Com a condenação
dos líderes da Renascer nos
Estados Unidos, o império da igreja pode ruir
Juliana Linhares
No círculo, os Hernandes
deixam o tribunal em Miami, no intervalo do julgamento
A condenação
de Sonia e Estevam Hernandes a dez meses de reclusão
e catorze meses de liberdade condicional nos Estados Unidos
marca o início de um longo exílio para o casal.
Já para a igreja Renascer em Cristo, que eles fundaram
em 1986, a sentença representa um tremendo baque financeiro.
Desde janeiro, quando a autonomeada bispa e o auto-intitulado
apóstolo foram pegos ao tentar entrar em território
americano com 56 467 dólares não declarados,
a Renascer já foi obrigada a fechar mais de 400 templos
no Brasil e viu sua arrecadação cair em 60%.
Agora, com a condenação do casal pelos crimes
de contrabando de dinheiro e conspiração para
contrabando de dinheiro, os púlpitos da igreja permanecerão
desfalcados de suas estrelas até, pelo menos, 2009.
A sentença proferida na sexta-feira pelo juiz Federico
Moreno, do Tribunal Federal do Sul da Flórida, prevê
que eles cumpram cinco meses da pena de reclusão em
prisão domiciliar e os outros cinco em regime fechado.
Depois disso, Sonia e Estevam Hernandes terão de passar
catorze meses em liberdade condicional, também nos
Estados Unidos, só podendo deixar o país mediante
autorização judicial.
Marcos Fernandes
Dois dias antes de receberem
a sentença, Sonia e Estevam Hernandes fazem pregação televisionada
para fiéis de São Paulo
A decisão
da Justiça passou por um acordo feito em junho entre
os líderes da Renascer e a Promotoria do Distrito Sul
da Flórida. Por esse acordo, chamado plea agreement,
Sonia e Estevam aceitaram se declarar culpados pelos crimes
dos quais são acusados. A declaração
de culpa implica, obrigatoriamente, a condenação
dos réus. Cabe ao juiz, a partir daí, apenas
decidir a pena que eles vão cumprir. A vantagem para
quem opta pelo plea agreement é receber uma
punição mais branda. A sentença é
dada rapidamente pelo juiz e o réu não vai a
júri popular, em que, no caso dos Hernandes, a sentença
poderia ser de até dez anos. Sonia e Estevam Hernandes
só aceitaram se declarar culpados depois de ver sua
primeira estratégia de defesa naufragar. Inicialmente,
eles planejavam afirmar inocência: diriam que omitiram
os dólares por não entender inglês nem
espanhol línguas do formulário de entrada
nos Estados Unidos em que eles declararam não portar
mais do que 10 000 dólares. Promotores do Grupo de
Atuação Especial de Repressão ao Crime
Organizado (Gaeco), do Ministério Público de
São Paulo, no entanto, enviaram aos colegas americanos
duas provas que desmentiram o casal: um CD em que Sonia faz
pregações em espanhol e uma antiga ficha de
admissão de Estevam numa multinacional americana, em
que ele declarava compreender a língua inglesa.
Divulgação
AFP
Sonia, no dia da
prisão, e Estevam, ao lado dos dólares que o casal tentou
esconder: a estratégia inicial era dizer que eles não
entendiam inglês e espanhol
Antes de serem presos
nos Estados Unidos, Sonia e Estevam Hernandes levavam uma
vida de luxos no Brasil, como relataram, em depoimento ao
MP, ex-funcionários da Renascer. No haras da família,
no interior de São Paulo, o casal chegou a ter 259
cavalos de raça. Por alguns dos animais, Felippe, o
filho mais velho do casal, pagou mais de 300.000 reais. Além
de cavalos, o primogênito dos Hernandes era aficionado
de carros: tinha uma coleção de importados que
incluía um Lincoln Navigator blindado, avaliado em
150.000 dólares. Já a bispa gostava de gastar
em roupas e acessórios caros. "As mulheres da família
só se presenteavam com jóias", declarou aos
promotores uma ex-secretária da bispa. Meses antes
de serem presos, Sonia e Hernandes estavam bastante preocupados
com a segurança. João Coutinho, ex-presbítero
da Renascer, disse a VEJA que o casal vinha usando colete
à prova de balas durante os cultos e havia acabado
de comprar quatro carros modelo Fiesta, zero-quilômetro,
para ser utilizados pelos guarda-costas. "Eles deviam para
muita gente e tinham medo de alguém querer se vingar",
afirma Coutinho.
Em Miami, onde
se encontravam em liberdade condicional e vigiada havia sete
meses, Sonia e Estevam levavam uma vida bem mais modesta.
Por estarem proibidos de freqüentar eventos sociais e
deixar o distrito, eles quase nunca usavam os nove carros
que mantêm na garagem da casa localizada em um condomínio
no bairro de Boca Raton. Até a condenação,
os dois eram obrigados a utilizar uma tornozeleira eletrônica,
por meio da qual tinham seus passos monitorados pela Justiça.
A bispa, que vai cumprir a pena de prisão domiciliar
antes de seguir para a cadeia, será obrigada a manter
a sua. Sonia tem horror ao equipamento e, recentemente, ficou
irritada ao saber que, no Brasil, ex-fiéis sugeriram
que fosse gravada nele a frase "Guiada por Deus, seguida pelo
FBI". Em sua penúltima audiência no Tribunal
do Distrito Sul da Flórida, no dia 8 de junho, Sonia
chorou e perguntou ao juiz se não poderia retirar a
tornozeleira. Alegou que costumava usar vestidos e se sentia
constrangida quando as pessoas notavam o equipamento. Ouviu
do juiz que, sim, claro, ela poderia retirar a tornozeleira
desde que se dispusesse a voltar para a cadeia.
Marucia Kintschev/divulgação
O jogador Kaká com a noiva,
Caroline: casamento celebrado pelos Hernandes
Até o ano
passado, a Renascer ocupava o segundo lugar no ranking das
igrejas neopentecostais do país. Chegou a ter 1.200
templos, dos quais vinte no exterior. Entre seus fiéis,
resplandeciam estrelas como o jogador Kaká, da seleção
brasileira. Ele se casou em 2005 em um dos templos da igreja,
em cerimônia oficiada pelos Hernandes. Agora, com a
condenação do casal, o império da Renascer
que, além dos templos, inclui duas fundações,
uma rede de TV, uma gravadora, uma editora de livros e uma
emissora de rádio corre o risco de ruir. O maior
dos templos da igreja, que fica na Rua Lins de Vasconcelos,
em São Paulo, arrecadava até 15 milhões
de reais por mês. Hoje, esse valor não chega
à metade. Desde fevereiro, pelo menos 140 funcionários
das empresas do grupo foram demitidos e centenas de templos
considerados "deficitários" tiveram as portas cerradas
por ordem do próprio Hernandes.
Segundo o promotor
Arthur Lemos, do Gaeco, há a possibilidade de a Justiça
americana deportar o casal no fim do cumprimento da pena de
reclusão. Mesmo nesse caso, nada indica que a situação
dos Hernandes irá melhorar. Desde dezembro de 2006,
vigora no Brasil uma ordem de prisão preventiva contra
eles, baseada em um pedido do Gaeco, que os acusa pelos crimes
de estelionato, formação de quadrilha e lavagem
de dinheiro. "Se viessem hoje para cá, já chegariam
algemados", diz o promotor.