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Governo
10 milhões de divergências
Para ter o apoio do PTB, o PT ofereceu cargos,
material de campanha e 150 000 reais a cada
deputado mas, como o negócio não vinha
sendo cumprido, os petebistas estão querendo
o rompimento

Alexandre Oltramari e Otávio
Cabral
Alan Marques/Folha Imagem
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NO REFÚGIO
José Dirceu: o PTB reclama que ele recebeu mas
não pagou |
Há dois meses, a política brasileira
produziu uma cena insólita. Numa solenidade em São
Paulo, o presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson, com voz
emocionada e olhos lacrimejantes, anunciou seu apoio à reeleição
da prefeita Marta Suplicy. Em seu discurso, Jefferson explicou que
o apoio, sacramentado em encontro com o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, fazia parte de uma estratégia para ampliar
a aliança que une PTB e PT. O acordo previa o apoio dos petebistas
a candidatos do PT em cinco capitais. Jefferson, general da tropa
que tentou até o fim salvar Fernando Collor do impeachment,
revelou um inusitado desapego. Além de convencer seus comandados
em São Paulo a apoiar Marta Suplicy, ainda desagradou à
própria filha, então secretária do prefeito
Cesar Maia, do Rio de Janeiro, ao anunciar o apoio do PTB ao petista
Jorge Bittar. "Não vou lhe pedir nada, presidente, mas aceitarei
todos os convites que receber", disse Jefferson ao presidente Lula
no encontro que selou o acordo, conforme ele próprio divulgou.
Sabe-se agora que tudo o que se leu acima foi um jogo de cena.
Alan Marques/Folha Imagem
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| ÚLTIMA
HORA Jefferson, do PTB: irritação
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A história que vem a seguir mostra que,
por trás da aparente assepsia cívica de um acordo
político, PT e PTB fecharam um negócio de cerca de
10 milhões de reais, que começou a fazer água
por falta de dinheiro e, na semana passada, levou a uma rebelião
petebista em Brasília. Não se trata de um fato inédito,
num quadro político em que negociatas entre partidos
compra de votos, de mandatos, de consciências são
praticamente uma banalidade. O inusitado do caso de agora não
é quem está do lado vendedor do balcão, considerando-se
que o PTB construiu uma biografia política com caudalosos
capítulos comerciais. O espantoso é quem aparece do
lado comprador. Para esclarecer o episódio, VEJA cotejou
as versões relatadas pelo maior número possível
de pessoas. Ao todo, nove fontes contaram detalhes da história,
com a condição de que sua identidade não fosse
revelada: são seis parlamentares, dois servidores públicos
e um dirigente partidário sem mandato. Dos nove entrevistados,
três são ligados ao PTB, quatro vinculados ao PT e
dois trabalham no Palácio do Planalto. Todos confirmaram
que o acordo entre os dois partidos envolveu mais que interesses
políticos envolveu cargos federais, material de campanha
e dinheiro. O essencial dos depoimentos colhidos por VEJA permite
concluir que o acordo tinha os seguintes termos:
O PT se comprometia a fornecer cerca de 150.000
reais a cada deputado federal do PTB. Como o partido tem 52 deputados,
a conta ficaria em quase 8 milhões de reais. Os deputados
usariam o dinheiro para ajudar prefeitos e vereadores em seus redutos
eleitorais e assim ficariam bem com suas bases.
O PT se encarregava de dar cerca de 2 milhões de reais à
cúpula do PTB para aplicar nas campanhas que julgasse mais
estratégicas. Em princípio, o dinheiro iria para campanhas
como a de Joaquim Francisco, candidato a prefeito do Recife, e a
de Benito Gama, candidato em Salvador.
Fora o dinheiro, o PT ficou de fornecer material de campanha a candidatos
a prefeito e vereador do PTB. No Recife, por exemplo, o PTB ganharia
carros e aluguel dos comitês eleitorais. Em São Paulo,
os candidatos a vereador pelo partido ganhariam 1 milhão
de panfletos.
Entre os cargos negociados, o PTB ficaria com a superintendência
do INSS em São Paulo e Goiânia, cidades onde o partido
retirou seus candidatos do páreo em favor dos petistas. No
Rio, Cristiane Brasil, filha de Roberto Jefferson, indicaria um
diretor da Embratur, a estatal responsável pelo turismo.
Luis Antonio
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LONGE DE TODOS
Delúbio Soares, o tesoureiro do PT: notoriedade
afasta potenciais doadores |
O acordo foi negociado pelo deputado Roberto
Jefferson e pelo ministro José Dirceu, da Casa Civil. Os
10 milhões de reais viriam do caixa do próprio PT,
e não se tem notícia de que nenhum centavo estivesse
saindo dos cofres públicos. A idéia do governo era
transformar o PTB em seu principal aliado em Brasília e,
com mais tempo de TV, dar novo ímpeto às campanhas
do PT. A formalização do acordo ocorreu em meados
de junho, na sala de reuniões do 3º andar do Palácio
do Planalto. No encontro, além de Dirceu e Jefferson, estava
presente o presidente do PT, José Genoíno. É
público que o presidente Lula apareceu no final. Qualquer
acordo político dessa magnitude, para ter valor, precisa
contar com a chancela do presidente da República, mas não
há nenhum indício ou acusação, velada
ou não, de que Lula tivesse informação de que
a negociação, em seus meandros, envolvesse dinheiro.
O mais certo é que o presidente soubesse apenas da parte
saudável do acordo, tendo sido poupado dos detalhes pecuniários.
Eduardo Knapp/Folha Imagem
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NOVA REUNIÃO
José Genoíno, presidente do PT: encontro
com Jefferson marcado para esta semana |
"Selado o acordo, o Delúbio indicou
uma pessoa para o Palmieri procurar", diz um dos parlamentares ouvidos
por VEJA. Traduzindo: Delúbio Soares, tesoureiro do PT, indicou
um contato a Emerson Palmieri, tesoureiro do PTB. "Depois, o Palmieri
apareceu com a mala distribuindo o dinheiro." Ele se refere ao episódio
ocorrido em meados de julho, quando Palmieri esteve no Congresso,
instalou-se no gabinete de José Múcio, líder
do PTB, e chamou os deputados para entregar-lhes parte dos 150.000
reais. "A mala estava cheia", diz um deputado que recebeu parte
do dinheiro na ocasião. O problema é que, de lá
para cá, mais nada foi feito, e as fileiras do PTB começaram
a se agitar diante da falta de dinheiro e do atraso nas nomeações
para os cargos. As superintendências do INSS em São
Paulo e em Goiânia seguem nas mãos do PMDB. O PT fluminense
não entregou uma diretoria na Embratur à filha de
Jefferson. No Paraná, o PTB até hoje não recebeu
a prometida diretoria de Itaipu. O dinheiro também estancou.
Recentemente, Jefferson, impaciente com a bagunça, procurou
José Genoíno, presidente do PT. Saiu do encontro dizendo
ter ouvido que uma das razões do atraso do dinheiro seria
o excesso de exposição do tesoureiro petista, o que
estaria dificultando a arrecadação de recursos até
para campanhas do PT. Disse, ainda, ter ouvido uma oferta de que
parcelas atrasadas da cota de 150.000
reais dos deputados poderiam ser pagas em 24 de setembro. Jefferson
não gostou. Ele e Genoíno voltariam a conversar nesta
semana.
Ed Ferreira/AE
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A OPOSIÇÃO
Lula, no jantar com senadores da oposição
na semana passada: pouco resultado, muita gritaria |
Emerson Palmieri, o homem do dinheiro no PTB,
é antigo freqüentador de histórias heterodoxas
sobre finanças eleitorais. Paranaense, Palmieri ganhou notoriedade
em julho de 2002, quando seu nome apareceu no escândalo do
caixa dois da campanha do atual prefeito de Curitiba, o pefelista
Cassio Taniguchi. Na época, o jornal Folha de S.Paulo
descobriu que, na contabilidade paralela da campanha, Palmieri surgia
como beneficiário de 560.000 reais.
Nesse período, Palmieri era um dos coordenadores da campanha
presidencial de Ciro Gomes. Acabou perdendo o cargo. Foi substituído
por Walfrido dos Mares Guia. Os três personagens voltaram
a se encontrar sob o governo de Lula. Ciro Gomes virou ministro
da Integração Nacional. Mares Guia é ministro
do Turismo. Palmieri ganhou o posto de diretor de administração
e finanças da Embratur, estatal subordinada a Mares Guia.
A revolta do PTB com o descumprimento do acordo
chegou ao auge na semana passada, e um dos alvos era o ministro
José Dirceu. Na terça-feira, Jefferson tentou durante
todo o dia falar com o ministro, mas não conseguiu. Queria
dizer a ele que o PTB estava promovendo um motim na Câmara
dos Deputados ao obstruir as votações de interesse
do governo. Na quarta, porém, o líder do partido na
Câmara, José Múcio, deslocou-se até o
Palácio do Planalto para ser recebido por José Dirceu,
mas também não conseguiu. Irritado, saiu dizendo que
deixaria o cargo de líder e levaria o PTB para a oposição.
De volta ao Congresso, José Múcio juntou-se a Jefferson
e foram ambos ao gabinete do presidente da Câmara, o petista
João Paulo Cunha, verbalizar mais ameaças. Enquanto
isso, uns vinte deputados reuniam-se com Luiz Piauhylino, vice-presidente
da Câmara, para esboçar uma carta de racha do PTB com
o governo e o PT.
Vivendo a etapa mais abastada de sua história,
o PT nunca teve tanto dinheiro em caixa e, por isso, fica difícil
entender por que não cumpriu o acerto pecuniário com
o PTB. VEJA ouviu três dirigentes petistas e, pedindo também
para não ser identificados, eles apontaram algumas razões
para o descumprimento do trato. Uma delas, de fato, é a excessiva
exposição de Delúbio Soares, transformado em
suspeito número 1 num país que não esqueceu
o trauma de PC Farias no governo Collor. Com sua notoriedade, Delúbio
estaria afugentando doadores potenciais. Outro aspecto é
que, apesar da fartura de dinheiro, as campanhas petistas estão
mais difíceis do que se imaginava, levando o partido a gastar
mais que o previsto. É o caso de São Paulo, com Marta
Suplicy (veja reportagem na pág. 50), e Curitiba,
onde o petista Angelo Vanhoni foi alcançado por seu adversário
tucano, Beto Richa. "Não sei por que toda essa celeuma do
PTB. Está faltando dinheiro inclusive para as campanhas petistas",
diz um deputado do PTB, ao minimizar a revolta de seus correligionários.
Procurado por VEJA, o ministro José
Dirceu negou, através de sua assessora, Telma Feher, os termos
do acordo. O deputado Roberto Jefferson preferiu emitir uma nota,
dizendo que as divergências entre PT e PTB estão limitadas
a Pernambuco. "É um momento de recursos escassos, mas o PTB
está ciente de todos os seus compromissos", diz a nota. José
Genoíno negou que a contrapartida do acordo seja o pagamento
de aluguel, carros ou comitês, muito menos dinheiro vivo.
"Eu não mexo com esse tipo de assunto. No acordo que fiz
com o Roberto Jefferson, a condição é apoio
mútuo. Só isso." Emerson Palmieri, que formalmente
deixou a tesouraria do PTB, nega que tenha levado dinheiro aos correligionários.
"Estão me confundindo, quisera eu ter esse poder", disse.
Delúbio Soares, tesoureiro do PT, por meio de sua assessoria,
afirma que o acordo foi político, e não pecuniário.
O deputado José Múcio não se manifestou.
O estouro da crise PT-PTB ajuda a entender
o jantar da semana passada de Lula com nove senadores da oposição,
liderados por Antonio Carlos Magalhães, do PFL baiano. Refém
de uma base parlamentar tratada a emendas e cargos e moeda
sonante , Lula tenta ampliar seu leque de apoio aliciando
senadores no PFL e no PSDB. O jantar, no qual se serviu camarão
ao molho de maracujá e se bebeu vinho tinto, com Lula limitando-se
a goles de guaraná diet, transcorreu em clima de extrema
cordialidade e pouco resultado. O agrado aos senadores não
teve efeitos positivos no andamento das votações no
Congresso, mas gerou muita gritaria. Um deputado pefelista chegou
a protocolar pedido de expulsão de ACM do partido. O PSDB
estuda expulsar o tocantinense Eduardo Siqueira Campos, único
tucano no jantar. ACM saiu do convescote afirmando que recebeu a
garantia de Dirceu e Lula de que, se fundar um partido com dissidentes,
o governo se empenhará em mudar a lei eleitoral para facilitar
a vida da nova sigla. Bem, acordos com Dirceu e o PT não
estão muito em alta em Brasília, mas...
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