Empresa americana
faz gigantesco recall de
bonecas que já feriram crianças e de carrinhos
que podem causar danos neurológicos
Denise Dweck
Fotos AP
A Mattel pretende recolher 21,8
milhões de brinquedos em todo o mundo – 850 000 deles
no Brasil. Cinco tipos de boneco do Batman estão entre
os produtos condenados
As bonecas Barbie
e Polly e os bonecos de super-heróis, como o Batman,
estão entre os brinquedos favoritos das crianças
em todo o mundo, com vendas na casa das dezenas de milhões
de peças. Na semana passada, muitos pais tomaram um
susto ao descobrir que, ao brincar com esses personagens,
seus filhos correm risco de vida. A advertência foi
feita pela própria empresa que produz os bonecos, a
americana Mattel, a maior fabricante de brinquedos do mundo.
A firma anunciou um recall mundial de 21,8 milhões
de seus produtos, 850.000 deles em mãos de crianças
brasileiras. As bonecas Polly, oferecidas em dezenas de modelos,
têm dois pequenos ímãs aplicados nos vestidos,
que servem para grudá-los ao corpo. Esses ímãs
às vezes se soltam e as crianças podem engoli-los.
Em março do ano passado, um menino de 1 ano e 8 meses
morreu nos Estados Unidos ao engolir dois ímãs,
semelhantes aos da Polly, que equipavam o brinquedo de montar
Magnetix. As peças se atraíram, torceram o intestino
da criança e não se detectou o acidente a tempo.
Em novembro, três crianças, também americanas,
engoliram ímãs soltos de bonecas Polly e tiveram
perfurações intestinais.
Após os acidentes
de novembro, a Mattel fez um recall de 4,4 milhões
de bonecas, 100.000 delas vendidas no Brasil, mas deixou de
fora dezenas de produtos incluídos no recall da semana
passada. Segundo a filial brasileira da empresa, nas bonecas
do recall do ano passado o ímã se soltava com
mais facilidade. Desta vez, por precaução, decidiu-se
recolher todos os brinquedos com ímã aparente
e passar a produzi-los com ímãs embutidos ou
cobertos por resina. Polly, Barbie e Batman não são
as únicas ameaças no quarto de brinquedos. O
lote condenado da Mattel inclui também os carrinhos
do personagem Sarge, do filme Carros. A tinta utilizada
em sua pintura tem alto teor de chumbo. Essa substância,
quando ingerida acidentalmente, pode provocar diarréia,
vômitos e, a longo prazo, danos neurológicos
irreversíveis. O mesmo problema já fora detectado
neste ano em dois lotes de brinquedos nos Estados Unidos.
No início de agosto, a empresa Fisher-Price, uma das
unidades da Mattel, descobriu chumbo em excesso na pintura
de bonecos da Vila Sésamo e da Nickelodeon e retirou
do mercado 967.000 produtos. Em junho, a empresa RC2 teve
de recolher 1,5 milhão de trenzinhos de madeira também
pintados com tinta tóxica.
A Barbie acompanhada do cachorrinho
Tanner é a única no Brasil que está na lista negra, por
causa do ímã na ponta do bastão que ela segura
Em todos esses casos
de recall, inclusive nos três envolvendo a Mattel, os
produtos têm uma característica em comum
foram feitos na China. Os chineses fabricam uma miríade
de produtos a preços mais baixos que os dos países
do Ocidente. Por isso mesmo, grandes empresas usam sua mão-de-obra.
Mas as linhas de produção chinesas têm
alto índice de terceirização, o que às
vezes compromete a qualidade dos produtos. A quantidade de
empresas que fazem peças ou fornecem matéria-prima
para um brinquedo, por exemplo, é tão grande
que em certo ponto se perde o controle sobre o que é
fabricado. Soma-se a isso o alto grau de corrupção
dos órgãos responsáveis pela fiscalização
das indústrias. "As leis que regulam a produção
são frouxas e a fiscalização não
funciona", diz o economista Peter Navarro, autor do livro
The Coming China Wars (As Próximas Guerras Chinesas),
sobre o potencial econômico da China. Recentemente,
lotes de rações para animais domésticos,
pastas de dente, xaropes e remédios fabricados na China,
todos contendo substâncias falsificadas e venenosas,
foram apreendidos na América Central e na Austrália,
depois de fazer centenas de vítimas. Com a proximidade
das Olimpíadas, que se realizam no ano que vem, o governo
chinês iniciou uma campanha para melhorar a imagem de
sua indústria. Fábricas envolvidas em escândalos
foram fechadas ou tiveram suas licenças de exportação
suspensas.
Seguindo as normas
dessa campanha, assim que o recall da Mattel foi anunciado,
o governo chinês ordenou o fechamento das fábricas
envolvidas. Mas isso não garante que as mesmas tintas
tóxicas e os mesmos ímãs que se soltam
não apareçam em outros brinquedos. A enorme
cadeia de fabriquetas anônimas chinesas fornece produtos
a muitas empresas, às vezes até concorrentes.
Alguns calçados da Nike, da Puma e da Adidas, por exemplo,
saem das máquinas de uma mesma companhia de Taiwan
com filial na China. No mesmo dia do recall dos bonecos com
ímãs, foi anunciado nos Estados Unidos que alguns
babadores infantis da loja Toys "R" Us, importados da China,
tinham pinturas com um nível de chumbo três vezes
maior que o permitido. Desde março, já foram
registrados nos Estados Unidos oito recalls de brinquedos
feitos na China. Entre eles, um forninho da marca Hasbro que
causava queimaduras nas crianças. No Brasil, segundo
o Inmetro, nos últimos cinco anos foi realizado apenas
um recall de brinquedo com potencial de provocar acidentes.
Em 2002, retirou-se das lojas um ovo de Páscoa cujo
brinde tinha uma mola que machucava as crianças. No
caso da Polly, da Barbie, do Batman e do carrinho Sarge, os
riscos são bem maiores.
O ímã é
um perigo
Os ímãs
colados nos brinquedos, menores que um bico de chupeta,
ficam aparentes e se soltam com facilidade. Três
crianças nos Estados Unidos os engoliram. A boneca
Polly (abaixo) terá 33 modelos recolhidos
no Brasil