|
|
Entrevista: Roberto
DaMatta
As duas faces do PT
O antropólogo diz que parte do PT é
moderna,
mas a outra tem uma visão sindical do Brasil em
que o indivíduo é ignorado em favor do poder
de comitês, conselhos e outros coletivos

João Gabriel de Lima
|
Oscar Cabral

|
"O
PT aprendeu a lidar com a economia moderna. Ao mesmo tempo
tenta ressuscitar o ideário superado dos anos 50 e 60"
|
|
A vocação do antropólogo
Roberto DaMatta é explicar o Brasil. Ele fez isso em livros
que se tornaram clássicos, como Carnavais, Malandros e
Heróis, publicado pela primeira vez em 1978 e que já
está em sua 12ª edição. Faz isso ainda
em aulas, palestras e atividades de consultoria. Nos últimos
dezesseis anos, como professor na Universidade Notre Dame, no Estado
de Indiana, ele foi a mais constante e coerente fonte de informações
sobre o Brasil nos Estados Unidos. Nesse período, aprofundou
uma das linhas mestras de seu trabalho: a comparação
entre Brasil e EUA, dois países cuja semelhança de
origem não explica destinos tão díspares. Aos
68 anos, DaMatta vive um momento que define como "recomeço".
Ele acaba de se aposentar em Notre Dame para voltar a morar no Brasil,
mais precisamente em Niterói, a cidade onde nasceu. "Uma
das características fundamentais brasileiras é a teia
de relações familiares e de amizades que enreda as
pessoas", diz o antropólogo, que espera finalmente ter tempo
para os oito netos que seus três filhos lhe deram.
Veja Como o senhor avalia
o Brasil atual?
DaMatta O Brasil tem um governo petista com duas
faces muito distintas. Uma é liberal e moderna no trato das
finanças públicas. A outra face é autoritária.
O lado liberal aprendeu a lidar muito bem com a economia moderna,
impediu que o país quebrasse, estabilizou as forças
produtivas e está conseguindo ótimos resultados com
o aumento das exportações e a melhora de quase todos
os indicadores econômico-financeiros. Enquanto isso, o lado
autoritário ainda tenta ressuscitar um pensamento sociológico
dos anos 50 e 60, um ideário ultrapassado que lida com o
mundo em termos de categorias sindicais.
Veja Que ideário é
esse?
DaMatta No fundo, é um modelo que tenta, no
começo do século XXI, reproduzir a era Vargas. Aquele
foi um período de forte presença estatal na vida econômica
e social dos brasileiros. Sua revitalização nos tempos
atuais pelo PT no poder está criando complexidades que, cedo
ou tarde, vão minar o dinamismo da economia. Parte do PT,
como os ideólogos de Vargas, não enxerga o indivíduo.
A visão dos petistas que habitam a face atrasada do governo
anula o indivíduo e trabalha com o que o cientista político
Wanderley Guilherme dos Santos classificou de "cidadanias reguladas"
e que eu chamo de "cidadanias hierarquizadas".
Veja O que é isso,
exatamente?
DaMatta É a concepção de que
o poder das pessoas em uma sociedade deriva de sua capacidade de
organização. Isso é um tremendo retrocesso,
pois, em vez de um mundo habitado por pessoas de carne e osso, parte
do governo petista enxerga apenas os coletivos. Entende como a unidade
básica da vida social os sindicatos, as federações,
os conselhos e outras manifestações de corporativismo
que eles chamam de "formas de organização". São
essas organizações que mandam fazer aqueles bonezinhos
vermelhos que o presidente Lula freqüentemente exibe com seu
largo e cativante sorriso. Essa visão corporativista é
perigosa por dois motivos. Primeiro, porque ela é arcaica,
e se na era Vargas produziu algum avanço econômico
foi também a causa de muita instabilidade social. Segundo,
porque submeter a individualidade das pessoas aos grupos a que elas
pertencem é de um autoritarismo atroz. Ao contrário
do que imaginam muitos dos petistas, as pessoas não querem
pertencer a categoria nenhuma. Elas querem estudar, trabalhar, evoluir
e batalhar para ganhar seu dinheiro. Elas querem inventar coisas
novas e ser premiadas por isso. Querem ser empreendedoras, correr
risco, fazer sucesso e, se caírem, ter condições
de se levantar e tentar de novo. Um jornalista, um piloto de avião,
um engenheiro ou cirurgião quer ser reconhecido por seus
feitos, e não por ser diretor de algum sindicato, federação
ou conselho. O mundo moderno funciona assim. Parte do governo infelizmente
ainda não entendeu isso.
Veja Esses dois lados do
governo, o moderno e o autoritário, podem conviver por muito
tempo ou um acabará vencendo o outro?
DaMatta A gente sempre acha, inclusive e sobretudo
quem governa, que um vai vencer o outro. É o viés
do pensamento positivista que lê o mundo em termos de atraso
e progresso. Como eu vi e escrevi sobre a extinção
de pelo menos uma sociedade tribal brasileira, penso que sempre
esteve em curso no Brasil a tensão entre esses lados distintos.
No fim vencerá nosso mulatismo cultural. Em outras palavras,
essas características discordantes tendem a esgotar suas
energias de conflito e se acomodar de alguma maneira.
Veja Existem outros exemplos
históricos dessa coabitação entre o moderno
e o autoritário?
DaMatta Sem dúvida. Os casos japonês,
indiano e chinês são bons exemplos disso. O caso chileno
atual também.
Veja O deputado Fernando
Gabeira disse que vê no petismo governamental a tentação
de reproduzir aqui o modelo chinês: liberdade na economia
e autoritarismo político e cultural. Isso faz sentido?
DaMatta Tenho enorme respeito pelas intuições
de Gabeira, mas creio que a China é muito diferente do Brasil.
Ademais, nossa tradição de liberdade civil e política
é muito grande. Queiram ou não, nossa tradição
é americana, fundada nos mesmos ideais iluministas constituídos
na França e que ajudaram a erguer os Estados Unidos.
Veja Alguns analistas acham
que existem características a imunizar o Brasil contra experiências
autoritárias. A saber: nossa alma galhofeira, o fato de a
esquerda sempre se dividir e se boicotar e as próprias instituições
brasileiras, maduras o suficiente para não permitir aventureirismo.
O que o senhor pensa disso?
DaMatta Acima de tudo isso está nosso saudável
desconfiômetro, um salutar cinismo que determina até
onde podemos ir coletivamente, apesar da tentação
das "linhas duras". Isso funcionou no regime militar e vai funcionar
sempre que se tentar ultrapassar certos limites. No Brasil, a sociedade
é mais poderosa, mais generosa, mais sábia e mais
densa que o governo qualquer governo.
Veja A onda de patriotismo
turbinada pelo governo é positiva?
DaMatta Civismo tem muito a ver com bom senso. Tem
a ver com a idéia de que a sociedade deve operar com suas
forças, andar com suas pernas, pensar com sua cabeça.
A atual onda de patriotismo deve virar carnaval, diluir-se em um
oba-oba sem maiores conseqüências. Campanhas destinadas
a fazer aflorar nas pessoas o respeito pelo outro, o amor pelo Brasil
e pelo uso equilibrado da coisa pública são mais do
que válidas. Quando era oposição, o PT criticava
o Brasil ao ponto da flagelação. Os petistas chegaram
a defender inclusive que nada tínhamos a comemorar nos 500
anos da descoberta do país. O que o PT está fazendo
agora, como governo, é de certa forma recuperar o tempo perdido
e dizer, com exagero de neófito, que o Brasil vale a pena.
Veja O governo Lula é
acusado de ter exacerbado a burocracia. Isso é justo?
DaMatta Nossa tendência ao jurisdicismo
não deve ser imputada ao PT. Ela é histórica.
Na época da colônia, a elite brasileira toda estudou
em Coimbra. Afinal, fomos a capital do império português.
Talvez esteja aí a tendência de acharmos que a solução
para todos os problemas sociais é fazer leis que os contemplem
e corrijam. O lado bom disso é que aqui os conflitos se resolvem
de maneira mais civilizada que na América espanhola, onde
a violência sempre foi muito maior. No Brasil, mesmo na ditadura,
havia um aparato jurídico. Ter uma lei, ainda que tênue,
é melhor que ficar ao sabor do personalismo, como ocorre
em tantos países latino-americanos.
Veja No período da
ditadura, o historiador Sérgio Buarque de Holanda declarou,
certa vez, que não acreditava na redemocratização
porque a vocação do país era autoritária.
Hoje, o Brasil, com todos os percalços, é uma democracia.
Sérgio Buarque errou?
DaMatta Quando falava em vocação autoritária,
ele estava certo. A unidade política brasileira é
centrada nos poderosos, nos chefes políticos, e não
no cidadão. Os poderosos são aqueles que se arrogam
o direito de representar um grupo, um segmento de uma tribo ou uma
tribo inteira. Esse sujeito tenta não se submeter às
leis. Você lê todas as biografias dos grandes políticos
brasileiros e vê vários episódios em que eles
passaram por cima de leis. Isso configura uma vocação
autoritária, que persiste até hoje.
Veja De acordo com o abolicionista
Joaquim Nabuco, um de nossos principais erros foi não ter
adotado o modelo americano de educação das massas...
DaMatta Os republicanos brasileiros podiam ser
loucos, mas eles eram sinceros, queriam uma sociedade mais igualitária
e com maior liberdade. Mas eles realmente não se preocuparam
com a educação de massas. Veja outro dado curioso.
Onde nós criamos um sistema universal de educação,
feito pelo Estado, altamente eficiente? Foi na universidade, que
é destinada aos filhos dos ricos.
Veja Argentina e Chile conseguiram
educar as massas com mais competência. Onde erramos e eles
acertaram?
DaMatta Na Argentina havia uma população
mais homogênea. Os indígenas eram poucos e foram
liquidados. O mesmo ocorreu no Chile. Nós, ao contrário,
sempre fomos etnicamente heterogêneos. Uma coisa que chamava
a atenção dos viajantes ilustres que vinham para cá,
entre eles Charles Darwin, era o uso pouco freqüente da carroça.
Tudo era carregado no lombo pelos escravos. Essa é uma grande
diferença. Como fundar um sistema universal de educação
em uma sociedade em que não passa pela cabeça de quem
é branco botar o menino dele sentado ao lado do filho de
um escravo? Esse foi um problema enorme. O processo, porém,
tem seu lado bem brasileiro. Institucionalmente havia uma rígida
separação, mas informalmente meninos brancos e seus
escravos tendiam a ficar amigos. De um lado você tem o abismo
social; de outro, um conjunto de valores que permeia todas as classes,
apesar das diferenças. Isso é uma marca presente na
sociedade brasileira até os dias atuais.
Veja Quais são esses
denominadores comuns?
DaMatta São vários, mas eu gostaria
de destacar um, que ainda persiste fortemente: a enorme e absurda
dependência do Estado para quase tudo. O fato de que não
se move uma palha em nosso país sem ter uma firma reconhecida
em cartório ou entrar numa fila para obter um documento é
herança histórica. Com todas as mudanças, continuamos
a ser um país dependente de amanuenses, de letrados, de funcionários
que ainda devem aprender que estão ali para nos servir, e
não para se servirem. Essa maneira de encarar o Estado é
um elemento que se encontra igualmente distribuído no Brasil
entre pobres, ricos e remediados.
Veja O senhor dá muitas
palestras sobre o Brasil no exterior. Quais as maiores curiosidades?
DaMatta Até bem pouco tempo atrás
não se perguntava nada. Por muito tempo dei um curso sobre
o Brasil na Universidade Notre Dame, nos Estados Unidos, e ficava
desanimado porque o interesse era muito pequeno. Nos últimos
anos a demanda aumentou. A razão? O Brasil está se
tornando uma nação competitiva. O americano anda em
avião brasileiro, surpreende-se e quer saber mais sobre o
país. Na sociedade americana, o cidadão comum é
ligado no aspecto econômico. Ele sabe que a aposentadoria
depende do comportamento da bolsa de valores. Se ela cai, seus rendimentos
diminuem. Então, quando uma nação qualquer
começa a ser vista como uma economia organizada e moderna,
ela passa a chamar mais atenção.
Veja Apesar da nova imagem,
os estereótipos pelos quais o Brasil é conhecido lá
fora samba, Carnaval e futebol continuam valendo?
DaMatta Sim. Mas isso não é necessariamente
negativo. É melhor pertencer a uma coletividade que se lê
como sambista, carnavalesca e futebolística do que como um
país que se orgulha da guerra e da vingança contra
seus inimigos. Aliás, a força dessa imagem é,
hoje, curiosa. Pois ela se relaciona também a um país
que revela sua força nas exportações e no domínio
da alta tecnologia. O Brasil, assim, mostra que as coisas não
são mutuamente excludentes e que se pode casar samba com
aviões e produção agroindustrial de ponta com
Carnaval. Quanto ao futebol, ele é, agora, esporte de massa
e um produto de exportação com um valor altíssimo.
Vou falar com o coração, mas sinto que há uma
espécie de onda brasileira no mundo. Um sentimento de que
as coisas começam a se orquestrar positivamente no Brasil,
indo muito além das velhas imagens que sempre projetamos.
Veja Nem todas as imagens,
no entanto, são positivas. Cada vez mais o Brasil aparece
no exterior como destino de turismo sexual e prostituição
infantil.
DaMatta É verdade. Mas, para mim, o problema
não seria apenas o turismo sexual. No mundo acadêmico
e intelectual, em que reside minha experiência internacional
e americana, o grande problema da imagem do Brasil hoje é,
de longe, a violência urbana. Sobretudo em cidades como o
Rio de Janeiro, que foi símbolo de tudo o que era bom e belo
no país.
Veja A seu ver, a diplomacia
do governo Lula está se saindo bem?
DaMatta As visitas do presidente a países pobres
colocam Lula como um mediador de certo peso. Ele chama atenção
para o fato de que existem diferenças no planeta e se apresenta
como alguém que catalisa os problemas das nações
mais pobres. Isso, sem dúvida, faz do Brasil um país
mais simpático. O jogo de futebol entre a seleção
brasileira e a do Haiti foi uma belíssima invenção
que ajudou a diminuir as tensões, a projetar o Brasil como
uma nação promotora da paz. Enfim, foi um gol de placa
da nossa diplomacia.
|