Edição 1872 . 22 de setembro de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Em torno de um abraço

No encontro entre Dirceu e ACM,
quanto paradoxo, quanto significado!

A porta é branca, salpicada dos quadrados salientes que os arquitetos chamam de almofadas, e exibe uma maçaneta redonda. Ela acaba de ser aberta, e deixa entrever, no hall de entrada da casa, um lustre no qual as lâmpadas se escondem por dentro de peças em forma de cálices. "O senhor por aqui? Seja bem-vindo." Não, não foram essas as primeiras palavras, entre o dono da casa e o visitante. Não pode ter havido expressão de surpresa, porque a visita era esperada. Mas igualmente amáveis, ou talvez ainda mais, foram com certeza os cumprimentos trocados, dado o calor que irradia a imagem do abraço em que se engalfinharam, o anfitrião de frente e o convidado de costas, um com a mão nas costas do outro, o anfitrião com um sorriso satisfeito a dominar-lhe o rosto.

O anfitrião é o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, o convidado é o senador Antonio Carlos Magalhães, e a cena descrita está na foto publicada na página A5 do jornal O Estado de S. Paulo da última terça-feira. O senador acabava de chegar ao jantar que reuniria, na casa do chefe da Casa Civil, o presidente Lula e um grupo de senadores ditos "oposicionistas" – "oposicionistas" com aspas já mesmo antes do jantar, mas, depois da comilança, dos vinhos e dos tapinhas nas costas, """"oposicionistas"""" com direito a muito mais aspas.

A foto de Dirceu recepcionando Antonio Carlos merece mais que um olhar distraído. A porta aberta como nos convida a penetrar na intimidade daquele abraço. Eles vieram de tão longe... Um da contestação ao governo militar, outro do governo militar. Um da prisão, do exílio e da clandestinidade, o outro dos palácios, dos gabinetes e dos quartéis. Um passou a vida em diatribes contra os poderosos, o outro desfrutou-a como sócio remido do poder. Um ama Fidel Castro, o outro o Senhor do Bonfim. Aquele abraço, aquele abraço... Que mar de indagações e de paradoxos – quanta significação, naquele abraço!

Quando um ator beija uma atriz, na novela, por mais que as bocas se abram, e o encontro dos lábios se prolongue em anseios e gemidos, dizem que é um beijo técnico. Fica a questão, para os leigos: não se sente nada, num beijo técnico? O peito não estufa, as entranhas não ardem, o coração não bate mais rápido? Digamos que Dirceu e ACM tenham trocado um abraço técnico. Mas aquele sorriso, aquela proximidade, aquelas mãos procurando as costas um do outro – será que eles não sentiram nada? A conferir nos próximos capítulos.

O abraço entre Dirceu e Antonio Carlos é o emblema por excelência da reviravolta que, desde a vitória eleitoral, sacode o PT. A história do Brasil oferece frases que poderiam servir como que de letreiros aos petistas, avisos iluminados de neon a indicar-lhes o percurso. "Nada mais parecido com um saquarema do que um luzia no poder", dizia-se no império. "Luzia" era o apelido dos liberais, e "saquarema", dos conservadores. Menos batida, e mais elaborada, é a fórmula engendrada por Joaquim Nabuco: "A fatalidade das revoluções é que sem os exaltados é impossível fazê-las e com eles é impossível governar". Explica por que a senadora Heloísa Helena e outros camaradas foram largados no caminho. Outra frase, do escritor Lúcio de Mendonça, ardente militante da causa republicana, funciona como um alerta contra alianças como a que se tece com Antonio Carlos Magalhães: "Republicano aliado a liberais, ou há de ser mau republicano, ou mau aliado".

Ao senador Antonio Carlos o passado também oferece uma divisa: "Fazer oposição, nesta nossa República, é rematada loucura". A frase é do político paulista Francisco Glicério, tonto com os primeiros anos da República pela qual tanto batalhara.

Que longo caminho, até aquele abraço. Eles vieram cada qual de muito longe para chegar, naquele momento, ao oposto de si mesmos. O percurso lembra um poema de Fernando Pessoa, Marinetti Acadêmico. O italiano Marinetti (1876-1944) foi o mais anárquico, o mais iconoclasta poeta de seu tempo. Inventou o "futurismo", que se espalhou pela Europa e tinha por bandeira destruir o passado. No entanto... Até Marinetti não resistiu às honras acadêmicas. Também ele, com isso, converteu-se no oposto de si mesmo. Pessoa escreveu então: "Lá chegam todos, lá chegam todos... Qualquer dia, salvo venda, chego eu também... / Se nascem, afinal, todos para isso..." E mais adiante:

"Lá chegam todos, porque nasceram para Isso...

E só se chega ao Isso para que se nasceu..."

Para evitar que o(a) leitor(a) quebre a cabeça pensando no "Isso", o terrível "Isso" dos versos do poeta, terminemos com uma indagação que nos conduz de volta ao pedestre mundinho da política cabocla: como é que o governo Lula vai mudar o Brasil sem mudar a Bahia?

 
 
 
 
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