Edição 1872 . 22 de setembro de 2004

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Medicina
O beijo do lagarto

A saliva do monstro-de-gila dá origem
a um novo remédio para o diabetes tipo 2


Karina Pastore

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O monstro-de-gila, que vive nos desertos do sudoeste americano e do México, é o único lagarto venenoso do mundo. Mortal para pequenos roedores, seu veneno é uma das grandes promessas da medicina para o tratamento de um dos mais devastadores males da modernidade, o diabetes tipo 2. Em 1992, o médico americano John Eng isolou uma substância da saliva venenosa do réptil que se mostrou bastante eficaz no controle da doença. A partir dela, Eng criou um composto chamado exenatida. Fabricado pelo laboratório Eli Lilly, o medicamento está em via de receber o aval da FDA, a agência americana de controle de remédios e alimentos. A previsão é que ele chegue ao Brasil em 2006. Aprovado o seu uso, a exenatida será o primeiro de uma nova classe de medicamentos contra o diabetes tipo 2.

A exenatida imita a ação do GLP-1, um hormônio produzido no intestino, na presença de alimentos. Num organismo sadio, o GLP-1 sai do intestino e vai até o pâncreas, no qual estimula a produção de outro hormônio, a insulina. A principal função da insulina é abrir a "porta" das células para a glicose, a grande fonte de energia do corpo humano, evitando seu acúmulo no sangue. A atuação do GLP-1 vai além. Ele também age no cérebro ao promover a saciedade e diminuir o apetite. Como nos diabéticos tipo 2 a síntese de GLP-1 é menor do que a necessária, todo esse processo entra em descompasso. Pertencente à categoria dos remédios inteligentes, a exenatida é administrada por injeção duas vezes ao dia – uma no almoço e outra no jantar. Suas moléculas ficam circulando pelo organismo, mas só entram em funcionamento quando a glicemia se eleva.

Os estudos com a exenatida serão apresentados na próxima semana, durante o 12º Congresso Latino-Americano de Diabetes, em São Paulo. As pesquisas feitas nos Estados Unidos contaram com a participação de 1.000 voluntários, durante trinta semanas. Em todos os casos, o remédio conseguiu manter as taxas de glicose em patamares normais – o que diminui muito os riscos de complicações associadas à enfermidade, como infarto, derrame, insuficiência renal, cegueira, paralisia, amputação de pernas ou pés e impotência sexual. Conforme outro trabalho com a exenatida, os pacientes perdem, em média, 3,3 quilos em 52 semanas de tratamento. A redução de peso é uma das principais recomendações aos diabéticos tipo 2 – já que as células adiposas aumentam a resistência do organismo à insulina. Em experiências com animais, a exenatida mostrou ainda ter o poder de aumentar a multiplicação das células produtoras de insulina. Confirmada a mesma ação em seres humanos, a exenatida será o primeiro medicamento capaz de retardar a progressão do diabetes tipo 2.

 

 

 
 
 
 
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