No que diz respeito
à discussão de idéias, a campanha para
as eleições presidenciais de 2008 está
sendo um tédio, com as tropas americanas do Iraque
como o principal tema dos debates. A diversão fica
por conta da heterogeneidade dos pré-candidatos. Entre
os que têm mais chance de assumir o governo da maior
economia (e também do maior arsenal) do mundo estão
uma mulher, um negro, um mórmon, um veterano da Guerra
do Vietnã e um ator. Embora a política americana
já tenha muitos representantes com essas qualidades,
nunca a amostra de pretendentes que disputam a candidatura
oficial pelos seus respectivos partidos foi tão eclética.
A última
sensação é o ator Fred Thompson, que
atua no seriado de televisão Law & Order.
Com 65 anos, voz de barítono e uma esposa loira 25
anos mais nova, Thompson faz o papel de um promotor público
de Nova York nos episódios da série. Seu personagem
é ultraconservador, assim como ele próprio na
vida real. O ator, que já foi senador pelo estado do
Tennessee duas vezes, tem hoje a preferência de 22%
dos eleitores republicanos, o que o deixa apenas 5% atrás
do ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani. O vigor da candidatura
de Thompson é menos uma demonstração
de suas qualidades do que um reflexo claro da falta de um
nome forte capaz de unir os republicanos. O favorito Giuliani
não vai bem com os carolas de seu partido. Já
teve três mulheres e sustenta bandeiras liberais, como
a defesa dos direitos para homossexuais e do aborto. Em um
país onde um em cada três cidadãos se
declara conservador, esses traços trazem grandes desvantagens
para Giuliani. "Todos os candidatos republicanos têm
problemas potenciais, enquanto Thompson, para muitos, é
apenas um ator", disse a VEJA o cientista político
americano David Lanoue, da Universidade do Alabama.
Na fila dos republicanos
estão também John McCain, senador que permaneceu
cinco anos e meio como prisioneiro de guerra no Vietnã,
e Mitt Romney, um mórmon que tem gasto muita saliva
para contornar a resistência daqueles que desconfiam
das peculiaridades de sua religião. Seu bisavô,
por exemplo, era polígamo. Nos comícios, festas
e prévias entre republicanos que estão ocorrendo
durante o verão americano, há um inegável
desânimo no ar. Em 2003, o eleitorado estava dividido
em partes iguais entre republicanos e democratas. Hoje, só
35% se alinham com os republicanos. A causa mais óbvia
da mudança é a implosão da presidência
de George W. Bush, causada pelo Iraque e por outros desastres,
como a incompetência em prestar socorro às vítimas
do furacão Katrina, em Nova Orleans. Com a popularidade
do presidente em queda livre, é quase certo que a cadeira
presidencial passe para mãos democratas, que já
reconquistaram a maioria no Congresso no ano passado.
Alex Wong/Getty Images
Bush: um desastre republicano
Desse outro lado,
cada um procura explorar da melhor maneira seus atributos
pessoais. A favorita é Hillary Clinton. Sua eleição
criaria uma situação inusitada: o retorno de
Bill Clinton à Casa Branca. Nas duas primeiras vezes
como presidente. Agora, na condição de "primeiro-marido".
Barack Obama, seu oponente entre os democratas, aparece como
o primeiro negro com chance real de chegar à Presidência.
Mesmo assim, sua inexperiência faz com que seis em cada
dez negros prefiram Hillary a ele. Fora as diferenças
pessoais, há realmente poucas divergências entre
as propostas políticas. A situação na
política externa é tão grave que não
permite grandes revoluções. Durante a campanha,
Obama chegou a afirmar que, se eleito, conversaria com líderes
de países párias, como o Irã, o que Hillary
rapidamente apontou como um ato de pura ingenuidade. No início
deste mês, também se dissipou uma diferença
com relação à espionagem oficial de e-mails
e de ligações telefônicas uma postura
que os republicanos sempre defenderam e os democratas sempre
rejeitaram. O Congresso, de maioria democrata, aumentou os
poderes do presidente para bisbilhotar a vida dos cidadãos
em nome da luta contra o terrorismo.
A vantagem democrata
nas pesquisas de intenção de voto deve provocar
uma ruptura histórica no legado eleitoral republicano.
Nas últimas dez eleições, os republicanos
emplacaram nada menos que sete mandatos. À medida que
a campanha progride, a máquina eleitoral republicana
perde visivelmente sua celebrada eficiência. São
os democratas que mais arrecadam dinheiro para campanha. Nos
Estados Unidos, onde eleitores podem contribuir com até
4.600 dólares para seus candidatos preferidos, Hillary
Clinton soma quase o dobro do seu provável adversário,
Rudy Giuliani. O total obtido até agora por todos os
candidatos democratas já supera em 100 milhões
de dólares o dos rivais. A maioria dos americanos começa
a se acostumar com a idéia de ver novamente Hillary
Clinton e Bill na Casa Branca.