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22 de agosto de 2007
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Pai anti-herói

Um belo – e áspero – romance autobiográfico
sobre a relação do autor com o filho deficiente


Jerônimo Teixeira

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Trecho do livro

Condenável no cotidiano, a crueldade pode ser uma virtude literária. Ela é a grande qualidade de O Filho Eterno (Record; 224 páginas; 34 reais), recém-lançado romance do catarinense Cristovão Tezza, de 55 anos. Francamente autobiográfico, o livro reconstitui o relacionamento de um escritor com seu filho deficiente. As limitações físicas e intelectuais de uma criança com síndrome de Down são descritas com objetividade clínica. Com um foco obsessivo nas percepções do pai, a narrativa explora os sentimentos mais mesquinhos desse alter ego de Tezza: a vergonha, o ressentimento que ele tantas vezes nutre em relação ao filho – e até o consolo vil que encontra fantasiando a morte da criança. "O personagem é uma versão exacerbada de mim mesmo. Não sou esse monstro", disse Tezza a VEJA.

Carol do Valle
Cristovão Tezza: o filho com síndrome de Down enterrou a utopia hippie


Radicado em Curitiba, Tezza construiu discretamente uma das mais consistentes carreiras de escritor do Brasil atual, com catorze livros de ficção publicados desde 1979. O projeto de escrever sobre sua experiência como pai de uma criança Down era acalentado desde o nascimento de Felipe, hoje com 25 anos. Juventude, romance autobiográfico de J.M. Coetzee, foi uma inspiração importante, quase uma revelação para Tezza: o Nobel sul-africano adotou uma narrativa fria e seca, em terceira pessoa, para falar das próprias experiências como escritor iniciante. O Filho Eterno mantém um tom similar. O momento em que os médicos revelam a condição do filho aos pais, os torturantes exercícios de estimulação a que o menino Down é submetido, o conflito do pai com a diretora de escola que não quer mais acolher a criança "especial" – todas essas cenas são narradas com um desencanto duro. A brutalidade das palavras, aliás, é um tema forte: nos anos 80, quando Felipe nasceu, os portadores da síndrome de Down ainda eram chamados de "mongolóides". Mas o romance também alcança uma delicadeza ímpar, ao retratar o progressivo envolvimento do pai literato com o filho que nunca aprendeu a ler.

Em paralelo à relação com o filho, Tezza reconstitui sua formação literária. O personagem do escritor fracassado, meio marginal, já tinha suas ilusões desmontadas em livros anteriores como Trapo e O Fantasma da Infância (ambos relançados agora pela Record). Em O Filho Eterno, o menino que não entende abstrações temporais simples como "semana que vem" dá uma espécie de choque de realidade no pai meio hippie, que trazia dos anos 70 a pretensão de ser um artista "contra o sistema". As páginas finais flagram pai e filho assistindo a um jogo do Atlético Paranaense na televisão. Um fugaz momento de felicidade doméstica que nenhuma utopia pode superar.



A vergonha amorosa

"Ali está o pai com o filho idiota diante da fonoaudióloga. Quase esquece que também tem uma filha normal – mas crianças normais só precisam de água, que elas vão crescendo como couves. (...) A criança não se concentra muito, diz a fonoaudióloga, e ele se afasta dali quase arrastando o filho, e no corredor sente o olhar agudo dos outros para o pai que leva aos trancos uma pequena vergonha nas mãos, incapaz de repetir duas ou três palavras numa sentença simples. (E no entanto a criança abraça-o com uma entrega física quase absoluta, como quem se larga nas mãos da natureza e fecha os olhos.)"

Trecho de O Filho Eterno

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