O
cidadão que se vê algemado nas fotos acima é
o empresário Marcelo Alves, dono de uma casa de câmbio
no Rio de Janeiro. Não é um bandido, embora
esteja sendo preso. Quem o abordou foram dois homens vestidos
de policiais. Eles se chamam Tito Lívio Franco e Antônio
Lázaro Franco. Não eram policiais. Ambos têm
a patente de cabo no Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro,
mas, na prática, são bandidos. É mesmo
difícil de entender. Trata-se de uma absoluta inversão
de papéis. A cena inusitada se deu durante uma tentativa
de seqüestro, no bairro da Barra da Tijuca. Tito e Antônio
emboscaram o empresário de forma meticulosamente planejada.
Primeiro, simularam uma compra de dólares, fazendo-se
passar por funcionários de uma concessionária
de automóveis. Cuidaram para que os dados passados
ao telefone pudessem ser checados. Usaram até o nome
de um vendedor da agência. Ao chegar ao local, Alves
descobriu que se tratava de um trote. Tentou voltar rápido
para seu escritório, quando foi interceptado. Os bandidos
queriam seqüestrá-lo, para roubar os 30.000 reais
que carregava com ele. Alves tentou reagir e foi ameaçado
de morte. Sua salvação foram as fotos acima,
feitas pelo fotógrafo Fabio Motta, do jornal O Estado
de S. Paulo. Ao perceberem que estavam sendo fotografados,
os bandidos fugiram levando o dinheiro, mas graças
às fotos eles puderam ser reconhecidos e presos.
A cena cinematográfica
ilustra o estado de fragilidade da gestão de segurança
pública no Rio de Janeiro herança de
décadas de desgoverno , problema que, em graus
diferentes, se disseminou por todas as grandes cidades brasileiras.
Até a semana passada não havia uma imagem que
definisse tão bem essa calamidade. A infiltração
de bandidos nas forças policiais e nas corporações
militares de forma geral criou um nível de contaminação
tão alto que não é fácil distinguir
os agentes da lei dos bandidos. E o contrário também
é verdade. Bandidos vestidos de policiais passaram
a atacar os incautos, em falsas blitze organizadas à
luz do dia. Criou-se uma insegurança camaleônica.
Em levantamento realizado no ano passado pelo Núcleo
de Pesquisa das Violências da Universidade do Estado
do Rio de Janeiro, 9,9% dos moradores do município
do Rio com mais de 15 anos disseram ter sido vítimas
de extorsão praticada por policiais. E não é
só no Rio. A Polícia Civil de São Paulo
já afastou, neste ano, 45 policiais por envolvimento
com a máfia dos caça-níqueis. Em outra
operação, também em São Paulo,
um bombeiro e um PM foram presos com uma quadrilha que roubava
prédios e caminhões. Os dois cediam suas fardas
para que os comparsas entrassem nos imóveis e parassem
caminhões na estrada.
"Está faltando
comando disciplinar nas unidades. Não adianta ter uma
corregedoria rigorosa, se a tropa fica abandonada", diz o
coronel José Vicente da Silva Filho, ex-secretário
nacional de Segurança Pública. A agilidade na
punição a policiais infratores foi fundamental
para cidades como Nova York e Bogotá reduzirem os índices
de violência. No Rio de Janeiro, um policial que comete
um crime leva dois anos para ser expulso. Em São Paulo,
seis meses. Os brasileiros não podem continuar sua
espera sem fim pela limpeza de suas corporações
policiais.