Condenável
no cotidiano, a crueldade pode ser uma virtude literária.
Ela é a grande qualidade de O Filho Eterno (Record;
224 páginas; 34 reais), recém-lançado
romance do catarinense Cristovão Tezza, de 55 anos.
Francamente autobiográfico, o livro reconstitui o relacionamento
de um escritor com seu filho deficiente. As limitações
físicas e intelectuais de uma criança com síndrome
de Down são descritas com objetividade clínica.
Com um foco obsessivo nas percepções do pai,
a narrativa explora os sentimentos mais mesquinhos desse alter
ego de Tezza: a vergonha, o ressentimento que ele tantas vezes
nutre em relação ao filho e até
o consolo vil que encontra fantasiando a morte da criança.
"O personagem é uma versão exacerbada de mim
mesmo. Não sou esse monstro", disse Tezza a VEJA.
Carol
do Valle
Cristovão Tezza: o filho
com síndrome de Down enterrou a utopia hippie
Radicado em Curitiba, Tezza construiu discretamente uma das
mais consistentes carreiras de escritor do Brasil atual, com
catorze livros de ficção publicados desde 1979.
O projeto de escrever sobre sua experiência como pai
de uma criança Down era acalentado desde o nascimento
de Felipe, hoje com 25 anos. Juventude, romance autobiográfico
de J.M. Coetzee, foi uma inspiração importante,
quase uma revelação para Tezza: o Nobel sul-africano
adotou uma narrativa fria e seca, em terceira pessoa, para
falar das próprias experiências como escritor
iniciante. O Filho Eterno mantém um tom similar.
O momento em que os médicos revelam a condição
do filho aos pais, os torturantes exercícios de estimulação
a que o menino Down é submetido, o conflito do pai
com a diretora de escola que não quer mais acolher
a criança "especial" todas essas cenas são
narradas com um desencanto duro. A brutalidade das palavras,
aliás, é um tema forte: nos anos 80, quando
Felipe nasceu, os portadores da síndrome de Down ainda
eram chamados de "mongolóides". Mas o romance também
alcança uma delicadeza ímpar, ao retratar o
progressivo envolvimento do pai literato com o filho que nunca
aprendeu a ler.
Em
paralelo à relação com o filho, Tezza
reconstitui sua formação literária. O
personagem do escritor fracassado, meio marginal, já
tinha suas ilusões desmontadas em livros anteriores
como Trapo e O Fantasma da Infância (ambos
relançados agora pela Record). Em O Filho
Eterno, o menino que não entende abstrações
temporais simples como "semana que vem" dá uma espécie
de choque de realidade no pai meio hippie, que trazia dos
anos 70 a pretensão de ser um artista "contra o sistema".
As páginas finais flagram pai e filho assistindo a
um jogo do Atlético Paranaense na televisão.
Um fugaz momento de felicidade doméstica que nenhuma
utopia pode superar.
A vergonha amorosa
"Ali está
o pai com o filho idiota diante da fonoaudióloga.
Quase esquece que também tem uma filha normal
mas crianças normais só precisam
de água, que elas vão crescendo como couves.
(...) A criança não se concentra muito,
diz a fonoaudióloga, e ele se afasta dali quase
arrastando o filho, e no corredor sente o olhar agudo
dos outros para o pai que leva aos trancos uma pequena
vergonha nas mãos, incapaz de repetir duas ou
três palavras numa sentença simples. (E
no entanto a criança abraça-o com uma
entrega física quase absoluta, como quem se larga
nas mãos da natureza e fecha os olhos.)"