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Diogo
Mainardi
Nós somos chefes de Lula
"Tenho tanto interesse por Lula quanto
por
um fiscal do Porto de Santos. Minha implicância
é exclusivamente pública. Acho que os
brasileiros, por falta de experiência democrática,
atribuem
uma importância exagerada ao presidente da República"
Lula é meu. Eu vi primeiro. Agora todo
mundo quer tirar uma lasca dele. Até os jornalistas que sempre
o apoiaram. Chamam-no de ignorante. Chamam-no de autoritário.
Como assim? Lula tem dono. Só eu posso chamá-lo de
ignorante e autoritário. O resto é roubo. Roubaram
Lula de mim.
Falei tanto de Lula nos dois últimos
anos que quase me sinto seu amigo. Como Roberto Teixeira, acusado
de favorecer uma empresa que fraudava as prefeituras petistas. Ou
Mauro Dutra, acusado de desviar verbas do programa Primeiro Emprego.
Ou Francisco Baltazar, acusado de negociar com um doleiro. Ou Paulo
Okamoto, acusado de montar o esquema de arrecadação
paralela do PT e que, atualmente, comanda o Sebrae. Duvido que todas
essas denúncias sejam verdadeiras. José Dirceu garantiu
que os petistas não roubam. Ou melhor, ele garantiu que os
petistas não "róbam", roubando, inadvertidamente,
a língua portuguesa.
Quem melhor definiu Lula foi o próprio
Lula. No ano passado, ele disse: "Não fui eleito presidente
por méritos pessoais ou como resultado da minha inteligência".
Eu, que sempre falei mal dele, fui obrigado a aplaudir. Na verdade,
a frase aplica-se também a mim. Assim como Lula não
foi eleito por méritos pessoais, nunca falei mal dele por
motivos pessoais. Tenho tanto interesse por Lula quanto por um fiscal
do Porto de Santos. Minha implicância é exclusivamente
pública. Acho que os brasileiros, por falta de experiência
democrática, atribuem uma importância exagerada ao
presidente da República. Um presidente é só
um burocrata medíocre que a gente contrata por quatro anos
para desempenhar uma tarefa que nenhuma pessoa minimamente sensata
estaria disposta a desempenhar. Ele não é nosso chefe:
nós é que somos chefes dele.
Lula não entende isso. Tanto que mandou
pendurar um crucifixo na parede de seu escritório. O nosso
é um Estado laico. Pendurar um crucifixo no Palácio
do Planalto é um abuso tão grande quanto pendurá-lo
numa escola pública. O Conselho Federal de Jornalismo é
um abuso muito maior. Lula quer aumentar seu controle sobre a imprensa.
Clóvis Rossi, da Folha de S.Paulo, denunciou o projeto.
O secretário de Imprensa de Lula, Ricardo Kotscho, respondeu
comparando-o a Jim Jones, o fanático religioso que levou
seus fiéis ao suicídio coletivo. A ameaça é
clara: opor-se ao governo é um suicídio, e quem se
atrever a seguir Clóvis Rossi acabará morto, junto
com ele. Isso não é linguagem de governo: é
linguagem de máfia. Kotscho sugere também que Clóvis
Rossi, em vez de ficar sentado à escrivaninha, viaje pelo
Brasil e mostre a seus leitores como o país está melhorando,
por mérito de Lula. Ele até relaciona os assuntos
sobre os quais os petistas desejariam ler: terras irrigadas pelo
programa de agricultura familiar, fábricas onde há
fartura de empregos e felizes beneficiados pelo Bolsa-Família.
Ali Kamel, no Globo, mostrou que o Bolsa-Família não
passa de uma esmola, porque o governo não controla a freqüência
escolar dos filhos dos beneficiados. Não creio que fosse
essa a abordagem que Kotscho tinha em mente.
Eu, por sorte, não corro risco nenhum.
Lula já disse que nem sabe quem eu sou. Posso continuar a
debochar dele. A liberdade de debochar de um presidente é
tão importante quanto a de denunciar roubalheiras.
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