Perto de completar
100 anos, o samba ressurge como um gênero dominante
na música brasileira. O movimento começou há
cerca de uma década, quando o bairro da Lapa, reduto
tradicional da boemia carioca, passou a atrair, com seus bares
de música ao vivo, um público jovem de classe
média. "Era o que nós chamávamos de turma
do chinelinho, uma rapaziada barbuda e com pouco dinheiro
no bolso que ia nos ver para curtir sambas antigos", diz o
cantor Pedro Miranda, que se apresenta num dos espaços
pioneiros. Dali, a cena se estendeu para São Paulo,
Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre. Nas casas
especializadas dessas cidades, desenvolveu-se um habitat semelhante
ao da Lapa: garotos de classe média com visual de roqueiro
e ginga de sambista. O fenômeno cresceu de tal
forma que chegou ao mercado de discos. Os cariocas Teresa
Cristina e Diogo Nogueira e o grupo paulistano Quinteto em
Branco e Preto são crias do circuito do samba que acabam
de assinar contrato com grandes gravadoras. Em paralelo, cantoras
em ascensão como Mariana Aydar ou Roberta Sá,
que não são propriamente sambistas, incluem
sambas em seu repertório por gosto, mas também
por terem consciência do seu poder de atração.
Nisso elas se espelham em Marisa Monte, que há um bom
tempo defende a causa, a ponto de haver lançado, por
seu próprio selo, coletâneas da velha-guarda
da Portela.
O samba nasceu
em 1917, quando Donga e Mauro de Almeida compuseram Pelo
Telefone. Do ponto de vista formal, era uma canção
estranha, próxima do maxixe, que chegou a ser descrita
até como tango. Mas, gravada em disco, registrada na
Biblioteca Nacional e transformada em sucesso numa bem urdida
campanha de divulgação, Pelo Telefone se
tornou o marco zero de um novo gênero, que logo ocupou
um espaço cultural único. Lá estava um
tipo de música em que o Brasil marginal e o Brasil
oficial, o do morro e o da gravadora, o dos malandros e o
da classe média, se amalgamavam de maneira inédita.
Nas duas décadas seguintes, o samba foi virando emblema
da identidade nacional até ganhar chancela do
governo na era Vargas. Essa história talvez ajude a
entender o apelo do samba hoje em dia. Ele tem a aura da "autenticidade"
uma palavra essencial no vocabulário da turma
do chinelinho. Além disso, remete a uma marginalidade
cordial e idealizada em vez de falar de violência
real, como o rap, por exemplo.
Marco
Antônio Teixeira/Ag. O Globo
Paulinho da Viola: referência
para os novos, ele gravou um Acústico MTV
O samba passou por diversas transformações musicais
ao longo das décadas (veja
o quadro). Um desvio recente, nos anos 90,
desembocou na atrocidade do "pagode mauricinho", que se inspirava
na pior música negra americana. A atual onda do samba
é o contrário disso. Seus artistas zelam pela
tradição e se inspiram em Noel Rosa, Cartola,
Nelson Cavaquinho ou Paulinho da Viola (que lança em
outubro um Acústico MTV). Sempre que possível,
eles buscam o apadrinhamento de veteranos. Leci Brandão,
por exemplo, despontou na década de 70, mas depois
se eclipsou. Amargou um longo período de ostracismo,
lançando seus discos por selos de menor expressão
e fazendo apresentações na periferia das principais
capitais do Brasil. No ano passado, foi surpreendida pelo
telefonema da cantora Mariana Aydar, que pediu que Leci lhe
cedesse a canção Zé do Caroço
e a convidou para cantar em seu disco de estréia,
Kavita 1. O lado anedótico desse apadrinhamento
fica por conta da cantora Beth Carvalho. Uma das sambistas
de maior sucesso comercial da história, Beth se especializou
em "abraçar" novos talentos. Seu afã é
tão grande que alguns se sentem incomodados com as
investidas da madrinha. Há quem evite esbarrar com
Beth para não ser transformado compulsoriamente
em pupilo.
O perigo bastante
real que ronda os jovens artistas do samba é eles se
tornarem meros repetidores de canções de cinqüenta
anos atrás. Alguns se dão conta dessa ameaça.
"Muita gente está pecando pela reverência exagerada
e pela preocupação com o que o pessoal da velha-guarda
vai achar do seu trabalho", diz o cantor e compositor Edu
Krieger, de 33 anos. O cantor Marcos Sacramento também
teme a repetição. "No samba, temos de ser hereges",
diz ele, que se esforça para dar roupagem diferente
a canções de Baden Powell, Cartola ou Chico
Buarque. Por uma via lateral, Marcelo D2 se aventura na mistura
de samba e hip hop, mas ainda não produziu algo sólido.
O samba voltou. Mas não há nada de novo no samba.
Fotos Oscar Cabral
Os cantores Marcos
Sacramento e Teresa Cristina: talentos surgidos na cena
noturna da Lapa carioca