A Ponte:
o desespero que leva os suicidas à Golden Gate,
em São Francisco
A Ponte(The
Bridge, Estados Unidos/Inglaterra,
2006. Estréia nesta sexta-feira em São Paulo
e no Rio de Janeiro) Calcula-se que 1.300 pessoas já
tenham se matado saltando da Golden Gate para a Baía
de São Francisco desde a abertura da ponte, em 1937.
Vinte e quatro delas se suicidaram durante o ano em que o
cineasta nova-iorquino Eric Steel passou estacionado sob a
ponte, com duas pequenas equipes de filmagem. Nesse seu documentário,
vêem-se seis dessas pessoas em seus últimos quatro
segundos de vida o tempo que levam desde que dão
o passo no vazio até atingir a corrente gelada e profunda
67 metros abaixo. Trata-se de um material chocante e polêmico,
tanto que festivais como Sundance e Cannes se recusaram a
exibir A Ponte em sua programação. Mas,
embora Steel caminhe sobre o fio de uma navalha, é
difícil acusá-lo de sensacionalismo: depois
de presenciar os suicídios (e de sempre alertar as
autoridades para o comportamento peculiar de pessoas que pareciam
predispostas a cometer tal ato), o diretor entrevistou parentes
e amigos das vítimas, buscando compreender, junto com
eles, o que as levara a esse momento extremo. São histórias
desoladoras de solidão, desespero e luta contra transtornos
mentais. No único depoimento de um sobrevivente (só
2% das pessoas que se jogam da Golden Gate não morrem),
confirma-se uma suspeita devastadora: a de que, como aconteceu
com esse rapaz, muitos dos suicidas se arrependem da decisão
quando provavelmente já é tarde demais. Veja
cenas.
DISCOS
Zamazu,
Roberto Fonseca (Biscoito Fino) O pianista cubano trabalhou
com dois importantes artistas do Buena Vista Social Club.
Foi diretor musical do cantor Ibrahim Ferrer (1927-2005) e
atua na banda de Omara Portuondo. Mas seu trabalho-solo é
mais abrangente. Zamazu é um diálogo
amigável entre Cuba, Estados Unidos e Brasil. O piano
de Fonseca traz influências de americanos como McCoy
Tyner que tocou no grupo do saxofonista John Coltrane
, enquanto suas composições mostram a
marca do afro-jazz cubano e da música brasileira. É
o que se percebe na canção Zamazamazu,
em que seu dedilhado jazzístico se mistura a uma batida
nordestina, e na faixa Dime que No, uma típica
guajira cubana. Outro destaque é Congo Arabe,
que tem um forte acento oriental.
Caprice,Alison Balsom (EMI)
Atração do Festival de Inverno de Campos
de Jordão, realizado no mês passado, essa trompetista
inglesa de 27 anos é uma das maiores promessas do mundo
erudito. Primeiro porque, nesse meio, é raro encontrar
trompetistas do sexo feminino em geral, elas dominam
instrumentos como violino, violoncelo e piano. Alison, além
disso, é uma intérprete primorosa, que possui
um timbre agradável e não cai na armadilha do
excesso de virtuosimo (seus solos são sempre na medida
certa). Caprice é uma coleção
de composições de vários períodos
da música erudita. Entre os melhores momentos estão
as leituras de Alison para Libertango e Milone,
duas músicas do argentino Astor Piazzolla.
LIVRO
Cosmos,de
Witold Gombrowicz (tradução de Tomasz Barcinski
e Carlos Alexandre Sá; Companhia das Letras; 192 páginas;
38,50 reais) Logo nas primeiras páginas de Cosmos,
o protagonista, caminhando pelo meio de um matagal, descobre
a cena de um crime, que será investigado ao longo do
romance, no arranjo clássico dos romances detetivescos.
Mas o polonês Witold Gombrowicz (1904-1969), mestre
em sátiras do mais desbragado nonsense, nunca foi de
seguir as fórmulas literárias. O enredo policial
de Cosmos não foge a esse figurino iconoclasta.
A vítima do crime é apenas um pardal
e o "assassino" usa um método bem pouco usual para
matar o passarinho: o enforcamento. A literatura de Gombrowicz
é muito divertida mas também esquisita.
Leia
trecho.
DVD
Divulgação
Noivas:
amor sob encomenda
Noivas (Nyfes,
Grécia, 2004. Europa) Em 1922, um navio segue
de Istambul para Nova York com uma "carga" curiosa: 700 noivas
de origens diversas, encomendadas por imigrantes que, radicados
nos Estados Unidos, desejam casar-se com conterrâneas,
as quais nunca viram nem mesmo em retratos. Uma delas é
Niki (Victoria Haralabidou), que tem a missão ingrata
de salvar a honra da família casando-se com o homem
do qual sua irmã fugiu. Duplamente ingrata, aliás,
já que durante a viagem Niki e um fotógrafo
americano (Damian Lewis) se apaixonam. Uma intriga sobre a
exploração de escravas brancas completa a trama.
Mas o forte é mesmo o romance, sublinhado por imagens
belas como a das centenas de moças, em seus vestidos
brancos e véus, à espera de serem fotografadas.
OS
MAIS VENDIDOS
CRÍTICA
D.
Pedro II: monarca tímido, que preferia a
arte ao poder
A julgar pelo desempenho
em livrarias, dom Pedro II é mais popular do
que seu pai. D. Pedro II (Companhia das
Letras; 276 páginas; 37 reais), do historiador
José Murilo de Carvalho, professor da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, já freqüenta
os mais vendidos há catorze semanas. D. Pedro
I, de Isabel Lustosa, publicado na mesma coleção
de biografias breves Perfis Brasileiros ,
apareceu apenas uma vez na lista. Governante mais duradouro
da história brasileira foi imperador por
quase meio século, de 1840 a 1889 , dom
Pedro II é de fato um personagem fascinante,
por causa de sua ambivalência fundamental: criado
por tutores para ser o governante perfeito, nunca desenvolveu
o gosto pelo poder. Nas suas viagens, preferia o encontro
com cientistas ou artistas como o compositor Richard
Wagner aos compromissos de estado. Fisicamente imponente,
com sua barba branca precoce e seu 1,90 metro de altura,
o imperador era no entanto tímido, quadro psicológico
agravado pelos distúrbios de saúde (era
epilético) e pela voz fina, pouco impositiva.
Abalado por conflitos internos (a Revolução
Farroupilha) e externos (a Guerra do Paraguai), o Segundo
Império foi ainda assim um período de
relativa estabilidade política, no qual a imprensa
conheceu uma liberdade quase irrestrita. Mas o país
ainda carregava a mancha moral da escravidão,
e o imperador de convicções iluministas
mostrou-se tímido também no seu apoio
ao abolicionismo. D. Pedro II é um retrato
generoso de um monarca melancólico. Leia
trecho.