Edição 1872 . 22 de setembro de 2004

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Governo
10 milhões de divergências

Para ter o apoio do PTB, o PT ofereceu cargos,
material de campanha e 150 000 reais a cada
deputado – mas, como o negócio não vinha
sendo cumprido, os petebistas estão querendo
o rompimento


Alexandre Oltramari e Otávio Cabral


Alan Marques/Folha Imagem
NO REFÚGIO
José Dirceu: o PTB reclama que ele recebeu mas não pagou

EXCLUSIVO ON-LINE
Notícias diárias sobre o governo Lula

Há dois meses, a política brasileira produziu uma cena insólita. Numa solenidade em São Paulo, o presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson, com voz emocionada e olhos lacrimejantes, anunciou seu apoio à reeleição da prefeita Marta Suplicy. Em seu discurso, Jefferson explicou que o apoio, sacramentado em encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, fazia parte de uma estratégia para ampliar a aliança que une PTB e PT. O acordo previa o apoio dos petebistas a candidatos do PT em cinco capitais. Jefferson, general da tropa que tentou até o fim salvar Fernando Collor do impeachment, revelou um inusitado desapego. Além de convencer seus comandados em São Paulo a apoiar Marta Suplicy, ainda desagradou à própria filha, então secretária do prefeito Cesar Maia, do Rio de Janeiro, ao anunciar o apoio do PTB ao petista Jorge Bittar. "Não vou lhe pedir nada, presidente, mas aceitarei todos os convites que receber", disse Jefferson ao presidente Lula no encontro que selou o acordo, conforme ele próprio divulgou. Sabe-se agora que tudo o que se leu acima foi um jogo de cena.


Alan Marques/Folha Imagem
ÚLTIMA HORA – Jefferson, do PTB: irritação

A história que vem a seguir mostra que, por trás da aparente assepsia cívica de um acordo político, PT e PTB fecharam um negócio de cerca de 10 milhões de reais, que começou a fazer água por falta de dinheiro e, na semana passada, levou a uma rebelião petebista em Brasília. Não se trata de um fato inédito, num quadro político em que negociatas entre partidos – compra de votos, de mandatos, de consciências – são praticamente uma banalidade. O inusitado do caso de agora não é quem está do lado vendedor do balcão, considerando-se que o PTB construiu uma biografia política com caudalosos capítulos comerciais. O espantoso é quem aparece do lado comprador. Para esclarecer o episódio, VEJA cotejou as versões relatadas pelo maior número possível de pessoas. Ao todo, nove fontes contaram detalhes da história, com a condição de que sua identidade não fosse revelada: são seis parlamentares, dois servidores públicos e um dirigente partidário sem mandato. Dos nove entrevistados, três são ligados ao PTB, quatro vinculados ao PT e dois trabalham no Palácio do Planalto. Todos confirmaram que o acordo entre os dois partidos envolveu mais que interesses políticos – envolveu cargos federais, material de campanha e dinheiro. O essencial dos depoimentos colhidos por VEJA permite concluir que o acordo tinha os seguintes termos:

O PT se comprometia a fornecer cerca de 150.000 reais a cada deputado federal do PTB. Como o partido tem 52 deputados, a conta ficaria em quase 8 milhões de reais. Os deputados usariam o dinheiro para ajudar prefeitos e vereadores em seus redutos eleitorais e assim ficariam bem com suas bases.

O PT se encarregava de dar cerca de 2 milhões de reais à cúpula do PTB para aplicar nas campanhas que julgasse mais estratégicas. Em princípio, o dinheiro iria para campanhas como a de Joaquim Francisco, candidato a prefeito do Recife, e a de Benito Gama, candidato em Salvador.

Fora o dinheiro, o PT ficou de fornecer material de campanha a candidatos a prefeito e vereador do PTB. No Recife, por exemplo, o PTB ganharia carros e aluguel dos comitês eleitorais. Em São Paulo, os candidatos a vereador pelo partido ganhariam 1 milhão de panfletos.

Entre os cargos negociados, o PTB ficaria com a superintendência do INSS em São Paulo e Goiânia, cidades onde o partido retirou seus candidatos do páreo em favor dos petistas. No Rio, Cristiane Brasil, filha de Roberto Jefferson, indicaria um diretor da Embratur, a estatal responsável pelo turismo.

Luis Antonio
LONGE DE TODOS
Delúbio Soares, o tesoureiro do PT: notoriedade afasta potenciais doadores

O acordo foi negociado pelo deputado Roberto Jefferson e pelo ministro José Dirceu, da Casa Civil. Os 10 milhões de reais viriam do caixa do próprio PT, e não se tem notícia de que nenhum centavo estivesse saindo dos cofres públicos. A idéia do governo era transformar o PTB em seu principal aliado em Brasília e, com mais tempo de TV, dar novo ímpeto às campanhas do PT. A formalização do acordo ocorreu em meados de junho, na sala de reuniões do 3º andar do Palácio do Planalto. No encontro, além de Dirceu e Jefferson, estava presente o presidente do PT, José Genoíno. É público que o presidente Lula apareceu no final. Qualquer acordo político dessa magnitude, para ter valor, precisa contar com a chancela do presidente da República, mas não há nenhum indício ou acusação, velada ou não, de que Lula tivesse informação de que a negociação, em seus meandros, envolvesse dinheiro. O mais certo é que o presidente soubesse apenas da parte saudável do acordo, tendo sido poupado dos detalhes pecuniários.


Eduardo Knapp/Folha Imagem
NOVA REUNIÃO
José Genoíno, presidente do PT: encontro com Jefferson marcado para esta semana

"Selado o acordo, o Delúbio indicou uma pessoa para o Palmieri procurar", diz um dos parlamentares ouvidos por VEJA. Traduzindo: Delúbio Soares, tesoureiro do PT, indicou um contato a Emerson Palmieri, tesoureiro do PTB. "Depois, o Palmieri apareceu com a mala distribuindo o dinheiro." Ele se refere ao episódio ocorrido em meados de julho, quando Palmieri esteve no Congresso, instalou-se no gabinete de José Múcio, líder do PTB, e chamou os deputados para entregar-lhes parte dos 150.000 reais. "A mala estava cheia", diz um deputado que recebeu parte do dinheiro na ocasião. O problema é que, de lá para cá, mais nada foi feito, e as fileiras do PTB começaram a se agitar diante da falta de dinheiro e do atraso nas nomeações para os cargos. As superintendências do INSS em São Paulo e em Goiânia seguem nas mãos do PMDB. O PT fluminense não entregou uma diretoria na Embratur à filha de Jefferson. No Paraná, o PTB até hoje não recebeu a prometida diretoria de Itaipu. O dinheiro também estancou. Recentemente, Jefferson, impaciente com a bagunça, procurou José Genoíno, presidente do PT. Saiu do encontro dizendo ter ouvido que uma das razões do atraso do dinheiro seria o excesso de exposição do tesoureiro petista, o que estaria dificultando a arrecadação de recursos até para campanhas do PT. Disse, ainda, ter ouvido uma oferta de que parcelas atrasadas da cota de 150.000 reais dos deputados poderiam ser pagas em 24 de setembro. Jefferson não gostou. Ele e Genoíno voltariam a conversar nesta semana.


Ed Ferreira/AE
A OPOSIÇÃO
Lula, no jantar com senadores da oposição na semana passada: pouco resultado, muita gritaria

Emerson Palmieri, o homem do dinheiro no PTB, é antigo freqüentador de histórias heterodoxas sobre finanças eleitorais. Paranaense, Palmieri ganhou notoriedade em julho de 2002, quando seu nome apareceu no escândalo do caixa dois da campanha do atual prefeito de Curitiba, o pefelista Cassio Taniguchi. Na época, o jornal Folha de S.Paulo descobriu que, na contabilidade paralela da campanha, Palmieri surgia como beneficiário de 560.000 reais. Nesse período, Palmieri era um dos coordenadores da campanha presidencial de Ciro Gomes. Acabou perdendo o cargo. Foi substituído por Walfrido dos Mares Guia. Os três personagens voltaram a se encontrar sob o governo de Lula. Ciro Gomes virou ministro da Integração Nacional. Mares Guia é ministro do Turismo. Palmieri ganhou o posto de diretor de administração e finanças da Embratur, estatal subordinada a Mares Guia.

A revolta do PTB com o descumprimento do acordo chegou ao auge na semana passada, e um dos alvos era o ministro José Dirceu. Na terça-feira, Jefferson tentou durante todo o dia falar com o ministro, mas não conseguiu. Queria dizer a ele que o PTB estava promovendo um motim na Câmara dos Deputados ao obstruir as votações de interesse do governo. Na quarta, porém, o líder do partido na Câmara, José Múcio, deslocou-se até o Palácio do Planalto para ser recebido por José Dirceu, mas também não conseguiu. Irritado, saiu dizendo que deixaria o cargo de líder e levaria o PTB para a oposição. De volta ao Congresso, José Múcio juntou-se a Jefferson e foram ambos ao gabinete do presidente da Câmara, o petista João Paulo Cunha, verbalizar mais ameaças. Enquanto isso, uns vinte deputados reuniam-se com Luiz Piauhylino, vice-presidente da Câmara, para esboçar uma carta de racha do PTB com o governo e o PT.

Vivendo a etapa mais abastada de sua história, o PT nunca teve tanto dinheiro em caixa e, por isso, fica difícil entender por que não cumpriu o acerto pecuniário com o PTB. VEJA ouviu três dirigentes petistas e, pedindo também para não ser identificados, eles apontaram algumas razões para o descumprimento do trato. Uma delas, de fato, é a excessiva exposição de Delúbio Soares, transformado em suspeito número 1 num país que não esqueceu o trauma de PC Farias no governo Collor. Com sua notoriedade, Delúbio estaria afugentando doadores potenciais. Outro aspecto é que, apesar da fartura de dinheiro, as campanhas petistas estão mais difíceis do que se imaginava, levando o partido a gastar mais que o previsto. É o caso de São Paulo, com Marta Suplicy (veja reportagem na pág. 50), e Curitiba, onde o petista Angelo Vanhoni foi alcançado por seu adversário tucano, Beto Richa. "Não sei por que toda essa celeuma do PTB. Está faltando dinheiro inclusive para as campanhas petistas", diz um deputado do PTB, ao minimizar a revolta de seus correligionários.

Procurado por VEJA, o ministro José Dirceu negou, através de sua assessora, Telma Feher, os termos do acordo. O deputado Roberto Jefferson preferiu emitir uma nota, dizendo que as divergências entre PT e PTB estão limitadas a Pernambuco. "É um momento de recursos escassos, mas o PTB está ciente de todos os seus compromissos", diz a nota. José Genoíno negou que a contrapartida do acordo seja o pagamento de aluguel, carros ou comitês, muito menos dinheiro vivo. "Eu não mexo com esse tipo de assunto. No acordo que fiz com o Roberto Jefferson, a condição é apoio mútuo. Só isso." Emerson Palmieri, que formalmente deixou a tesouraria do PTB, nega que tenha levado dinheiro aos correligionários. "Estão me confundindo, quisera eu ter esse poder", disse. Delúbio Soares, tesoureiro do PT, por meio de sua assessoria, afirma que o acordo foi político, e não pecuniário. O deputado José Múcio não se manifestou.

O estouro da crise PT-PTB ajuda a entender o jantar da semana passada de Lula com nove senadores da oposição, liderados por Antonio Carlos Magalhães, do PFL baiano. Refém de uma base parlamentar tratada a emendas e cargos – e moeda sonante –, Lula tenta ampliar seu leque de apoio aliciando senadores no PFL e no PSDB. O jantar, no qual se serviu camarão ao molho de maracujá e se bebeu vinho tinto, com Lula limitando-se a goles de guaraná diet, transcorreu em clima de extrema cordialidade e pouco resultado. O agrado aos senadores não teve efeitos positivos no andamento das votações no Congresso, mas gerou muita gritaria. Um deputado pefelista chegou a protocolar pedido de expulsão de ACM do partido. O PSDB estuda expulsar o tocantinense Eduardo Siqueira Campos, único tucano no jantar. ACM saiu do convescote afirmando que recebeu a garantia de Dirceu e Lula de que, se fundar um partido com dissidentes, o governo se empenhará em mudar a lei eleitoral para facilitar a vida da nova sigla. Bem, acordos com Dirceu e o PT não estão muito em alta em Brasília, mas...

 
 
 
 
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