BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado
REVISTAS
VEJA
Edição 2022

22 de agosto de 2007
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
Claudio de Moura Castro
Millôr
André Petry
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Gente
Datas
Auto-retrato
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
Publicidade
 

Cinema
Nenhum minuto perdido

Apesar de seu ritmo incessante, O Ultimato Bourne é o mais reflexivo dos filmes de ação – uma combinação inusitada, resultado do trabalho de um ótimo ator e de um grande diretor


Isabela Boscov

VEJA TAMBÉM
Exclusivo on-line
Trailer do filme

Totalmente amnésico em A Identidade Bourne, e assombrado pelas suas memórias em A Supremacia Bourne, o americano Jason Bourne é, da maneira como foi criado pelo escritor Robert Ludlum, um clichê ficcional da última fase da Guerra Fria: para transformá-lo num autômato das black ops, as missões ilegais cuja autoria nenhuma agência governamental pode assumir, as "forças ocultas" do poder limparam sua mente de tudo o que fosse secundário à sua tarefa letal. A série cinematográfica, que agora se completa com O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum, Estados Unidos, 2007), em cartaz no país a partir de sexta-feira, utiliza esse mesmo princípio. Mas seus fins são outros. Como bem observou a crítica Manohla Dargis no The Los Angeles Times, Identidade fazia uma indagação existencial – "quem sou eu?" – e Supremacia girava em torno de um dilema moral – "o que eu fiz?". Em Ultimato, o protagonista passa à etapa seguinte desse questionamento. Bourne quer deixar de ser quem é e, para tanto, precisa descobrir como foi criado. Um agente secreto em crise moral e missão de vingança é um artigo perigoso, e há muita gente que deseja matá-lo. Para se redimir e se transformar, portanto, Bourne precisa ser o que sempre foi: uma arma absolutamente mortífera. Até porque, mesmo neste terceiro filme, sua noção de identidade ainda é das mais vagas, e a Bourne só resta se mover por instinto e por reflexo.

Divulgação

Damon, como o agente renegado Jason Bourne: ao contrário de James Bond, ele não tem tempo para piadas. Só para fugir e se torturar


E ele se move, sem parar. Desde o início, a série achou sua marca no ritmo incessante, mas neste filme o diretor inglês Paul Greengrass a leva às últimas conseqüências. De Madri a Tânger, de Nova York a Londres, Jason Bourne corre por ruas, escadarias e telhados até se pôr à frente de seus caçadores e inverter o jogo, passando a caçá-los. Com os cabelos curtos, o rosto liso, o físico ágil e compacto, Matt Damon parece ter sido escolhido por suas propriedades aerodinâmicas. Mas, paradoxalmente, é na total ausência de espaço para a reflexão que o filme ganha seu sentido e sua relevância. Bourne não pode se dar ao luxo, como James Bond, de parar para fazer blagues, seduzir mulheres ou manejar traquitanas eletrônicas. O único tempo que ele tem é para fugir ou para correr de encontro aos que o perseguem, e para se torturar – um estado de consciência que Damon sinaliza em gestos mínimos e no olhar que, quando ele tem de agir, fica quase vazio, tal o nojo que tem de si mesmo.

Criar um personagem tão sólido a partir de tão pouco é trabalho para um ator de peso. Damon, que na ocasião do lançamento de Identidade esgotara o cacife obtido com Gênio Indomável e andava havia meses sem receber uma única oferta de trabalho, recuperou, com a série, todas as suas perdas. Não só comprovou sua competência e seu carisma como trouxe ao estúdio um bônus financeiro. Ultimato fez 70 milhões de dólares em seu fim de semana de estréia nos Estados Unidos, tornando Damon o melhor investimento de Hollywood: ele rende 29 dólares na bilheteria para cada dólar que recebe de cachê, contra 24 dólares de Brad Pitt, o segundo colocado.

 
Divulgação
O diretor Paul Greengrass: cinema que se alimenta da tensão e da incerteza

Mas a contribuição dos diretores de Bourne – Doug Liman no primeiro filme, e Greengrass nos dois últimos – é igualmente decisiva. Ambos são conhecidos pelos métodos caóticos e pelo clima de imprevisibilidade que criam entre equipe e elenco, o qual transpira de forma altamente benéfica para dentro da trama. Greengrass não isola seus sets: roda em plena rua ou numa estação como a de Waterloo, em Londres, no meio da multidão, sem cordão de segurança e sem sequer um roteiro fechado. É um cinema de guerrilha, que se alimenta do imprevisto, assim como da tensão e do cansaço de quem participa dele. Além de Greengrass, hoje, apenas o também inglês Michael Winterbottom e o brasileiro Fernando Meirelles sabem pôr o caos a seu serviço com tanta eficácia. Graças a esse talento, Greengrass faz de O Ultimato Bourne uma espécie de A Batalha de Argel para o mundo pós-11 de Setembro: uma guerra de um homem só contra as forças que colonizaram sua alma até – quase – destruí-la por completo.

  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |