O Brasil na Mira
de Hitler, do jornalista Roberto Sander, que a Editora
Objetiva lança neste mês (256 páginas,
33,90 reais), é o primeiro livro a ocupar-se inteiramente
dos ataques de submarinos alemães contra navios brasileiros
durante a II Guerra Mundial. Ele narra em detalhes a ofensiva
naval alemã contra um Brasil ainda neutro na guerra
ofensiva que continuaria até quase o fim da
guerra na Europa. Entre 1941 e 1944, os submarinos torpedearam
fatalmente 34 navios mercantes brasileiros, matando 1.081
pessoas, mais do que o dobro dos militares da Força
Expedicionária Brasileira mortos em combate na Itália.
Até que Sander se interessasse por eles, os detalhes
dos sangrentos episódios eram desconhecidos do grande
público. O jornalista revirou os arquivos da época
para recontar a história. Uma noite, a de 15 de agosto
de 1942, foi especialmente terrível no mar.
O navio Baependi
foi torpedeado a 30 quilômetros da costa nordestina,
quando navegava do Rio de Janeiro para o Recife. Eram 7 horas
da noite e muitos passageiros valsavam no salão de
baile. A festa acabou quando dois torpedos disparados pelo
submarino alemão U-507 explodiram o casco e
levaram o Baependi a pique em três minutos. Em
um procedimento usual nesses ataques, o U-507 emergiu
depois do ataque, examinou os destroços e voltou às
profundezas. Foi um golpe preciso e brutal contra um país
que ainda se declarava neutro na guerra. Das 306 pessoas a
bordo, apenas 36 conseguiram se salvar. Todas as crianças
morreram. Era o início da noite mais sangrenta da história
do Brasil no século XX. "Ouvia gritos terríveis.
Eram homens, mulheres e crianças que se afogavam em
torno de mim", disse, na ocasião, o capitão
do navio, Lauro Moutinho, um dos poucos sobreviventes. O Baependi
foi o 15º alvo dos u-boats do III Reich. Não
foi o único da noite sangrenta.
Duas horas mais
tarde, um novo clarão surgiu no horizonte. O mesmo
U-507 bombardeava outro navio brasileiro, o Araraquara.
O ataque foi tão rápido que ninguém
conseguiu retirar nem os equipamentos de segurança
antes que o navio afundasse. Em meio à escuridão
completa, o mar furioso arrastava os náufragos com
violência. Das 142 pessoas a bordo, somente onze, agarradas
aos destroços, sobreviveram. Às 4 horas da manhã,
o U-507 completaria a matança daquela noite,
botando a pique o navio Aníbal Benévolo,
que navegava a pouco mais de 10 quilômetros da costa.
A maior parte dos passageiros estava dormindo. Todos morreram
afogados, incluindo dezesseis crianças. Em menos de
dez horas, um único submarino nazista matou 551 brasileiros,
a maioria civis. O episódio precipitou a entrada do
país na II Guerra.
Quando as notícias
da razia feita pelo U-507 chegaram ao Rio de Janeiro,
então capital da República, já havia
um clima crescente de hostilidade contra os nazistas. A hostilidade
logo se transformaria em ódio. A ditadura de Getúlio
Vargas tinha rompido relações diplomáticas
com a Alemanha de Hitler em janeiro de 1942 menos de
oito meses antes do ataque da madrugada de destruição
promovida pelo U-507. O Brasil fornecia tungstênio,
cristal de quartzo, borracha e outras matérias-primas
à indústria bélica americana. Os Estados
Unidos tinham o direito de usar uma base aérea na cidade
de Natal. Mas oficialmente o Brasil era um país neutro.
Hitler retaliou de maneira desproporcional dando ordens de
atirar à vontade ao U-507. Sob o comando do
capitão-de-fragata Harro Schacht, de 34 anos, ele cumpriu
com perfeição a missão de destruir os
navios que encontrasse em sua rota. No dia seguinte ao ataque,
12.000 estudantes saíram às ruas no Rio de Janeiro
exigindo que o Brasil declarasse guerra. Estabelecimentos
de alemães foram depredados. Vargas fez um discurso
inflamado falando em "punição exemplar" para
os agressores. Dias depois, o Brasil declarou guerra à
Alemanha e à Itália.
Divulgação
Um dos submarinos da frota de
Hitler: 34 navios brasileiros torpedeados na II Guerra
A se fiar no livro
de memórias do alemão Hermann Rauschning, o
führer chegou a dizer que pretendia edificar no Brasil
uma nova Alemanha. Rauschning, senador do partido Nazi, que
depois viria a renegar, não é, porém,
fonte confiável. Suas conversações com
Hitler, dadas por ele como confidências íntimas,
não passaram de diálogos rápidos trocados
nos palanques das espetaculares apresentações
públicas dos nazis. Morto em 1982, Rauschning foi desmascarado
por diversos historiadores. Mas é fora de dúvida
que as pretensões de dominação mundial
da Alemanha de Hitler não permitiam ignorar o Brasil.
Quando o alinhamento com os aliados se tornou inevitável,
o Brasil passou a ser visto como inimigo pelos alemães.
O Nordeste, situado na cintura do Atlântico, era uma
base de apoio fundamental para os aliados atingirem o continente
africano e também uma porta de entrada para os nazistas
quando fosse conveniente e possível invadir as Américas.
Cerca de 150.000 alemães moravam no Brasil e, como
em toda parte, alguns poucos atuaram como espiões.
Até o fim da guerra foram presos 100 deles. Eficientes
espiões, eles informaram com precisão o destino
e a carga de cada embarcação que saía
do Brasil, facilitando o trabalho dos submarinos.
Com ordens de interromper
no Atlântico as linhas de abastecimento para as ilhas
britânicas, os alemães afundavam os navios sem
distinção de bandeira. Essa era, então,
a prioridade estratégica dos militares alemães.
Entre o começo de 1942 e meados de 1943, os submarinos
alemães, construídos ao ritmo de duas dezenas
por mês, afundaram em navios mercantes, especialmente
americanos e canadenses, o equivalente a 7 milhões
de toneladas de carga. Em novembro de 1942, o mais cruel dos
meses, foram afundadas quatro embarcações por
dia. O ataque ao navio brasileiro Cairu, em março
de 1942, próximo à costa americana, foi especialmente
dramático. Vinte sobreviventes passaram quatro dias
à deriva em um bote salva-vidas, enfrentando o mar
revolto, a chuva forte e temperaturas abaixo de zero. No segundo
dia, o primeiro brasileiro morreu congelado. Nos dois dias
seguintes, mais nove dos embarcados morreram de frio. Suas
roupas eram retiradas para aquecer os sobreviventes e os corpos,
jogados na água. Dez marujos foram resgatados com vida.
A notícia causou enorme comoção no Brasil,
e o governo prometeu que os navios mercantes brasileiros só
iriam ao mar com escolta. A decisão, é claro,
demorou a ser cumprida. No fim de 1942, quando as embarcações
americanas já andavam em comboio e escoltadas, a frota
brasileira ainda era um alvo fácil. A perda de vidas
brasileiras, segundo alguns historiadores, foi grande também
porque era hábito permitir que passageiros civis, militares
e cargas estratégicas viajassem lado a lado nos mesmos
navios.