Ali Kamel, diretor executivo de jornalismo da Rede Globo,
tornou-se um especialista em dinamitação de
lugares-comuns e idéias fora do lugar. Para tanto,
conta com rigor e aplicação vários metros
acima dos níveis habituais dos ensaístas destas
plagas. Ele também exibe bastante destemor em seus
bons combates. No asilo de conceitos que é o Brasil,
há que ter couraça das mais duras (e estômago
dos mais fortes), para agüentar os golpes desferidos
pelos velhos patrulheiros da imprensa e da universidade
golpes sempre vindos da esquerda e, portanto, abaixo da linha
da cintura. Há um ano, Kamel lançou o livro
Não Somos Racistas, no qual demonstra que as
"ações afirmativas" para favorecer os negros,
como o regime de cotas nas faculdades, são de uma irracionalidade
tonitruante para uma questão não existente no
país o racismo de matiz americano. O problema
nacional, enfatiza Kamel, não é racismo, mas
pobreza que não diferencia milhões de
negros de milhões de brancos e de milhões de
pardos. Apesar da patrulha, Não Somos Racistas
entrou na lista de mais vendidos de VEJA e conseguiu abrir
um enorme buraco no monólito conceitual que domina
a discussão sobre o assunto no Brasil. Agora, seu autor
lança-se a um outro desafio, com o perdão da
palavra batida: provar que o islamismo não é
uma religião violenta em sua essência (não
mais do que o judaísmo e o cristianismo, pelo menos).
E que quanta intrepidez a guerra travada no
Iraque não é tão absurda como faz crer
a maioria dos comentaristas. Tais são os temas de Sobre
o Islã A Afinidade entre Muçulmanos,
Judeus e Cristãos e as Origens do Terrorismo (Nova
Fronteira; 320 páginas; 34,90 reais).
Como revela em
parte seu próprio nome, Kamel tem um pé no enredo
religioso que aborda não só com desassombro,
mas também com didatismo. Seu pai é sírio
e muçulmano. Pelo lado materno, as raízes são
brasileiras e católicas. Sua mulher é
de origem judaica. "Eu acredito que minha história
familiar me possibilita um olhar especial sobre as três
religiões monoteístas", escreve ele. O livro
começa com o relato pormenorizado de um encontro, registrado
em vídeo, de Osama bin Laden e asseclas com um chefe
muçulmano que havia chegado ao Afeganistão em
novembro de 2001. Na conversa, eles comemoram os atentados
nos Estados Unidos e tecem loas a Deus por ter propiciado
a carnificina. Alguns dos terroristas falam das supostas visões
antecipatórias que tiveram sobre o que consideram ser
uma bênção divina. "Como podem envolver
Deus nisso? Que processo leva essas pessoas a criar, a partir
de uma religião que se quer pacífica, um dos
movimentos políticos mais violentos que o mundo já
viu, uma das maiores ameaças ao nosso estilo de vida,
às liberdades essenciais do ser humano?", pergunta-se
o autor, extravasando uma perplexidade que está longe
de ser geral, visto que se disseminou no Ocidente um juízo
negativo a respeito do Islã.
Para separar o
que é dado religioso daquilo que não passa de
interpretação indevida ou apropriação
indébita, Kamel empreende uma tarefa hercúlea.
Seu objetivo expresso e plenamente alcançado
é o de demonstrar como o islamismo, em que pesem
suas vestes exóticas aos olhos ocidentais, baseia-se
nos mesmos pilares do judaísmo e do cristianismo. Nessa
direção, ele se aprofunda na gênese comum
das três religiões, por meio da comparação
entre passagens da Bíblia e do Corão
que narram a vida de personagens fundadores, como Noé,
Abraão, Isaac, Ismael e José, até chegar
a Jesus. No que se refere a este último, uma curiosidade
na visão dos muçulmanos, ele não
é filho de Deus, e sim um profeta maior do que todos
os outros. Tanto que, como relata Kamel, "o Islã não
aceita a sua crucificação: tudo não teria
passado de uma ilusão, já que Jesus teria subido
aos céus em seu corpo físico. Seus algozes teriam
sido iludidos, viram uma crucificação que nunca
houve. Jesus, portanto, não morreu, mais um milagre
que Deus concedeu a ele". No final dos tempos, porém,
acreditam os islamitas, Jesus voltará à Terra,
para derrotar o Anticristo e governar o mundo por 45 anos.
Em sua segunda vinda, ele se casará, gerará
filhos e morrerá normalmente.
Para os leigos,
é surpreendente a figura de Maomé que emerge
da síntese do Corão feita por Kamel.
Do profeta iniciador do islamismo pode-se dizer que foi humano,
demasiado humano. Teve uma infância cheia de dificuldades,
permaneceu analfabeto até cerca de 40 anos, quando
foi visitado pelo arcanjo Gabriel, e suas primeiras visões
causaram-lhe angústia. Uma vez imbuído da missão
de levar adiante a palavra do Deus único (ou Revelação),
experimentou grande resistência para convencer seu povo
a abandonar o politeísmo. Em visita ao Paraíso
sim, de acordo com a tradição, ele esteve
lá quando vivo , chegou a negociar com Deus o
número de orações diárias a ser
feitas pelos muçulmanos, por orientação
de um judeu: ninguém menos do que Moisés (veja
trecho). Maomé também jamais teve controle
algum sobre os versículos que lhe eram soprados por
Gabriel e viriam a compor o Corão, cuja forma
escrita só seria consolidada depois da morte do profeta.
Não há registro de que tenha operado milagres.
Afirma Kamel: "O certo é que Maomé, ao longo
de sua vida, nunca escondeu que era um homem como outro qualquer
e, dizem as tradições, gostava de lembrar aos
fiéis o que dele dizia o Corão: Maomé
não é mais do que um Mensageiro a quem outros
precederam".
Esse simples mensageiro
deixou uma família dividida, que se digladiaria em
torno da sucessão de Maomé e da qual o islamismo,
por seu turno, herdaria as vertentes sunita e xiita. A diferença
entre ambas, explicada em detalhes por Kamel, é basicamente
a seguinte: para os sunitas, o profeta não indicou
sucessor, a Revelação encontrou o seu termo
com a morte de Maomé e só o que há a
fazer é seguir a Suna, os mandamentos legados pelo
profeta. Para os xiitas, Maomé foi sucedido por um
primo, Ali, o primeiro imã (ou guia espiritual), e
a Revelação ainda guarda aspectos ocultos, a
ser desvendados por outros imãs. A palavra xiita
vem do árabe shi' at'Ali, cujo significado é
"partidários de Ali". Da dissensão entre sunitas
e xiitas nasceria grande parte das animosidades que explodem
no interior do Islã e também de dentro dele
em relação ao exterior cujo lado mais
apavorante é o terrorismo.
Apesar da divisão
interna do Islã, Kamel explica que a concepção
de que se trata de uma religião movida pelo ódio
é fruto da ignorância ocidental e do despotismo
de seguidores seus que compõem uma minoria. Há
mensagens de violência no Corão? Sim,
mas também há na Bíblia judaico-cristã.
Boa parte da expansão muçulmana foi realizada
pela força da espada? Sim, mas tanto quanto a cristã.
Seus mandamentos e prescrições são por
vezes contraditórios? Sim, mas qual religião
não embute contradições? Para o autor,
o que importa é que, deixando de lado certas vicissitudes,
o Islã no mais das vezes teve e tem como
regra a boa convivência com as outras religiões.
Diz Kamel, depois de citar versículos do Corão
simpáticos ao judaísmo e ao cristianismo: "Não
tenho muitas dúvidas de que, ao longo da maior parte
de sua história, a ênfase na repulsa a judeus
e cristãos sempre foi bem menos intensa do que a ênfase
no acolhimento".
Nos capítulos
derradeiros do livro, Kamel defende a tese segundo a qual
chamar os radicais islâmicos de fundamentalistas é
um equívoco que os "enobrece" do ponto de vista religioso.
Na realidade, eles seriam apenas totalitários políticos
mais próximos, assim, de um Hitler do que de
um Jim Jones, na comparação do autor. É
por combater esse totalitarismo que a guerra no Iraque seria,
mais do que circunstancialmente necessária, moralmente
justa. Inclusive para a sobrevivência do próprio
Islã. Maomé e Bush do mesmo lado, quem diria.
A lógica da máquina do mundo pode ser infernal.
E a coragem de Kamel, assim como Alá, é grande.
ALÁ FEZ UM ABATIMENTO
"Por
fim, ouviu a voz de Deus, que o mandou de volta com
a ordem de instruir seus seguidores a rezar cinqüenta
vezes ao dia. Ao começar seu caminho de volta,
Moisés perguntou-lhe o que lhe fora ordenado,
e Maomé respondeu: 'Orar cinqüenta vezes
ao dia'. Moisés então lhe disse que o
seu povo seria incapaz de cumprir o mandamento. 'Eu
tentei com o meu povo e não consegui. Volte ao
Senhor e lhe peça que alivie o seu povo dessa
obrigação.' Maomé aceitou o conselho,
voltou a Deus, que o liberou de dez orações.
Mas, ao passar por Moisés, Maomé ouviu
novamente o conselho de Moisés: 'Volte lá
e peça nova redução. Eu tentei
com meu povo e não consegui'. Isso se repetiu
outras tantas vezes, até que Maomé voltou
e disse: 'Meu Senhor manda que meu povo ore cinco vezes
ao dia.' Moisés tornou a insistir que o fardo
seria grande, mas Maomé se recusou a voltar,
alegando ter vergonha de perturbar Deus novamente. 'Estou
satisfeito e resignado.' E assim, segundo a tradição,
ficou estabelecido um dos pilares do islamismo: as cinco
orações diárias."