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Ministério
Fora de compasso
Como um site da Secretaria da Comunicação
falsificou uma entrevista de Gilberto Gil
Joedson Alves/AE
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| Gilberto Gil: tentação autoritária
no interior do governo veio à tona mais uma vez no embate
entre o ministro-artista e a Secretaria de Comunicação
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Está na hora de discutir a criação de um conselho
destinado a orientar, disciplinar e fiscalizar os propagandistas
do governo do PT. Na semana passada, esses profissionais causaram
um enorme dissabor ao ministro da Cultura, Gilberto Gil, ao distorcer
uma entrevista que ele concedeu ao Em Questão, site de propaganda
política mantido pela Secretaria de Comunicação
do Planalto (Secom). No texto que foi ao ar no último dia
10, Gil afirmava que, com a aprovação do projeto de
lei da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav),
setores estratégicos de produção cultural ficariam
livres do "fascismo das grandes corporações da mídia".
Saudava, ainda, a possibilidade de controlar o conteúdo e
a autonomia de criação das emissoras de TV. Essa versão
da entrevista, porém, era falsa. Os propagandistas do governo
acabaram reconhecendo que, por "um grave erro de edição",
frases distorcidas de um antigo discurso do ministro (veja
abaixo) haviam sido contrabandeadas para o texto,
fazendo com que Gil defendesse, no Em Questão, teses que
não são dele (mas que correspondem, notoriamente,
ao ideário de seu colega Luiz Gushiken, o titular da Secom).
Gilberto Gil tomou conhecimento da distorção
de suas palavras na terça-feira. Durante uma audiência
no Senado, a respeito justamente da Ancinav, o ministro desautorizou
a entrevista, dizendo que ela não correspondia ao que pensava,
tampouco ao que havia dito. De fato, Gil tem insistido no desejo
de eliminar do projeto tudo o que possa ser considerado autoritário.
Como demonstra a entrevista corrigida que o Em Questão pôs
no ar depois do escândalo, ele já fez com que dois
dos artigos mais polêmicos fossem retirados um deles
previa explicitamente o controle do conteúdo das transmissões
de TV. Mas ainda sobra muita coisa:
No campo tributário, o projeto da Ancinav prevê taxa
de 10% sobre a compra de ingressos de cinema ou sobre o aluguel
de vídeos. Além disso, 4% sobre a receita das emissoras
de rádio e TV uma porcentagem que é maior que
a margem de lucro de muitas delas.
Um artigo confere à agência o poder de requerer das
empresas do setor audiovisual todo tipo de "informação
técnica, operacional, econômico-financeira e contábil",
para o fim de aplicar sanções.
Como demonstrou num artigo recente João Roberto Marinho,
o vice-presidente das Organizações Globo, esconde-se,
sob os vários expedientes regulatórios previstos no
projeto, a possibilidade de que a Ancinav controle a informação
veiculada em rede pelos grandes canais.
Na terça-feira à noite, depois
do desabafo de Gil no Senado, um constrangido Luiz Gushiken telefonou
ao ministro da Cultura para pedir desculpas. No dia seguinte, a
versão restaurada da entrevista de Gil foi ao ar, encabeçada
por uma nota sobre o "lamentável acontecimento". Faltou revelar
os bastidores da confusão. Segundo a versão da Secom,
toda a responsabilidade recai sobre uma única funcionária,
Vera Rott, de 46 anos, exonerada na quinta-feira. Ela teria entrevistado
Gil, editado o texto e depois saltado duas etapas usuais na publicação
dos "informativos" do Em Questão: enviar uma cópia
aos seus superiores e outra à autoridade sobre quem o texto
fala. Admita-se que foi o caso. Ainda assim, o ato da propagandista
Vera certamente é reflexo de um ambiente em que se crê
piamente no "fascismo das corporações da mídia".
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OS
PROPAGANDISTAS DA SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO
DO PLANALTO MANIPULARAM DECLARAÇÕES DO
MINISTRO GILBERTO GIL. VEJA A ENTREVISTA FALSA
Em Questão
Quem mais se beneficiará com essa
regulamentação?
Gil Sem
dúvida, a sociedade, que terá seus valores
fundamentais assegurados. Seus setores estratégicos
estarão mais livres do fascismo das grandes corporações
da mídia. Queremos contemplar a riqueza, o dinamismo
da sociedade, mas sem imposições, apenas
com diretrizes.
Em Questão
Quais as principais novidades a serem
trazidas pela nova agência?
Gil A
possibilidade de controle sobre o conteúdo e
a autonomia de criação das emissoras de
TV.
AO TOMAR
CONHECIMENTO DA DETURPAÇÃO DE SUA FALA,
O MINISTRO REAGIU. OS PROPAGANDISTAS DO GOVERNO ATRIBUIRAM
O EPISÓDIO A UM "GRAVE ERRO DE EDIÇÃO"
E PUBLICARAM UMA NOVA VERSÃO DA ENTREVISTA
Em Questão
Quais as principais modificações
feitas no projeto original de criação
da nova agência?
Gil
Foram feitas alterações no artigo 8 e
no artigo 43. Modificações nos textos
que poderiam, ou alegava-se que abririam a possibilidade
de controle sobre o conteúdo e a autonomia da
criação das emissoras de TV. Foram modificações
basicamente ligadas à (sic) essas questões.
Ainda estão pendentes a taxação
da publicidade na televisão, das cópias
de cinema a partir de uma determinada quantidade de
ocupação da tela, entre outras coisas.
A lei estabelecerá quem é quem nesses
setores, brasileiros e estrangeiros, tratará
do problema da concentração de informações
por grupos cada vez menores e mais poderosos. A Ancinav
tratará as assimetrias de participação
no mercado provocadas por essa concentração
de poder.
AS DECLARAÇÕES
DE GIL SOBRE O "FASCISMO DAS GRANDES CORPORAÇÕES
DA MÍDIA" FORAM ADAPTADAS DE UMA PALESTRA QUE
ELE DEU, EM AGOSTO, NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
"A sociedade
precisa de instrumentos tanto legais quanto legítimos
para se defender de todo e qualquer fascismo. Falo,
por exemplo, do fascismo da exclusão social,
do fascismo do obscurantismo, do fascismo da hegemonia
de uma cultura, e de seus bens, serviços e valores
culturais, sobre as demais culturas que compõem
o grande patrimônio comum da humanidade. Falo
também do fascismo do Estado, do fascismo das
grandes corporações e do fascismo da mídia,
fascismos igualmente perigosos, igualmente autoritários,
igualmente 'istas' e 'antes', porque amparados num poder
desmedido, incomensurável, que se afirma sobre
a sociedade e a democracia."
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