Ao pulverizarem riscos
e ampliarem as
fronteiras da economia, as inovações
financeiras criaram um tipo novo de crise global
Giuliano Guandalini
Mahmoud Raouf
Mahmoud/Reuters
UM SÓ
MERCADO Não há
mais ciclos financeiros localizados. A turbulência
que começou nos Estados Unidos contaminou bolsas
tão distantes e assimétricas quanto a de
Bagdá (acima), no Iraque, e a de Hong Kong,
na China (à dir.)
Há duas semanas,
a economia mundial atravessava um dos períodos de maior
prosperidade nos últimos trinta anos: as empresas nunca
lucraram tanto, a China crescia a 10% ao ano, o Brasil exportava
matéria-prima em volumes e preços recordes.
Em total contraponto a esse ambiente saudável, as bolsas
de valores e as moedas de todo o planeta foram estremecidas
por um terremoto. Em duas semanas, trilhões de dólares
evaporaram dos mercados de ações sem que houvesse
um ataque terrorista, como o de 2001, ou a quebra de um país
emergente como a Tailândia, em 1997, a Rússia,
em 1998, e o Brasil, em 1999. Um pânico de origem incerta
e difusa dominou os agentes financeiros. Bancos europeus e
americanos subitamente cortaram o crédito a empresas,
mesmo as de primeira linha. Fundos de investimento tiveram
de congelar saques. Os principais bancos centrais do mundo
entraram em cena. Despejaram 350 bilhões de dólares
nos mercados americano, europeu e japonês. Na sexta-feira
passada, o banco central americano, o Federal Reserve, também
diminuiu a taxa que cobra para emprestar dinheiro ao sistema
financeiro. Tudo para evitar que o colapso da confiança
no sistema financeiro levasse o mundo a uma recessão.
A ação foi suficiente para estancar o pânico.
Ao menos por enquanto. As lições dessa crise
fora de hora e fora do script de prosperidade da economia
mundial merecem uma reflexão.
A crise foi detonada, pelo que
se sabe até agora, por uma razão inédita:
pelo próprio medo de uma crise. Mais especificamente,
pelo receio de que o vírus da inadimplência no
setor imobiliário americano contaminasse a saúde
da economia mundial. Nos últimos anos, foram criados
fundos de investimento lastreados por papéis que carregavam
os financiamentos de imóveis americanos. Como os juros
estavam baixos na Europa e no Japão, esses fundos,
que ofereciam retornos maiores, tornaram-se atraentes para
os pequenos e grandes investidores. Criou-se uma pirâmide
de investimentos de cerca de 1 trilhão de dólares
por meio da qual a poupança de milhões de empresas
e aposentados, europeus e japoneses, foi usada para financiar
a construção e a compra de casas nos Estados
Unidos. Essas aplicações eram vendidas como
extremamente seguras, mas, na prática, não era
bem assim. Financiamentos imobiliários concedidos com
liberalidade a quem não tinha bom histórico
de crédito minavam todo o edifício. Ele começou
a ruir no início do mês, quando, para aumentarem
a solidez de suas carteiras, alguns fundos de investimento
tentaram se desfazer das hipotecas americanas na esperança
de passar adiante o mico do risco. Quando não conseguiram
fazê-lo, venderam ações de empresas saudáveis,
derrubando as bolsas no mundo. O pânico se alastrou
depois que vários fundos começaram a reconhecer
que seus ativos valiam menos do que haviam informado anteriormente.
Chip Somodevilla/Getty
Images
LAR, AMARGO LAR Comissão
do Senado americano (acima) discute o impacto
econômico da crise imobiliária; imóveis
foram financiados para quem não tinha renda, emprego
nem bens
Jeff Haynes/AFP
Ninguém sabe ainda a extensão
das perdas nem quanto tempo será necessário
para varrer essa bagunça para fora do sistema financeiro.
Em primeiro lugar porque, por meio de complexas estruturas
de créditos que nem existiam há dois anos (veja
dicionário da crise), os bancos pulverizaram
o risco da inadimplência e, com isso, "contaminaram"
fundos de investimento nos cinco continentes. Por isso os
bancos e fundos começaram a desconfiar uns dos outros,
negando-se a emprestar dinheiro a seus pares. Até prova
em contrário, todos passaram a ser suspeitos de estar
montados em cima de créditos podres. Tal desconfiança
levou analistas mais apressados a atribuir a culpa pela crise
à sofisticação do mercado financeiro.
Balela. Essas inovações em contratos financeiros
lubrificam os mercados e os tornam mais seguros. Isso porque
diluem, para milhares de investidores, os prejuízos
dos ciclos de turbulência inerentes ao capitalismo.
É o que se vê hoje. Para não arcarem sozinhos
com o risco de calote nos empréstimos que fizeram a
consumidores americanos de segunda linha, os bancos fracionaram
e empacotaram o crédito referente a esses empréstimos
em títulos, repassados a milhares de fundos de investimento.
A lógica é a seguinte: se os consumidores americanos
pagarem suas hipotecas, os lucros serão dispersados
entre todos os que compraram esses títulos; se houver
calote generalizado, o prejuízo será socializado.
O problema é que, ao dissiparem os riscos, esses mecanismos
também aceleram e aumentam o alcance das fases de turbulência.
"A conseqüência é a rápida transmissão
internacional de qualquer problema de inadimplência.
Isso explica o processo de multiplicação de
perdas, muito além dos Estados Unidos", diz Carlos
Langoni, ex-presidente do Banco Central e diretor do Centro
de Economia Mundial da FGV. Mas não se podem culpar
as inovações financeiras pelos excessos do mercado.
Não era segredo que o setor imobiliário crescia
dentro de uma bolha prestes a estourar. Os americanos haviam
transformado suas casas em verdadeiros caixas eletrônicos,
ao refinanciá-las, levantando mais dinheiro para torrar
em bens de consumo. Ao contrário do que se previa,
a crise começou sem que houvesse uma onda de inadimplência.
Os atrasos no pagamento continuam na faixa de 5%. Por que,
então, a crise foi deflagrada? Ao que tudo indica,
por medo, puro e simples, de que a crise, iminente, estouraria.
E de que a bolha americana estourasse.
A boa notícia é
que a expiação dos pecados imobiliários
americanos ocorre no melhor momento possível. A economia
mundial poderá até sofrer alguma desaceleração,
mas nem os mais pessimistas vêem no horizonte uma recessão
em escala global. Para os economistas, haverá uma depuração
positiva, com o aumento da seletividade na concessão
de créditos. Alguns fundos de investimento foram à
lona, e grandes investidores perderam muito dinheiro. Faz
parte do jogo. "Neste momento, não seria saudável
se todos saíssem ilesos", afirma o economista Fabio
Giambiagi, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(Ipea). Na avaliação da absoluta maioria dos
analistas, no entanto, as perdas deverão ser limitadas
e o impacto da turbulência na economia real ou
seja, no dia-a-dia das pessoas e das empresas deverá
ser moderado. Por outro lado, é praticamente nula a
possibilidade de o mundo voltar a surfar alegremente na maior
onda de liquidez financeira de que se tem notícia.
O pior cenário seria o de uma forte desaceleração
mundial. Isso derrubaria o preço das commodities e
afetaria diretamente a economia brasileira, que tem, na exportação
desses produtos básicos, sua maior fonte de renda externa.
Os países emergentes,
de maneira geral, tiraram lições das crises
passadas e têm hoje finanças bastante mais sólidas.
Mas nem por isso escaparão ilesos, mesmo porque muitos
deles se iludiram com a euforia do período de bonança
e deixaram de fazer reformas importantes e dolorosas. Como
afirmou, com uma boa dose de ceticismo, o professor de Harvard
Ricardo Hausmann, em entrevista ao Wall Street Journal:
"Nos tempos de vacas gordas, todos parecem gênios. Mas
eu atribuiria 80% da melhora vista nos emergentes aos preços
elevados das commodities e ao rápido crescimento da
economia mundial". Se o fluxo de dólares para os emergentes
diminuir drasticamente, serão mais afetados aqueles
países que possuem déficits nas suas transações
internacionais. Entre os mais vulneráveis estão
a África do Sul, a Hungria e a Turquia. O Brasil, ao
contrário, enfrentará a atual turbulência
financeira em uma situação inédita: o
país tem sobra de dólares e o drama da dívida
externa faz parte do passado. Houve, sim, a fuga de capitais
especulativos, o que justificou a alta na cotação
do dólar, que voltou a ficar acima de 2 reais. Isso
não deve ser entendido como o prenúncio de uma
inevitável desvalorização descontrolada
e maciça do real, como a ocorrida há cinco anos,
durante a crise eleitoral. O balanço da crise para
o Brasil, até agora, é um copo meio cheio e
meio vazio. O país não vai quebrar. Mas é
só isso que pode almejar, já que mandou para
as calendas gregas as reformas estruturais que poderiam dar
mais eficiência ao setor público e estimulariam
o crescimento sustentado da economia. Os próximos dias
serão decisivos para saber se o Brasil está
preparado para caminhar com as próprias pernas. É
muito provável que o país se mostre capaz de
vencer essa primeira crise do século XXI. Para espantar
as que inevitavelmente virão, será preciso que
o Executivo, o Legislativo e a iniciativa privada se lancem
de corpo e alma na tarefa de fazer as reformas que, de tão
óbvias, só precisam sair do papel.
O DICIONÁRIO
DA CRISE
Toda
crise econômica populariza termos e expressões próprios do mercado financeiro.
Não é diferente agora
PRIME
Em inglês, o melhor. No mercado de crédito,
é a classificação conferida aos
clientes mais confiáveis, de primeira linha
SUBPRIME
Clientes de segunda linha, menos confiáveis.
Os juros cobrados são maiores, assim como o risco
de calote
MORTGAGE
Hipoteca. No setor imobiliário, serve para garantir
o financiamento imobiliário
SUBPRIME
MORTGAGES Hipoteca nos financiamentos para clientes de
segunda linha
EMPRÉSTIMOS
NINJA Concedidos a pessoas sem renda, emprego ou bens
(No INcome, Jobs or Assets)
CDOs
(Collateralized Debt Obligations) Na tradução literal, "títulos
que têm dívidas como garantias". Por meio
deles, os bancos pulverizaram o risco de calote no setor
imobiliário para milhões de investidores
FUNDOS
HEDGE São fundos para grandes investidores
que prometem rentabilidade bem superior à dos
títulos americanos. Investem em qualquer tipo
de ativo, desde café do Vietnã até
títulos da Eletrobrás. Atualmente estão
entupidos de CDOs de péssima qualidade
CREDIT
CRUNCH Forte contração de crédito,
um cenário em que nem os bons pagadores conseguem
obter novas linhas de financiamento