carro, no avião, na calçada,
ou na escola invadida por um terrorista alucinado.
Lya Luft é escritora |