Autobiografia relançada
de Dener recupera a afetação
e as alfinetadas certeiras do primeiro estilista brasileiro
Laura Ming
José
Antonio
Na
década de 1960, não existiam estilistas. Eram
costureiros, sujeitos considerados "afeminados" que não
saíam de suas oficinas, cercados por agulhas e tesouras.
Imagine-se então freqüentar e aí
vai outra expressão de época a alta sociedade?
Ou virar ídolo popular através de um programa
de televisão? Com talento para a moda e vocação
maior ainda para a autopromoção, Dener Pamplona
de Abreu revirou todos os conceitos a respeito de homens que
costuravam para mulheres. Paraense que migrou para o Rio de
Janeiro mas fez carreira em São Paulo (porque "o Rio
é a cidade mais simpática do mundo, e a mais
bonita. Mas tem um problema: os cariocas não têm
dinheiro"), ele criou para si mesmo uma biografia de aristocrata
destronado e uma personalidade de sucesso garantido: o esnobe
afetadíssimo, de língua ferina e raciocínio
rápido que fala "o que os outros não têm
coragem de dizer". O resultado, em geral hilariante, pode
ser visto em Dener O Luxo, autobiografia que
ele escreveu em 1972, quando tinha 36 anos, e que a editora
Cosac Naify relança nesta semana (veja
trechos). "Ele foi o primeiro grande estilista
brasileiro e estava sendo esquecido. Conhecer Dener é
fundamental para a moda brasileira", diz Mariana Lonari, editora
responsável pelo livro.
Exagerar, exagerar
sempre era o lema de Dener, que explorava ao extremo a figura
lânguida, de cabelos esvoaçantes e eterno biquinho
estilo imitado à risca por seu rival da época,
o hoje deputado Clodovil Hernandes. "Na maior parte do tempo,
ele usava calça e paletó pretos, camisa branca
e sapatos com uma fita de gorgorão preto que mandava
fazer. Tinha dezenas", conta o estilista José Gayegos,
que foi seu assistente durante dois anos. Dentro do estilo
dândi descontrolado, Dener usava camisas com jabôs
imensos, enrolava-se em casacos de pele, não largava
o cigarro (como era chique então) e jamais descia da
pose. Venerava as senhoras das "famílias importantes"
de São Paulo, cujo estilo de vida procurava reproduzir
em escala radicalizada. Morava em um casarão alugado
próximo ao Estádio do Pacaembu, em São
Paulo, servido por dez empregados. Acordava às 2 da
tarde e sua primeira refeição consistia em ovo,
iogurte e cerveja. Chegava ao ateliê às 4 e trabalhava
até as 8. Ao encerrar o expediente, telefonava para
o mordomo, Pierre (Pedro, no original), que fechava todas
as cortinas da casa e acendia velas e abajures Dener
detestava luz no teto. À 1 da manhã, jantava;
depois esticava, como se dizia na época, nas boates
Ton Ton e Cave. Suas festas eram célebres. "Numa delas,
quis pássaros exóticos na decoração.
Como não encontrou, comprou pombas brancas, pintou-as
com tinta a óleo e fez apliques de plumas. Morreram
todas, menos uma", conta Gayegos.
Em 1965, para surpresa
geral de quem via seu perfil desbragadamente gay nas revistas
e na televisão (em especial num outro marco de época,
o programa Flávio Cavalcanti), casou-se com
Maria Stella Splendore, modelo ou melhor, manequim
de apenas 16 anos, e com ela teve um casal de filhos.
O casamento durou quatro anos. Hoje, Maria Stella e a filha,
Maria Leopoldina, vivem em uma comunidade hare krishna no
interior de São Paulo; o filho, Frederico Augusto,
morreu aos 26 anos. Quando perguntavam sobre sua sexualidade,
Dener dizia, vagamente, que gostava "de gente bonita". Na
autobiografia, deixa entrever relacionamentos com homens,
mas fala com especial carinho de Maria Stella, do quase casamento
com outra jovem "de família rica" e da paixão
por uma cantora de ópera. "Dener conversava sempre
olhando nos olhos, era muito simpático, cativava todo
mundo. Chegava e iluminava o ambiente", conta Silvia Neubern,
prima de Maria Stella. "Dava para perceber que era bissexual,
mas na época ninguém falava sobre isso abertamente.
Era muito galanteador e muito autêntico", diz Eugênia
Fleury, dona de uma marca de roupas com seu nome em São
Paulo, que foi modelo de Dener.
No mundo da moda,
sua presença foi uma revolução. Ao acompanhar,
observar e procurar recriar o que se fazia em Paris, com capricho
especial nos acabamentos, trouxe para o Brasil um requinte
que as madames só conheciam nas roupas que importavam.
Sobrenomes conhecidos e artistas famosas compravam suas criações
e freqüentavam sua casa. Durante o breve e malfadado
governo João Goulart, sua mulher, a bela Maria Teresa,
praticamente só se vestiu de Dener. Na autobiografia,
ele conta uma versão impagável do golpe de 1964,
que não entende a princípio, imaginando que
a "revolução" era uma apavorante vitória
dos comunistas. Com o passar do tempo, Dener foi perdendo
a mão, cansando a platéia, bebendo cada vez
mais. Perdeu clientes, entrou em decadência. Morreu
de cirrose aos 42 anos, sozinho e sem luxo.
J. Ferreira da Silva
Clodovil Hernandes
Inimigo alfinetado
"Milhares de pessoas
(na chegada ao Recife) estavam gritando meu nome,
puxando minha roupa, tentando roubar minhas abotoaduras
Carven, e havia até uns tipinhos nanicos aproveitando
meu aparecimento em público para copiar minha
roupa. Deviam ser alfaiates do Clodovil."
Fora
de série
"Muita gente
que vê o meu sucesso de hoje pensa
que eu conquistei tudo só com minha
frescura, que realmente é fora de série,
ou porque eu tenho
coragem de dizer as coisas. Tudo isso ajudou, como eu
vou contar adiante. Mas não teria chegado se
não fossem os estudos
e o trabalho."
Folha Imagem
Elisinha Moreira Salles
1964 ao contrário
"Eu fiquei
no pânico mais desesperador. O que enxergava diante
de mim era pior que o apocalipse. Alicia Scarpa, Elisinha
Moreira Salles, todas de macacão azul colocando
rótulo em pacotes de goiabada em
alguma fábrica de subúrbio. Eu jamais
produziria macacões
azuis para fabricação em
massa."
Ag. Globo
Maria Teresa
O casal Goulart
"Pelo que
dizem, Jango fez muita coisa errada e sobretudo deixou
que a pior gente do Brasil fizesse muita coisa. (Mas)
não tenho uma palavra contra a família."
"Eu fiz vestidos
para Maria Teresa para todas as ocasiões. Para
recepções, para casamentos, para
funeral, para solenidades oficiais. Só
não fiz um vestido para deposição."
Festa nada chique
"Eu lembro
que havia uma enorme bacia de caviar e uma outra de
queijinho partido (por aí vocês já
viram) em uma mesa no meio da sala. Todo mundo ficava
andando para ali, de palito na mão ou com minifacas,
equilibrando caviar no pão. Para quem olhasse
de longe, parecia a avenida São João,
gente andando de um lado para outro. E
a hostess destruindo um sensacional
Balmain."
Arquivo Pessoal
Maria Stella Splendore
Maria Stella Splendore
"Deslumbrada
comigo, minha mulher queria ser em mulher o que eu sou
em homem, o que evidentemente
não é
possível."
O auge da fama
"Eu tenho
meias com meu nome vendidas em Rondônia, por exemplo.
Não é a glória?"