Edição 1872 . 22 de setembro de 2004

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Televisão
Por que estou vendo isso?

Todo mundo já se fez essa pergunta diante
de um programa ruim. A resposta é: a TV tem
muitos truques para enrolar o espectador


Ricardo Valladares

 
Fotos divulgação

Apresentadores do Pânico: metalinguagem do lixo ainda é lixo

A idéia de que a televisão conduz à passividade é o lugar-comum favorito do intelectual que finge que não assiste à novela. Mas até para quem gosta de televisão às vezes fica difícil discordar da crítica. Muitos programas esticam por vários blocos quadros que renderiam no máximo alguns segundos. O mais surpreendente é que conseguem segurar o espectador dessa forma: em alguns casos, até dobram a audiência média de suas emissoras. Você talvez já tenha se sentido incapaz de desgrudar os olhos da telinha durante um desses programas. Depois de desperdiçar seu precioso tempo à espera de uma entrevista pífia – que fora prometida como bombástica – ou para saber de um escabroso caso de adultério, só lhe resta uma pergunta: "Por que estou vendo isso?" Bem, há uma resposta: a televisão dispõe de uma série de técnicas para enrolar o espectador incauto, além de explorar suas fraquezas e carências humanas.

João Kleber domina essas técnicas com maestria em seus dois programas na Rede TV!. Seu carro-chefe ainda são os testes de fidelidade, nos quais atores se insinuam para homens ou mulheres comprometidos, enquanto os respectivos parceiros observam tudo por meio de câmeras "ocultas". A diretora do quadro, apresentado no Eu Vi na TV, é a mulher do apresentador, Wanya de Barros, ex-amante de PC Farias e Pedro Collor. Quem agüenta ver pela enésima vez a namorada flagrando seu parceiro engraçar-se com uma (má) atriz em roupas mínimas? João Kleber tem uma série de bordões para manter atiçada a curiosidade do espectador. Com frases como "Você quer ver isso" e "Não é brincadeira", ele consegue aprisionar a audiência por longos minutos. O expediente de Luciana Gimenez para evitar que o espectador recorra ao controle remoto é um pouco mais sofisticado – do ponto de vista tecnológico, pelo menos: na base da tela, o gerador de caracteres está sempre ativo, anunciando as atrações escandalosas que virão em seguida. A impostação de voz também é outro truque recorrente. Nesse quesito, ninguém supera Márcia Goldschmidt em seu programa de relacionamentos na Bandeirantes. Além da voz histriônica, ela também é campeã em fazer caras e bocas de quem está horrorizada. Depois de dois meses e meio à frente do Jogo da Vida de Márcia, o diretor Roberto Manzoni, o Magrão, afirma que o programa deveria ser cortado de quatro para uma hora. "Já falei para a Marlene Mattos, nossa diretora artística: No máximo duas, senão fica muito arrastado", diz. Conselho de quem entende de enrolação: Magrão dirigiu o programa de Gugu Liberato por mais de quinze anos.

 
Otávio Mesquita: "A gente enrola mesmo. Só não vou falar nomes porque o pessoal freqüenta a minha casa"

Outro que está pedindo para ser enxugado é Gilberto Barros, que consegue fazer um programa diário de duas horas com apenas três temas. Claro que quanto mais idiota ou absurdo o tema, melhor. Na terça-feira passada, ele enrolou o telespectador com uma conversa maluca sobre extraterrestres. Amigo de uma frase de efeito, Gilberto jurou repetidas vezes que sensacionalismo não é com ele. Essa nobre declaração de princípios não o impediu de colocar no ar uma entrevista com um sujeito que dizia já ter se comunicado com um ET. "Não sei como o Gilberto consegue segurar um programa com um desfile de lingerie, um crítico de moda e uma entrevista'', diz Rodrigo Scarpa, que faz o personagem Repórter Vesgo, do Pânico, sátira dos programas de auditório. O Repórter Vesgo, porém, acaba respeitando os padrões estabelecidos pelos programas de que debocha. Está lá o mesmo gerador de caracteres de Luciana Gimenez, reproduzindo interminavelmente frases estúpidas como "Não saia daí, vamos mostrar algo bem interessante em breve''. A metalinguagem do lixo continua sendo lixo.

 

Barros: "Sensacionalismo não é comigo"

João Kleber: "Você quer ver isso"

Por que programas tão ruins alcançam níveis de audiência respeitáveis? A ociosidade e o esforço para evitar deveres (ou até prazeres mais exigentes) contam. "A pessoa tem uma coisa para fazer, como sexo com a patroa ou uma tarefa profissional, e o programa serve de desculpa para deixar tudo para mais tarde", diz Lidia Weber, professora de psicologia da Universidade Federal do Paraná. Muitas vezes, há também um elemento de sadismo em quem admira a apelação. "As pessoas gostam de ver certas imagens para se sentir melhor que os que estão lá sofrendo", diz Lidia. O reality show Tá na Mão, apresentado até a semana passada por Otávio Mesquita, foi um exemplo vergonhoso. Com edições diárias de trinta minutos e um programa final de uma hora, exibia o sofrimento de pessoas que ficaram em pé por mais de 65 horas para ganhar um carro. Num momento excepcional de sinceridade, Mesquita reconhece: "A gente enrola mesmo. Só não vou dizer nomes porque o pessoal freqüenta a minha casa". Mas não é só na vida social de Otávio Mesquita que apresentadores de programas ruins têm um papel. Programas ruins curiosamente dão bons tópicos de conversação. Mas, na hora de comentá-los com os amigos, é bom se valer da velha desculpa: "Eu estava só zapeando".

 
 
 
 
topovoltar