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Televisão Por que estou
vendo isso? Todo mundo já se fez essa pergunta
diante de um programa ruim. A resposta é: a TV tem muitos truques
para enrolar o espectador  Ricardo
Valladares
Fotos
divulgação
 | Apresentadores
do Pânico: metalinguagem do lixo ainda é lixo |
A idéia de que a televisão conduz à passividade
é o lugar-comum favorito do intelectual que finge que não assiste
à novela. Mas até para quem gosta de televisão às
vezes fica difícil discordar da crítica. Muitos programas esticam
por vários blocos quadros que renderiam no máximo alguns segundos.
O mais surpreendente é que conseguem segurar o espectador dessa forma:
em alguns casos, até dobram a audiência média de suas emissoras.
Você talvez já tenha se sentido incapaz de desgrudar os olhos da
telinha durante um desses programas. Depois de desperdiçar seu precioso
tempo à espera de uma entrevista pífia que fora prometida
como bombástica ou para saber de um escabroso caso de adultério,
só lhe resta uma pergunta: "Por que estou vendo isso?" Bem, há uma
resposta: a televisão dispõe de uma série de técnicas
para enrolar o espectador incauto, além de explorar suas fraquezas e carências
humanas. João Kleber domina essas técnicas
com maestria em seus dois programas na Rede TV!. Seu carro-chefe ainda são
os testes de fidelidade, nos quais atores se insinuam para homens ou mulheres
comprometidos, enquanto os respectivos parceiros observam tudo por meio de câmeras
"ocultas". A diretora do quadro, apresentado no Eu Vi na TV, é a
mulher do apresentador, Wanya de Barros, ex-amante de PC Farias e Pedro Collor.
Quem agüenta ver pela enésima vez a namorada flagrando seu parceiro
engraçar-se com uma (má) atriz em roupas mínimas? João
Kleber tem uma série de bordões para manter atiçada a curiosidade
do espectador. Com frases como "Você quer ver isso" e "Não é
brincadeira", ele consegue aprisionar a audiência por longos minutos. O
expediente de Luciana Gimenez para evitar que o espectador recorra ao controle
remoto é um pouco mais sofisticado do ponto de vista tecnológico,
pelo menos: na base da tela, o gerador de caracteres está sempre ativo,
anunciando as atrações escandalosas que virão em seguida.
A impostação de voz também é outro truque recorrente.
Nesse quesito, ninguém supera Márcia Goldschmidt em seu programa
de relacionamentos na Bandeirantes. Além da voz histriônica, ela
também é campeã em fazer caras e bocas de quem está
horrorizada. Depois de dois meses e meio à frente do Jogo da Vida de
Márcia, o diretor Roberto Manzoni, o Magrão, afirma que o programa
deveria ser cortado de quatro para uma hora. "Já falei para a Marlene Mattos,
nossa diretora artística: No máximo duas, senão fica muito
arrastado", diz. Conselho de quem entende de enrolação: Magrão
dirigiu o programa de Gugu Liberato por mais de quinze anos.  | | Otávio
Mesquita: "A gente enrola mesmo. Só não vou falar nomes porque o pessoal freqüenta
a minha casa" |
Outro que está
pedindo para ser enxugado é Gilberto Barros, que consegue fazer um programa
diário de duas horas com apenas três temas. Claro que quanto mais
idiota ou absurdo o tema, melhor. Na terça-feira passada, ele enrolou o
telespectador com uma conversa maluca sobre extraterrestres. Amigo de uma frase
de efeito, Gilberto jurou repetidas vezes que sensacionalismo não é
com ele. Essa nobre declaração de princípios não o
impediu de colocar no ar uma entrevista com um sujeito que dizia já ter
se comunicado com um ET. "Não sei como o Gilberto consegue segurar um programa
com um desfile de lingerie, um crítico de moda e uma entrevista'', diz
Rodrigo Scarpa, que faz o personagem Repórter Vesgo, do Pânico,
sátira dos programas de auditório. O Repórter Vesgo, porém,
acaba respeitando os padrões estabelecidos pelos programas de que debocha.
Está lá o mesmo gerador de caracteres de Luciana Gimenez, reproduzindo
interminavelmente frases estúpidas como "Não saia daí, vamos
mostrar algo bem interessante em breve''. A metalinguagem do lixo continua sendo
lixo.  |  | Barros:
"Sensacionalismo não é comigo" | João
Kleber: "Você quer ver isso" |
Por
que programas tão ruins alcançam níveis de audiência
respeitáveis? A ociosidade e o esforço para evitar deveres (ou até
prazeres mais exigentes) contam. "A pessoa tem uma coisa para fazer, como sexo
com a patroa ou uma tarefa profissional, e o programa serve de desculpa para deixar
tudo para mais tarde", diz Lidia Weber, professora de psicologia da Universidade
Federal do Paraná. Muitas vezes, há também um elemento de
sadismo em quem admira a apelação. "As pessoas gostam de ver certas
imagens para se sentir melhor que os que estão lá sofrendo", diz
Lidia. O reality show Tá na Mão, apresentado até a
semana passada por Otávio Mesquita, foi um exemplo vergonhoso. Com edições
diárias de trinta minutos e um programa final de uma hora, exibia o sofrimento
de pessoas que ficaram em pé por mais de 65 horas para ganhar um carro.
Num momento excepcional de sinceridade, Mesquita reconhece: "A gente enrola mesmo.
Só não vou dizer nomes porque o pessoal freqüenta a minha casa".
Mas não é só na vida social de Otávio Mesquita que
apresentadores de programas ruins têm um papel. Programas ruins curiosamente
dão bons tópicos de conversação. Mas, na hora de comentá-los
com os amigos, é bom se valer da velha desculpa: "Eu estava só zapeando".
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