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Medicina
O beijo do lagarto
A saliva
do monstro-de-gila dá origem
a um
novo remédio para o diabetes tipo 2

Karina Pastore
O monstro-de-gila,
que vive nos desertos do sudoeste americano e do México,
é o único lagarto venenoso do mundo. Mortal para pequenos
roedores, seu veneno é uma das grandes promessas da medicina
para o tratamento de um dos mais devastadores males da modernidade,
o diabetes tipo 2. Em 1992, o médico americano John Eng isolou
uma substância da saliva venenosa do réptil que se
mostrou bastante eficaz no controle da doença. A partir dela,
Eng criou um composto chamado exenatida. Fabricado pelo laboratório
Eli Lilly, o medicamento está em via de receber o aval da
FDA, a agência americana de controle de remédios e
alimentos. A previsão é que ele chegue ao Brasil em
2006. Aprovado o seu uso, a exenatida será o primeiro de
uma nova classe de medicamentos contra o diabetes tipo 2.
A exenatida
imita a ação do GLP-1, um hormônio produzido
no intestino, na presença de alimentos. Num organismo sadio,
o GLP-1 sai do intestino e vai até o pâncreas, no qual
estimula a produção de outro hormônio, a insulina.
A principal função da insulina é abrir a "porta"
das células para a glicose, a grande fonte de energia do
corpo humano, evitando seu acúmulo no sangue. A atuação
do GLP-1 vai além. Ele também age no cérebro
ao promover a saciedade e diminuir o apetite. Como nos diabéticos
tipo 2 a síntese de GLP-1 é menor do que a necessária,
todo esse processo entra em descompasso. Pertencente à categoria
dos remédios inteligentes, a exenatida é administrada
por injeção duas vezes ao dia uma no almoço
e outra no jantar. Suas moléculas ficam circulando pelo organismo,
mas só entram em funcionamento quando a glicemia se eleva.
Os estudos
com a exenatida serão apresentados na próxima semana,
durante o 12º Congresso Latino-Americano de Diabetes, em São
Paulo. As pesquisas feitas nos Estados Unidos contaram com a participação
de 1.000 voluntários, durante trinta semanas. Em todos os
casos, o remédio conseguiu manter as taxas de glicose em
patamares normais o que diminui muito os riscos de complicações
associadas à enfermidade, como infarto, derrame, insuficiência
renal, cegueira, paralisia, amputação de pernas ou
pés e impotência sexual. Conforme outro trabalho com
a exenatida, os pacientes perdem, em média, 3,3 quilos em
52 semanas de tratamento. A redução de peso é
uma das principais recomendações aos diabéticos
tipo 2 já que as células adiposas aumentam
a resistência do organismo à insulina. Em experiências
com animais, a exenatida mostrou ainda ter o poder de aumentar a
multiplicação das células produtoras de insulina.
Confirmada a mesma ação em seres humanos, a exenatida
será o primeiro medicamento capaz de retardar a progressão
do diabetes tipo 2.
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