Edição 1872 . 22 de setembro de 2004

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Diogo Mainardi
Nós somos chefes de Lula

"Tenho tanto interesse por Lula quanto por
um fiscal do Porto de Santos. Minha implicância
é exclusivamente pública. Acho que os
brasileiros, por falta de experiência democrática, atribuem
uma importância exagerada ao presidente da República"

Lula é meu. Eu vi primeiro. Agora todo mundo quer tirar uma lasca dele. Até os jornalistas que sempre o apoiaram. Chamam-no de ignorante. Chamam-no de autoritário. Como assim? Lula tem dono. Só eu posso chamá-lo de ignorante e autoritário. O resto é roubo. Roubaram Lula de mim.

Falei tanto de Lula nos dois últimos anos que quase me sinto seu amigo. Como Roberto Teixeira, acusado de favorecer uma empresa que fraudava as prefeituras petistas. Ou Mauro Dutra, acusado de desviar verbas do programa Primeiro Emprego. Ou Francisco Baltazar, acusado de negociar com um doleiro. Ou Paulo Okamoto, acusado de montar o esquema de arrecadação paralela do PT e que, atualmente, comanda o Sebrae. Duvido que todas essas denúncias sejam verdadeiras. José Dirceu garantiu que os petistas não roubam. Ou melhor, ele garantiu que os petistas não "róbam", roubando, inadvertidamente, a língua portuguesa.

Quem melhor definiu Lula foi o próprio Lula. No ano passado, ele disse: "Não fui eleito presidente por méritos pessoais ou como resultado da minha inteligência". Eu, que sempre falei mal dele, fui obrigado a aplaudir. Na verdade, a frase aplica-se também a mim. Assim como Lula não foi eleito por méritos pessoais, nunca falei mal dele por motivos pessoais. Tenho tanto interesse por Lula quanto por um fiscal do Porto de Santos. Minha implicância é exclusivamente pública. Acho que os brasileiros, por falta de experiência democrática, atribuem uma importância exagerada ao presidente da República. Um presidente é só um burocrata medíocre que a gente contrata por quatro anos para desempenhar uma tarefa que nenhuma pessoa minimamente sensata estaria disposta a desempenhar. Ele não é nosso chefe: nós é que somos chefes dele.

Lula não entende isso. Tanto que mandou pendurar um crucifixo na parede de seu escritório. O nosso é um Estado laico. Pendurar um crucifixo no Palácio do Planalto é um abuso tão grande quanto pendurá-lo numa escola pública. O Conselho Federal de Jornalismo é um abuso muito maior. Lula quer aumentar seu controle sobre a imprensa. Clóvis Rossi, da Folha de S.Paulo, denunciou o projeto. O secretário de Imprensa de Lula, Ricardo Kotscho, respondeu comparando-o a Jim Jones, o fanático religioso que levou seus fiéis ao suicídio coletivo. A ameaça é clara: opor-se ao governo é um suicídio, e quem se atrever a seguir Clóvis Rossi acabará morto, junto com ele. Isso não é linguagem de governo: é linguagem de máfia. Kotscho sugere também que Clóvis Rossi, em vez de ficar sentado à escrivaninha, viaje pelo Brasil e mostre a seus leitores como o país está melhorando, por mérito de Lula. Ele até relaciona os assuntos sobre os quais os petistas desejariam ler: terras irrigadas pelo programa de agricultura familiar, fábricas onde há fartura de empregos e felizes beneficiados pelo Bolsa-Família. Ali Kamel, no Globo, mostrou que o Bolsa-Família não passa de uma esmola, porque o governo não controla a freqüência escolar dos filhos dos beneficiados. Não creio que fosse essa a abordagem que Kotscho tinha em mente.

Eu, por sorte, não corro risco nenhum. Lula já disse que nem sabe quem eu sou. Posso continuar a debochar dele. A liberdade de debochar de um presidente é tão importante quanto a de denunciar roubalheiras.

 
 
 
 
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