A julgar pelo que
se lê nos jornais e se ouve nas salas de aula das universidades,
o Brasil conta com uma elite retrógrada, de valores
quase medievais, empenhada em obter toda sorte de privilégios
do estado e em explorar a massa trabalhadora. Essa elite seria
tão daninha que qualquer movimento de protesto originado
nela, como o "Cansei", já nasceria marcado pela ilegitimidade.
Segundo os arautos desse ponto de vista, em posição
antípoda estaria um povo de valores imaculados, dono
de uma sabedoria e um senso de justiça naturais e pronto
a redimir o país de séculos de iniqüidade.
Basta um pouco de distanciamento para ver que se trata de
um maniqueísmo tolo, típico da rasa cachola
esquerdista brasileira. Elite é muito mais do que sinônimo
de "rico". Como registram os dicionários, é
uma palavra de origem francesa que significa "o que há
de melhor numa sociedade ou grupo". Dela fazem parte profissionais
liberais, cientistas, atletas, empresários, políticos
(não todos, infelizmente). Só uma nação
que conta com uma elite com iniciativa, energia criadora,
conhecimento avançado e valores democráticos
tem chance de desenvolver-se. É por meio de suas ações
e de seu exemplo que o conjunto da população
termina ascendendo também, tanto no plano educacional
e cultural como no profissional. Isso está longe de
ser teoria romântica. É fato verificável
no bloco dos países que hoje compõem o clube
dos desenvolvidos.
Ao deixar de lado
os estereótipos falidos, é possível verificar
que a realidade brasileira estampa feições que
costumam passar despercebidas. Uma prova disso emerge da leitura
de A Cabeça do Brasileiro (Record; 280 páginas;
42 reais), do sociólogo Alberto Carlos Almeida, que
chega às livrarias nesta semana. O livro traz os resultados
da Pesquisa Social Brasileira, um levantamento no qual se
investigaram os principais valores presentes no cotidiano
social, econômico e político nacional. Enfim,
o que se pode denominar de "o pensamento do brasileiro". O
que se tem ali é uma radiografia de nitidez impressionante,
que afirma principalmente como o papel da elite na construção
de um Brasil moderno é crucial. A parcela mais educada
da população é menos preconceituosa,
menos estatizante e tem valores sociais mais sólidos.
Se todas as pessoas em idade escolar estivessem em sala de
aula hoje, a pleno vapor, o Brasil acordaria uma nação
moderna no dia 1º de janeiro de 2025 depois de
um ciclo completo de educação. Os brasileiros
passariam a ter baixíssima tolerância à
corrupção e esperariam menos benesses de um
estado protetor. Funcionários públicos ineficientes
e aproveitadores seriam uma raça em extinção.
Os cidadãos lutariam mais por seu futuro, em vez de
se entregar distraidamente à loteria do destino. Nesse
país, as pessoas de qualquer credo ou classe social
se veriam como portadoras de direitos iguais. As diferenças
sexuais seriam mais respeitadas. Provavelmente pouquíssimos
endossariam a frase estampada no alto da página 87
"Se alguém é eleito para um cargo público,
deve usá-lo em benefício próprio".
A Pesquisa Social
Brasileira foi realizada pelo instituto DataUff (Universidade
Federal Fluminense) e financiada pela Fundação
Ford. Foram ouvidas 2.363 pessoas, em 102 municípios.
Coordenador do trabalho, Almeida optou pela mesma metodologia
utilizada pela General Social Survey, a maior pesquisa social
dos Estados Unidos, realizada a cada dois anos, desde 1972,
pela Universidade de Chicago. O levantamento expressa a opinião
dos brasileiros sobre diversos temas. Não pretende,
é importante ressaltar, revelar como agem. A pesquisa
é sobretudo a respeito da ética nacional ou
das várias éticas que convivem no interior do
país. Pegue-se o exemplo do "jeitinho". A maioria esmagadora
da população já lançou mão
dele para resolver problemas. De acordo com Almeida, essa
parcela equivale a dois terços da população.
Mas ele não é aprovado na mesma proporção
quando se leva em conta o grau de escolaridade. O "jeitinho"
é chancelado como algo válido por quase 60%
dos analfabetos. Entre os que têm nível superior,
porém, esse índice cai praticamente à
metade. Essas discrepâncias também se revelam
grandes quanto a outros temas. No universo dos que têm
pouca ou nenhuma educação, a taxa dos que aprovam
a violência policial oscila entre 40% e 50%. Já
a dos que a desaprovam entre os mais escolarizados chega a
86%.
A pesquisa se ocupou,
ainda, de um aspecto bastante danoso da vida nacional, o patrimonialismo.
Ele não é uma invenção brasileira,
como os impostos provisórios eternos. Quem melhor o
investigou foi o sociólogo alemão Max Weber,
que inspirou gerações de estudiosos. No Brasil,
surgiu como forma de organização social no século
XVI, com as grandes concessões de terra, as capitanias
hereditárias. E por aqui fincou raízes fortes.
Uma das conseqüências do patrimonialismo é
a confusão entre o público e o privado. A pesquisa
de Almeida mediu-a por meio da frase "Cada um deve cuidar
somente do que é seu, e o governo cuida do que é
público". Ela obteve a concordância de 74% dos
que foram ouvidos. Quando se analisa esse mesmo dado à
luz da escolaridade, contudo, vê-se a falta que a sala
de aula faz. No universo dos analfabetos, 80% não conseguem
enxergar o papel do cidadão no cuidado com a coisa
pública. Entre os que têm nível superior,
o porcentual diminui para 53%.
"Hoje, a maioria
dos brasileiros ainda tem baixa escolarização
e, portanto, uma visão mais arcaica da sociedade",
afirma Almeida. "Mas é evidente que a educação
tornará majoritária no país a parcela
da população que tem uma visão mais moderna.
O processo é irreversível." A divisão
entre arcaico e moderno, embora em desuso por boa parte dos
cientistas sociais, é a que define com mais clareza
o abismo entre as duas visões de mundo. Para verificar
a profundidade dessas diferenças, o autor de A Cabeça
do Brasileiro não recorreu a nenhum expediente
extraordinário. Apenas aferiu, por meio de perguntas,
a indulgência com situações cotidianas.
Sua pesquisa tem o poder de iluminar os principais aspectos
da vida nacional. Os dados obtidos reforçam o que o
imperador dom Pedro II já sabia: sem um esforço
para universalizar a educação, a sociedade brasileira
continuará patinando material e moralmente. Como nota
Almeida, num país mais escolarizado a cena de um Severino
Cavalcanti sentado na cadeira de presidente da Câmara
dos Deputados nunca teria ocorrido. "Os eleitores de Severino,
em sua maioria de baixa escolaridade e residentes em cidades
pequenas do interior do Nordeste, tendem a não condenar
o comportamento desse político, que defendia abertamente
a contratação de parentes", constata o autor.
A corrupção,
essa praga tão destruidora quanto a saúva o
era nos tempos do ciclo do café, tem o beneplácito
da maioria dos iletrados. Isso ficou claro quando se colocou
a seguinte pergunta: "Como considerar a atitude do funcionário
público que ajuda uma empresa a ganhar um contrato
no governo e depois recebe dela um presente de Natal?". Para
80% dos que não sabem ler ou escrever, isso é
apenas um "favor" ou um "jeitinho". Para 72% dos que concluíram
a universidade, é corrupção e ponto final.
Voltando à frase do segundo parágrafo desta
reportagem, entre os analfabetos 40% acham que uma pessoa
eleita para um cargo público deve usá-lo em
benefício próprio. Dos que atravessaram todo
o ensino superior, somente 3% pensam assim. O mesmo contraste
é percebido quando o tema é a intervenção
do estado na economia. Incríveis 90% dos analfabetos
acham que o governo deve socorrer empresas em dificuldades.
Entre os que têm nível superior, apenas 27% concordam
inteiramente com isso e 37% aceitam a atitude em alguns casos.
Ainda mais preocupante é a proporção
de iletrados que apóiam a censura governamental. Para
quase 60% deles, "programas de TV que fazem críticas
ao governo devem ser proibidos", contra somente 8% dos que
exibem nível superior. Dá para ver de onde os
partidários da tentação autoritária
tiram seu entusiasmo liberticida.
Um capítulo
delicado do livro é o que trata da percepção
dos brasileiros em relação à cor da pele.
O autor pediu aos entrevistados que atribuíssem qualidades
ou defeitos a homens brancos, negros e pardos retratados em
fotografias. Aos brancos foram atribuídas mais qualidades
positivas, como inteligência, honestidade e modos educados.
Os negros ficaram em segundo lugar. Quanto aos pardos, além
de ficar atrás no que se refere aos aspectos positivos,
eles são mais relacionados a características
negativas (veja
quadro). Com base nesses dados e em cruzamentos
mais específicos, como o que relaciona a cor da pele
a profissões de maior ou menor prestígio, com
vantagem para os brancos, Almeida refuta a tese de que um
dos maiores problemas brasileiros é o preconceito social,
e não o racial. Mas talvez seja o contrário:
pardos e negros são percebidos de modo mais negativo
justamente por continuar a figurar em maior número,
por causa de circunstâncias históricas, na base
da pirâmide social, onde as oportunidades são
menores e a marginalidade é maior. Seja como for, a
pesquisa funciona como combustível para uma discussão
que precisa continuar.
"A pesquisa que
compõe A Cabeça do Brasileiro é
algo monumental. Tem o mérito de testar quantitativamente
tudo o que nós estudamos. Nunca foi feito algo parecido",
diz o antropólogo Roberto DaMatta. É também
por meio de trabalhos como esse, com conclusões que
fogem aos lugares-comuns e apontam na direção
da necessidade de universalizar a educação e
acelerar a marcha rumo à modernidade o que significa
uma ampliação da classe média, ou seja,
da elite , que talvez um dia o país possa deixar
de caber na seguinte descrição do escritor Paulo
Mendes Campos: "Imaginemos um ser humano monstruoso que tivesse
a metade da cabeça tomada por um tumor, mas o cérebro
funcionando bem; um pulmão sadio, o outro comido pela
tísica; um braço ressequido, o outro vigoroso;
uma orelha lesada, a outra perfeita; o estômago em ótimas
condições, o intestino carcomido de vermes.
Esse monstro é o Brasil: falta-lhe alarmantemente o
mínimo de uniformidade social".
QUE TIPO DE CABEÇA VOCÊ TEM?
As vinte questões abaixo,
elaboradas pelo sociólogo Alberto Carlos Almeida,
autor de A Cabeça do Brasileiro, abordam
aspectos ligados ao cotidiano social, econômico
e político nacional. Em seu conjunto, as alternativas
escolhidas ajudam a traçar o perfil educacional
e ideológico de quem se dispuser a fazer o teste
Resultado
De 16 a 20 errados:
você pensa de forma semelhante à maioria
dos brasileiros com curso superior completo acredita
que o estado deve ser mínimo e servir à
sociedade, não o contrário. No plano pessoal,
é pouco hierárquico nas suas relações
cotidianas
De 11 a 15 errados:
você não pensa exatamente como a maioria
dos que têm curso superior, mas tende a pensar
como eles
10 errados: seu
modo de ver o mundo é dividido: apesar de, em
relação a alguns tópicos, raciocinar
como os mais ilustrados, você mostra opiniões
favoráveis à manutenção
de um estado mastodôntico e acha incontornáveis
o "jeitinho" brasileiro e determinadas atitudes
preconceituosas presentes no dia-a-dia típicas
dos cidadãos com menos escolaridade
De 5 a 9 errados: você
se inclina a pensar de uma forma que indica tolerância
à corrupção, à desigualdade,
ao preconceito e ao estatismo
De 0 a 4 errados: você
pensa como aqueles com menor nível de escolaridade.
É como se a corrupção, a desigualdade,
o preconceito, o fatalismo e o estatismo fossem fatos
naturais