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Ponto
de vista: Claudio
de Moura Castro
Satanás apostilado?
"Há claros
indícios de que os apostiladores criaram uma solução
brasileira de grandes
méritos e originalidade para a educação"
Segundo conhecido
educador, os "apostiladores" "embaralham-se numa sucessão
de ecos sem fim e sem propósito (...) envoltos pela
aura clássica da memorização/reprodução
(...) de modo que não reste tempo hábil para
o vago e moroso trabalho do pensamento (...)". Quem seriam
esses mercadores sinistros, que oferecem à juventude
um ensino no qual se decora, em vez de pensar? Na realidade,
são apenas escolas bem-sucedidas que, a partir de certo
momento, passaram a ofertar a outras instituições
um conjunto de serviços educacionais desenvolvidos
para si próprias. Tornaram-se operadoras de grandes
redes de escolas associadas (em uma das quais o autor trabalha).
Mais de 1,7 milhão de alunos estão em instituições
privadas ligadas a uma dessas redes (Anglo, COC, Objetivo,
Pitágoras, Positivo, UNO e outras).
Ilustração
Atômica Studio
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Por que as escolas desejariam pertencer às redes dos
"apostiladores", tão duramente acusados? Uma hipótese
persuasiva é que as redes operariam como uma secretaria
de educação, cuja missão é apoiar
escolas. Preenchem um vácuo. Vejamos:
Estruturação
do ensino. Pelas pesquisas, quanto mais planejado o ensino,
mais os alunos aprendem. Passo a passo, os livros das redes
oferecem teoria, aplicação, exercícios
e provas. Essa ajuda permite ao professor sair da decoreba
e botar a cabeça dos estudantes para funcionar. E,
quanto mais o livro facilita a vida do professor, mais ele
pode se dedicar àquelas dimensões artesanais
e afetivas, tão críticas para o aprendizado.
Integração
curricular. Como oferecem coleções completas,
um livro fala com o outro, integrando diferentes partes do
currículo.
Formação
de professores. O que mais atrai as escolas associadas
é a preparação de seus professores. Eles
aprendem conteúdos, a melhor forma de ensinar e o uso
eficiente dos livros. Considerando a fragilidade dos cursos
de formação de professores, é um apoio
expressivo para o ensino.
Janela para
o mundo. A rede rompe o isolamento e revitaliza as escolas,
oferecendo-lhes uma chance única de tomar contato com
novas idéias e conhecer as melhores práticas
escolares.
Avaliação
do ensino. As redes avaliam o desempenho de professores
e alunos das escolas associadas e colaboram nos projetos para
melhorar o ensino.
Serão tais
serviços relevantes para a qualidade da educação?
Ou as redes são arautos da "compartimentalização
dos informes conteudistas"? Se acreditamos em ciência,
a resposta está na evidência tangível.
Pelos dados de uma das redes, 60% das escolas associadas encontram-se
dentre as três melhores de suas cidades na prova do
Enem. Essa rede exibe médias superiores às do
restante da rede privada já amplamente superiores
às públicas. Tais resultados demonstram ser
infundada a queixa de que as "apostilas" não dão
uma verdadeira educação, já que o Enem
mede raciocínio, e não decoreba. A escola da
Embraer usa as satânicas apostilas e só aceita
alunos da rede pública. Como é possível
ser a terceira melhor escola do estado de São Paulo?
Se as redes atendessem
às escolas públicas, os benefícios deveriam
ser ainda maiores, pois grande parte das instituições
de ensino e dos professores vive desgarrada e sem apoio técnico
das secretarias. A idéia é atraente. Mas há
um empecilho. As redes são financiadas pela venda de
suas coleções de livros. Como os alunos de escolas
públicas recebem do MEC seus livros, poucos municípios
ou escolas se dispõem a arcar com o custo cobrado pelas
redes para adquirir as coleções. Contudo, no
caso do governo de São Paulo, é também
facultado receber os recursos diretamente, em vez de livros.
Na época da Prova Brasil, São Paulo tinha 635
municípios. Uma rede vendia seus livros e serviços
a 46 deles. Segundo o índice de qualidade da educação
do MEC (o Ideb), dentre os dez municípios paulistas
com notas mais altas, cinco eram apoiados por essa rede (e
um por outra rede). Ou seja, os municípios que entraram
nas redes aumentaram dramaticamente sua chance de estar dentre
os melhores. Portanto, há claros indícios de
que os apostiladores criaram uma solução brasileira
de grandes méritos e originalidade. Inovação
única no mundo, já se cogita a sua exportação.
Claudio de Moura Castro é
economista (Claudio&Moura&Castro@attglobal.net)
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