Edição 1872 . 22 de setembro de 2004

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Ministério
Fora de compasso

Como um site da Secretaria da Comunicação
falsificou uma entrevista de Gilberto Gil


Joedson Alves/AE
Gilberto Gil: tentação autoritária no interior do governo veio à tona mais uma vez no embate entre o ministro-artista e a Secretaria de Comunicação


Está na hora de discutir a criação de um conselho destinado a orientar, disciplinar e fiscalizar os propagandistas do governo do PT. Na semana passada, esses profissionais causaram um enorme dissabor ao ministro da Cultura, Gilberto Gil, ao distorcer uma entrevista que ele concedeu ao Em Questão, site de propaganda política mantido pela Secretaria de Comunicação do Planalto (Secom). No texto que foi ao ar no último dia 10, Gil afirmava que, com a aprovação do projeto de lei da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav), setores estratégicos de produção cultural ficariam livres do "fascismo das grandes corporações da mídia". Saudava, ainda, a possibilidade de controlar o conteúdo e a autonomia de criação das emissoras de TV. Essa versão da entrevista, porém, era falsa. Os propagandistas do governo acabaram reconhecendo que, por "um grave erro de edição", frases distorcidas de um antigo discurso do ministro (veja abaixo) haviam sido contrabandeadas para o texto, fazendo com que Gil defendesse, no Em Questão, teses que não são dele (mas que correspondem, notoriamente, ao ideário de seu colega Luiz Gushiken, o titular da Secom).

Gilberto Gil tomou conhecimento da distorção de suas palavras na terça-feira. Durante uma audiência no Senado, a respeito justamente da Ancinav, o ministro desautorizou a entrevista, dizendo que ela não correspondia ao que pensava, tampouco ao que havia dito. De fato, Gil tem insistido no desejo de eliminar do projeto tudo o que possa ser considerado autoritário. Como demonstra a entrevista corrigida que o Em Questão pôs no ar depois do escândalo, ele já fez com que dois dos artigos mais polêmicos fossem retirados – um deles previa explicitamente o controle do conteúdo das transmissões de TV. Mas ainda sobra muita coisa:

No campo tributário, o projeto da Ancinav prevê taxa de 10% sobre a compra de ingressos de cinema ou sobre o aluguel de vídeos. Além disso, 4% sobre a receita das emissoras de rádio e TV – uma porcentagem que é maior que a margem de lucro de muitas delas.

Um artigo confere à agência o poder de requerer das empresas do setor audiovisual todo tipo de "informação técnica, operacional, econômico-financeira e contábil", para o fim de aplicar sanções.

Como demonstrou num artigo recente João Roberto Marinho, o vice-presidente das Organizações Globo, esconde-se, sob os vários expedientes regulatórios previstos no projeto, a possibilidade de que a Ancinav controle a informação veiculada em rede pelos grandes canais.

Na terça-feira à noite, depois do desabafo de Gil no Senado, um constrangido Luiz Gushiken telefonou ao ministro da Cultura para pedir desculpas. No dia seguinte, a versão restaurada da entrevista de Gil foi ao ar, encabeçada por uma nota sobre o "lamentável acontecimento". Faltou revelar os bastidores da confusão. Segundo a versão da Secom, toda a responsabilidade recai sobre uma única funcionária, Vera Rott, de 46 anos, exonerada na quinta-feira. Ela teria entrevistado Gil, editado o texto e depois saltado duas etapas usuais na publicação dos "informativos" do Em Questão: enviar uma cópia aos seus superiores e outra à autoridade sobre quem o texto fala. Admita-se que foi o caso. Ainda assim, o ato da propagandista Vera certamente é reflexo de um ambiente em que se crê piamente no "fascismo das corporações da mídia".

 

OS PROPAGANDISTAS DA SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO DO PLANALTO MANIPULARAM DECLARAÇÕES DO MINISTRO GILBERTO GIL. VEJA A ENTREVISTA FALSA

Em Questão Quem mais se beneficiará com essa regulamentação?
Gil Sem dúvida, a sociedade, que terá seus valores fundamentais assegurados. Seus setores estratégicos estarão mais livres do fascismo das grandes corporações da mídia. Queremos contemplar a riqueza, o dinamismo da sociedade, mas sem imposições, apenas com diretrizes.

Em Questão Quais as principais novidades a serem trazidas pela nova agência?
Gil A possibilidade de controle sobre o conteúdo e a autonomia de criação das emissoras de TV.

 

AO TOMAR CONHECIMENTO DA DETURPAÇÃO DE SUA FALA, O MINISTRO REAGIU. OS PROPAGANDISTAS DO GOVERNO ATRIBUIRAM O EPISÓDIO A UM "GRAVE ERRO DE EDIÇÃO" E PUBLICARAM UMA NOVA VERSÃO DA ENTREVISTA

Em Questão Quais as principais modificações feitas no projeto original de criação da nova agência?
Gil Foram feitas alterações no artigo 8 e no artigo 43. Modificações nos textos que poderiam, ou alegava-se que abririam a possibilidade de controle sobre o conteúdo e a autonomia da criação das emissoras de TV. Foram modificações basicamente ligadas à (sic) essas questões. Ainda estão pendentes a taxação da publicidade na televisão, das cópias de cinema a partir de uma determinada quantidade de ocupação da tela, entre outras coisas. A lei estabelecerá quem é quem nesses setores, brasileiros e estrangeiros, tratará do problema da concentração de informações por grupos cada vez menores e mais poderosos. A Ancinav tratará as assimetrias de participação no mercado provocadas por essa concentração de poder.

 

AS DECLARAÇÕES DE GIL SOBRE O "FASCISMO DAS GRANDES CORPORAÇÕES DA MÍDIA" FORAM ADAPTADAS DE UMA PALESTRA QUE ELE DEU, EM AGOSTO, NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

"A sociedade precisa de instrumentos tanto legais quanto legítimos para se defender de todo e qualquer fascismo. Falo, por exemplo, do fascismo da exclusão social, do fascismo do obscurantismo, do fascismo da hegemonia de uma cultura, e de seus bens, serviços e valores culturais, sobre as demais culturas que compõem o grande patrimônio comum da humanidade. Falo também do fascismo do Estado, do fascismo das grandes corporações e do fascismo da mídia, fascismos igualmente perigosos, igualmente autoritários, igualmente 'istas' e 'antes', porque amparados num poder desmedido, incomensurável, que se afirma sobre a sociedade e a democracia."

 
 
 
 
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