Edição 1872 . 22 de setembro de 2004

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Rússia
Putin acena com a mão de ferro

Presidente russo reage ao massacre de Beslan
com uma reforma para adquirir mais poderes

 
Reuters
Putin: o temor é que a centralizaçãoatinja a economia

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Em Profundidade: Terror Internacional

Um chefe de Estado que usa grave atentado terrorista praticado em seu país para consolidar um projeto pessoal de poder. Já vimos esse filme? As atitudes do presidente russo Vladimir Putin fazem George W. Bush parecer um exemplo de equilíbrio. Tomar medidas de força, por excessivas que fossem, seria previsível depois que separatistas da Chechênia levaram as táticas terroristas ao pavoroso extremo que redundou no assalto a uma escola em Beslan, no sul da Rússia, ao suplício e à morte de adultos e crianças, num total de 339 vítimas fatais. Agora, Putin começou a abusar. Na semana passada, anunciou uma reforma no sistema eleitoral que distancia a Rússia do caminho democrático, por instável que seja, iniciado em 1991, após a autodissolução da União Soviética. Se as novas medidas forem aprovadas pelo Congresso, os 89 governadores das repúblicas e regiões que formam a Federação Russa serão indicados pelo chefe de Estado – Putin, é claro. O voto direto deixará de valer também para a Câmara de Deputados. Putin quer que, no futuro, todos os 450 parlamentares sejam escolhidos com base em listas de partidos, o que exterminaria qualquer oposição.

As medidas de Putin causam apreensão por dois motivos. Primeiro, porque elas podem sinalizar um enfraquecimento das já precárias instituições na Rússia. Segundo, pelo temor de que ele estenda essa concentração de poder ao terreno da economia. Nos dois casos, perde não só a Rússia, mas o resto do mundo. Desde que sepultou o comunismo, há pouco mais de dez anos, a Rússia iniciou uma inserção no mercado global. Hoje, é o segundo maior produtor de petróleo do planeta – riqueza estratégica que Putin tem manobrado para colocar de novo, em alguma medida, sob controle estatal. Iniciativas assim, somadas ao retrocesso nas regras democráticas, teriam conseqüências nada boas sobre a economia mundial – e, obviamente, efeito zero sobre o terrorismo.

 
Fotos AP
Volta às aulas em Beslan: Basayev (à dir.) assumiu o atentado

A facilidade com que os chechenos explodem aviões e massacram crianças tem mais a ver com a corrupção endêmica do país do que com a insubordinação de um ou outro governador. Na semana passada, descobriu-se que as duas terroristas suicidas que explodiram dois aviões de passageiros há um mês chegaram a ser detidas antes do embarque, mas a soma de corrupção com incompetência abriu caminho à tragédia. No aeroporto, elas foram abordadas por policiais, que confiscaram seus passaportes. O comandante local as liberou. Além disso, uma das terroristas subornou um funcionário da companhia aérea para poder pegar o vôo naquele dia – a passagem dela estava marcada para o dia seguinte. Pagou o equivalente a 100 reais e matou 45 pessoas.

"Os governos que combatem os inimigos da democracia têm de sustentar os princípios da democracia", disse Bush, numa rara, porém merecida, crítica ao presidente russo, com quem tem boas relações, políticas e pessoais. Putin respondeu que o governo americano deve cuidar dos próprios problemas. No fim, acabou recebendo uma ajudazinha, involuntária, de seu inimigo número 1, o líder checheno Shamil Basayev. Ao assumir a responsabilidade pelo atentado de Beslan, Basayev disse que Putin é o único culpado pela morte das crianças. A afirmação é de um cinismo monstruoso, já que foi feita pelo homem que mandou comandos suicidas seqüestrar os alunos e planejou a instalação de explosivos na escola. O que a eleição indireta de governadores tem a ver com o combate a um inimigo assim?

 
 
 
 
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