Resultado da perícia
feita pela Polícia Federal
demole a defesa de Renan e mostra que ele
mentiu e deu papéis falsos aos senadores
Otávio Cabral
Roberto Stuckert/Ag. O
Globo
O senador Renan Calheiros: tentativa
de acordo com o governo para deixar a presidência
mas ser absolvido no plenário
A Polícia Federal encaminha
ainda nesta semana ao Conselho de Ética os resultados
da perícia feita nos documentos apresentados pelo senador
Renan Calheiros. O material examinado demole o frágil
mas alardeado álibi do senador, com o qual ele queria
demonstrar ter os recursos financeiros necessários
para pagar suas despesas pessoais sem ter de recorrer aos
préstimos de um lobista de empreiteira. As conclusões
da polícia são devastadoras para Renan. Os peritos
concluíram que não há evidência
de que os recursos para pagar a pensão alimentícia
da filha do senador saíram das suas contas bancárias.
Aos olhos da polícia, a documentação
apresentada fica aquém de comprovar a origem da fortuna
de Renan Calheiros e não confirma sua alegada arrecadação
de 1,9 milhão de reais com a venda de bois. Entre os
papéis de defesa do senador, segundo a polícia,
há notas fiscais frias, recibos falsos e comprovantes
de transações com empresas fantasmas. A perícia
era a única peça de convencimento que faltava
para o conselho concluir o relatório final e pedir
a cassação de Renan Calheiros por quebra de
decoro parlamentar. Não falta mais nada.
Dida Sampaio/AE
Fazenda de Renan: documentos
frios e frigoríficos fantasmas não enganaram
a PF
Sergio Dutti/AE
O relator Casagrande: depois
da perícia, a única possibilidade é
pedir a
cassação de Renan
Na semana passada, dois dos relatores do caso Renan Calheiros
no Conselho de Ética, Renato Casagrande (PSB-ES) e
Marisa Serrano (PSDB-MS), estiveram na sede da Polícia
Federal, em Brasília. Reuniram-se reservadamente com
Clênio Guimarães Belluco, diretor do Instituto
Nacional de Criminalística, e com peritos que analisaram
os documentos de Renan. Ouviram dos peritos que não
há conexão entre as datas dos pagamentos de
pensão feitos à jornalista Mônica Veloso,
mãe da filha de Renan, e os saques na conta do senador.
Ouviram que os documentos apresentados por Renan para justificar
sua fortuna agropecuária não são idôneos,
por envolver empresas e funcionários fantasmas e notas
fiscais frias. Ouviram finalmente que há dúvidas
até se o presidente do Congresso foi realmente dono
do milionário rebanho bovino que diz ter vendido a
frigoríficos que não existem. Depois da reunião
na Polícia Federal, um dos relatores resumiu assim
o pensamento dele e dos colegas do Conselho de Ética:
"Apresentar documentos falsos aos pares do Senado é
uma clara quebra de decoro parlamentar. Usar um lobista para
pagar despesas pessoais é uma clara quebra de decoro
parlamentar. A única possibilidade é pedir a
cassação de Renan".
Arquivo O Jornal
Renan recebe Lyra no Planalto
quando ocupou a Presidência: sócios e amigos
O laudo técnico confirma
um relatório preliminar feito pela própria PF
no fim de junho. Ele foi dividido em quatro partes. Na primeira,
são apresentadas a estrutura do trabalho e as questões
levantadas pela perícia. Na segunda, faz-se um histórico
do primeiro laudo e detalha-se seu cruzamento com o segundo.
Na terceira parte, listam-se os documentos analisados. Por
fim, os peritos dão resposta técnica a cada
uma das trinta perguntas feitas pelo Conselho de Ética
sobre as negociações de gado do presidente do
Senado. Dois terços das respostas são fatais
para a defesa de Renan e envergonhariam qualquer cidadão
honesto. Depois de tomarem conhecimento das informações
periciais, os senadores encarregados de determinar o futuro
do processo em curso contra Renan descrevem como iminente
o desenlace do caso. Até o senador Almeida Lima, do
PMDB, terceiro relator do caso, nomeado com o claro propósito
de garantir a absolvição de Renan, já
aceita a tese da punição do aliado. Almeida
Lima gostaria de circunscrever a punição a uma
advertência, mas deve ser levado a aceitar o pedido
de suspensão de mandato. O próprio senador já
dá como certa a aprovação do relatório
com o pedido de sua cassação na votação
do Conselho de Ética. Renan aposta tudo agora na votação
em plenário, em que o voto secreto permitiria a seus
simpatizantes salvar-lhe o pescoço sem se expor ao
escárnio público.
Dida Sampaio/AE
Tuma, o corregedor do Senado:
a situação de Renan ficou pior
O cerco aos negócios escusos do senador aumenta a cada
dia. Além dos bois fantasmas, o Conselho de Ética
vai instaurar um novo processo contra Renan com o objetivo
de investigar o uso de "laranjas" para ocultar a compra de
um jornal e duas emissoras de rádio em Alagoas. O usineiro
João Lyra, ex-sócio de Renan em uma empresa
de comunicação, na semana passada, prestou ao
senador Romeu Tuma, corregedor do Senado, depoimento em que
confirmou a compra de um jornal e duas rádios em sociedade
com o senador. Valor do negócio: 2,6 milhões
de reais. A parte de Renan, metade, foi paga em dinheiro vivo.
Para manter o anonimato da transação, Renan
utilizou dois laranjas um primo e um assessor do Senado.
João Lyra contou ainda que, quando a sociedade foi
desfeita, em 2005, ele ficou com o jornal e Renan com a rádio.
Como parte do acerto, Renan prometeu conseguir a renovação
da concessão vencida de outra emissora de João
Lyra. Em 24 de junho, o presidente do Senado mandou uma carta
a João Lyra comunicando a renovação da
concessão. Tudo conforme o combinado. Homem de palavra,
esse Renan.
A defesa de Calheiros foi centrada
na semana passada na desqualificação do acusador,
João Lyra. Renan afirmou que o usineiro responde a
diversos processos e que faz as denúncias motivado
por ressentimentos políticos. Voltou também
a negar que tivesse negócios e até mesmo relações
pessoais com o usineiro. De fato, os dois romperam em 2005,
mas as provas dos negócios e da amizade são
mais que evidentes. O usineiro entregou a Romeu Tuma cópias
de documentos e recibos da operação de compra
das emissoras de rádio e do jornal assinados por Tito
Uchôa, primo-laranja de Renan Calheiros. Lyra também
confirmou que deixava um jato e um helicóptero à
disposição do senador e nunca cobrou nada por
isso. As provas de que a amizade entre os dois era intensa
são muitas e indeléveis. Em 2006, ao assumir
interinamente a Presidência da República durante
quatro dias, Renan convidou João Lyra para uma reunião
no Palácio do Planalto. O fotógrafo oficial
foi chamado para registrar o encontro. Dias depois, o usineiro
recebeu a recordação do momento histórico.
Acuado pelo acúmulo de
evidências irrefutáveis, Renan autorizou seus
aliados a negociar alternativas à cassação.
A exemplo dos negócios do senador, são todas
saídas heterodoxas. Uma delas é tão estapafúrdia
que poderia ser chamada de Operação Mafrial,
em homenagem ao agora notório frigorífico alagoano,
aquele das notas frias e dos bois de ouro. Envolveria um acordo
entre governo e oposição, e, por seus termos,
os parlamentares teriam de aprovar o relatório de Almeida
Lima sugerindo apenas a suspensão do mandato de Renan
por seis meses. Nesse período, assumiria o vice-presidente,
o petista Tião Viana. Renan ficaria no limbo, mas preservaria
seus direitos políticos. A segunda alternativa também
envolveria uma aliança entre peemedebistas e a base
governista. Eles fechariam questão sobre a absolvição
do senador em plenário. Em troca, Renan se afastaria
da presidência e apoiaria a eleição de
um petista para o cargo. Consultados, os ministros Walfrido
Mares Guia, das Relações Institucionais, e Tarso
Genro, da Justiça, teriam dado sinal verde ao acordo.
Essas saídas são mais um bofetão na sociedade.
Será tão difícil de explicá-las
quanto responder à pergunta: por que ainda acreditar
em Renan?