Apesar de seu ritmo
incessante, O Ultimato Bourne é o mais reflexivo
dos filmes de ação uma combinação
inusitada, resultado do trabalho de um ótimo ator e
de um grande diretor
Totalmente
amnésico em A Identidade Bourne, e assombrado
pelas suas memórias em A Supremacia Bourne,
o americano Jason Bourne é, da maneira como foi criado
pelo escritor Robert Ludlum, um clichê ficcional da
última fase da Guerra Fria: para transformá-lo
num autômato das black ops, as missões
ilegais cuja autoria nenhuma agência governamental pode
assumir, as "forças ocultas" do poder limparam sua
mente de tudo o que fosse secundário à sua tarefa
letal. A série cinematográfica, que agora se
completa com O Ultimato Bourne (The Bourne
Ultimatum, Estados Unidos, 2007), em cartaz no país
a partir de sexta-feira, utiliza esse mesmo princípio.
Mas seus fins são outros. Como bem observou a crítica
Manohla Dargis no The Los Angeles Times, Identidade
fazia uma indagação existencial "quem
sou eu?" e Supremacia girava em torno de um
dilema moral "o que eu fiz?". Em Ultimato, o
protagonista passa à etapa seguinte desse questionamento.
Bourne quer deixar de ser quem é e, para tanto, precisa
descobrir como foi criado. Um agente secreto em crise moral
e missão de vingança é um artigo perigoso,
e há muita gente que deseja matá-lo. Para se
redimir e se transformar, portanto, Bourne precisa ser o que
sempre foi: uma arma absolutamente mortífera. Até
porque, mesmo neste terceiro filme, sua noção
de identidade ainda é das mais vagas, e a Bourne só
resta se mover por instinto e por reflexo.
Divulgação
Damon, como
o agente renegado Jason Bourne: ao contrário
de James Bond, ele não tem tempo para piadas.
Só para
fugir e se torturar
E ele se move, sem parar. Desde o início, a série
achou sua marca no ritmo incessante, mas neste filme o diretor
inglês Paul Greengrass a leva às últimas
conseqüências. De Madri a Tânger, de Nova
York a Londres, Jason Bourne corre por ruas, escadarias e
telhados até se pôr à frente de seus caçadores
e inverter o jogo, passando a caçá-los. Com
os cabelos curtos, o rosto liso, o físico ágil
e compacto, Matt Damon parece ter sido escolhido por suas
propriedades aerodinâmicas. Mas, paradoxalmente, é
na total ausência de espaço para a reflexão
que o filme ganha seu sentido e sua relevância. Bourne
não pode se dar ao luxo, como James Bond, de parar
para fazer blagues, seduzir mulheres ou manejar traquitanas
eletrônicas. O único tempo que ele tem é
para fugir ou para correr de encontro aos que o perseguem,
e para se torturar um estado de consciência que
Damon sinaliza em gestos mínimos e no olhar que, quando
ele tem de agir, fica quase vazio, tal o nojo que tem de si
mesmo.
Criar um personagem
tão sólido a partir de tão pouco é
trabalho para um ator de peso. Damon, que na ocasião
do lançamento de Identidade esgotara o cacife
obtido com Gênio Indomável e andava havia
meses sem receber uma única oferta de trabalho, recuperou,
com a série, todas as suas perdas. Não só
comprovou sua competência e seu carisma como trouxe
ao estúdio um bônus financeiro. Ultimato
fez 70 milhões de dólares em seu fim de semana
de estréia nos Estados Unidos, tornando Damon o melhor
investimento de Hollywood: ele rende 29 dólares na
bilheteria para cada dólar que recebe de cachê,
contra 24 dólares de Brad Pitt, o segundo colocado.
Divulgação
O diretor Paul Greengrass: cinema
que se alimenta da tensão e da incerteza
Mas a contribuição
dos diretores de Bourne Doug Liman no primeiro
filme, e Greengrass nos dois últimos é
igualmente decisiva. Ambos são conhecidos pelos métodos
caóticos e pelo clima de imprevisibilidade que criam
entre equipe e elenco, o qual transpira de forma altamente
benéfica para dentro da trama. Greengrass não
isola seus sets: roda em plena rua ou numa estação
como a de Waterloo, em Londres, no meio da multidão,
sem cordão de segurança e sem sequer um roteiro
fechado. É um cinema de guerrilha, que se alimenta
do imprevisto, assim como da tensão e do cansaço
de quem participa dele. Além de Greengrass, hoje, apenas
o também inglês Michael Winterbottom e o brasileiro
Fernando Meirelles sabem pôr o caos a seu serviço
com tanta eficácia. Graças a esse talento, Greengrass
faz de O Ultimato Bourne uma espécie de A
Batalha de Argel para o mundo pós-11 de Setembro:
uma guerra de um homem só contra as forças que
colonizaram sua alma até quase destruí-la
por completo.