Ensaio:Roberto Pompeu de Toledo "O Brasil é isso
mesmo que está aí"
O terrível
parecer, de alguém que conhece o assunto, reforça
uma sensação que paira no ar
Os distraídos
talvez ainda não tenham percebido, mas o Brasil acabou.
Sinais disso foram se acumulando, nos últimos meses:
a falência do Congresso e de outras instituições,
a inoperância do governo, a crise aérea, o geral
desarranjo da infra-estrutura. A esses fatores, evidenciados
por acontecimentos recentes, somam-se outros, crônicos,
como a escola que não ensina, os hospitais que não
curam, a polícia que não policia, a Justiça
que não faz justiça, a violência, a corrupção,
a miséria, as desigualdades. Se alguma dúvida
restasse, ela se desfaz no parecer autorizado como poucos
de um Fernando Henrique Cardoso, cujas credenciais somam oito
anos de exercício da Presidência da República
a mais de meio século de estudo do Brasil. "Que ninguém
se engane: o Brasil é isso mesmo que está aí",
declara ele, numa reportagem de João Moreira Salles
na revista Piauí.
Ora, direis, como
afirmar que o Brasil acabou? Certo perdeste o senso, pois,
se estamos todos ainda morando, comendo, dormindo, pagando
as contas, indo às compras, nos divertindo, sofrendo,
amando e nos exasperando num lugar chamado Brasil, é
porque ele ainda existe. Eu vos direi, no entanto, que, quando
acaba a esperança, junto com ela acaba a coisa à
qual a esperança se destinava. É à esperança
no Brasil que o sociólogo-presidente se refere. Para
ele, o Brasil jamais conhecerá um crescimento como
o da China ou o da Índia. "Continuaremos nessa falta
de entusiasmo, nesse desânimo", diz. O prognóstico
é tão mais terrível quanto coincide com
e reforça o sentimento que ultimamente
tomou conta mesmo de quem não é sociólogo
nem nunca conheceu por experiência própria os
mecanismos de governo e de poder.
O Brasil que "é
isso mesmo" é o das adolescentes grávidas e
dos adolescentes a serviço do tráfico, das mães
que tocam lares sem marido, das religiões que tomam
dinheiro dos fiéis, dos recordes mundiais de assassinatos
e de mortos em acidentes automobilísticos, dos presos
que comandam de suas células o crime organizado, dos
trabalhadores que gastam três horas para ir e três
horas para voltar do trabalho, das cidades sujas, das ruas
esburacadas.
Procura-se o governo
e... não há governo. Há muito que nem
o presidente, nem os governadores, nem os prefeitos mandam.
Quem manda é a trindade formada pelas corporações,
máfias e cartéis. Não há governo
que se imponha a corporações como a dos policiais,
ou a dos professores, ou a dos funcionários das estatais.
Não há o que vença as máfias dos
políticos craques em arrancar para seus apaniguados
cargos em que possam distribuir favores e roubar. Para enfrentar
ou, humildemente, tentar enfrentar cartéis
como o das companhias aéreas, só em época
em que elas estão fragilizadas, como agora. Às
vezes os cartéis se aliam às máfias,
em outras se transmudam nelas. Em outras ainda são
as corporações que, quando não se aliam,
se transformam em máfias. Em todos os casos, o interesse
público, em tese corporificado pelos governos, não
é forte o bastante para dobrar os fragmentados interesses
privados.
A tais males soma-se
o cinismo. Não há outra palavra para descrever
o projeto, supostamente de fidelidade partidária, aprovado
na semana passada na Câmara. O projeto, muito ao contrário
de punir ou coibir os trânsfugas, perdoa-lhes o passado
e garante-lhes o futuro. Quanto ao passado, estão anistiados
os parlamentares que trocaram de partido e que por isso, no
entendimento do Tribunal Superior Eleitoral, deveriam perder
o mandato. No que concerne ao futuro, o projeto estabelece
que a cada quatro anos os parlamentares terão folga
de um mês na regra da fidelidade partidária,
pois ninguém é de ferro, e estarão abertos
a negócios e oportunidades. Estamos diante de uma das
mais originais contribuições da imaginação
brasileira ao repertório universal de regras político-eleitorais.
Para concorrer a uma eleição, o candidato deve
estar filiado a um partido há pelo menos um ano. Mas,
segundo o projeto, no mês que antecede a esse ano de
jejum o candidato pode trocar o partido pelo qual foi eleito
por outro. Como a eleição é sempre em
outubro, esse mês será o setembro do ano anterior.
Eis o Carnaval transferido para setembro. O projeto é
uma esposa compreensiva que, no Carnaval, libera o marido
para a gandaia.
FHC não
era tão descrente. No parágrafo final do livro
A Arte da Política, em que rememora os anos
de Presidência, escreveu: "Se houve no passado recente
quem empunhasse a bandeira das reformas, da democracia e do
progresso, não faltará quem possa olhar para
a frente e levar adiante as transformações necessárias
para restabelecer a confiança em nós mesmos
e no futuro desse grande país". Na reportagem da revista
Piauí, ele não poupa nem seu próprio
governo: "No meu governo, universalizamos o acesso à
escola, mas pra quê? O que se ensina ali é um
desastre". Pálidos de espanto, como no soneto de Bilac,
assistimos à desintegração da esperança
na pátria, o que equivale a dizer que é a pátria
mesma que se desintegra aos nossos olhos.