Ministros do STF
denunciam as suspeitas de
que estão sendo grampeados e apontam o
dedo para a banda podre da Polícia Federal
Policarpo Junior
Montagem com fotos de
Masao Goto Filho,
Selmy Yassuda, Marcelo Kura, Ricardo
Stuckert e Ana Araujo
Criado com o nome de Casa da Suplicação do Brasil
em 1808, o Supremo Tribunal Federal já enfrentou momentos
duros em seus dois séculos de história. Já
foi vítima de dramáticas deformações,
como aconteceu nas décadas de 1930 e 1940, quando Getúlio
Vargas nomeava ministros sem consultar ninguém, e já
esteve emparedado pela ditadura militar iniciada em 1964,
que chegou a expulsar três ministros da corte. Agora,
é a primeira vez que, sob um regime democrático,
os integrantes do Supremo Tribunal Federal se insurgem contra
suspeitas de práticas típicas de regimes autoritários:
as escutas telefônicas clandestinas. Sim, beira o inacreditável,
mas os integrantes da mais alta corte judiciária do
país suspeitam que seus telefones sejam monitorados
ilegalmente. Nas últimas semanas, VEJA ouviu sete dos
onze ministros do Supremo e cinco deles admitem publicamente
a suspeita de que suas conversas são bisbilhotadas
por terceiros. Pior: entre eles, três ministros não
vacilam em declarar que o suspeito número 1 da bruxaria
é a banda podre da Polícia Federal. "A Polícia
Federal se transformou num braço de coação
e tornou-se um poder político que passou a afrontar
os outros poderes", afirma o ministro Gilmar Mendes, numa
acusação dura e inequívoca.
As suspeitas de
grampos telefônicos estão intoxicando a atmosfera
do tribunal. Na quinta-feira passada, o ministro Sepúlveda
Pertence pediu aposentadoria antecipada e encerrou seus dezoito
anos de tribunal. Poderia ter ficado até novembro,
quando completa 70 anos e teria de se aposentar compulsoriamente.
Muito se especulou sobre as razões de sua aposentadoria
precoce. Seus adversários insinuam que a antecipação
foi uma forma de fugir das sessões sobre o escândalo
do mensalão, que começam nesta semana, nas quais
se discutirá o destino dos quadrilheiros entre
eles o ex-ministro José Dirceu, amigo de Pertence.
A mulher do ministro, Suely, em entrevista ao blog do jornalista
Ricardo Noblat, disse que a saída de seu marido deve-se
a problemas de saúde. O ministro, no entanto, diz que
as suspeitas de que a polícia manipula gravações
telefônicas aceleraram sua disposição
em se aposentar. "Divulgaram uma gravação para
me constranger no momento em que fui sondado para chefiar
o Ministério da Justiça, órgão
ao qual a Polícia Federal está subordinada.
Pode até ter sido coincidência, embora eu não
acredite", afirma.
Fotos Ana Araujo
"É intolerável essa
atmosfera que vivemos, com a conduta abusiva de agentes
ou órgãos entranhados no aparelho de estado. A interceptação
telefônica generalizada é indício e ensaio de uma política
autoritária." CELSO
DE MELLO, ministro do STF
Os temores de grampo
telefônico com patrocínio da banda podre da PF
começaram a tomar forma em setembro de 2006, em plena
campanha eleitoral. Na época, o ministro Cezar Peluso
queixou-se de barulhos estranhos nas suas ligações
e uma empresa especializada foi chamada para uma varredura.
Ela detectou indícios de monitoramento ilegal nos telefones
de Peluso e do ministro Marco Aurélio Mello e na linha
de fax do ministro Marcelo Ribeiro, do Tribunal Superior Eleitoral.
Com a divulgação do caso, a PF entrou em cena.
Em apenas nove dias, com agilidade incomum, os agentes concluíram
que não havia grampo e indiciaram o dono da empresa
por falsa comunicação de crime. "Fui interrogado
durante três dias pela PF", diz o empresário
Enio Fontenelle, que reafirma a existência de indícios
de grampos. Havia interesse de um candidato ou partido por
causa da eleição, tema de que tratavam os ministros
Marcelo Ribeiro e Marco Aurélio? Alguém na Polícia
Federal queria monitorar o ministro Peluso, que na época
cuidava de uma das ações da Polícia Federal,
a Operação Furacão?
Recentemente, as
suspeitas se robusteceram. O ministro Marco Aurélio
Mello recebeu uma mensagem eletrônica de um remetente
anônimo. O missivista informava que os telefones do
ministro estavam grampeados e que policiais ofereciam as gravações
em Campo Grande. O mesmo estaria acontecendo com conversas
telefônicas do ministro Celso de Mello. Em outros tempos,
uma denúncia anônima e tão pouco circunstanciada
não receberia atenção. No clima atual,
Marco Aurélio pediu uma investigação.
O caso foi investigado, mas a Polícia Federal
ela, de novo concluiu que a mensagem era obra de estelionatários
fazendo uma denúncia falsa. Há três meses,
quando trabalhava com a Operação Navalha, o
ministro Gilmar Mendes adquiriu a convicção
pessoal de que seus telefonemas são monitorados. "O
procurador Antonio Fernando me ligou avisando que a operação
era complexa e precisava manter algumas prisões", lembra
o ministro. Ele respondeu que não podia manter certas
prisões por inadequação técnica.
"Pouco depois, uma jornalista me telefonou perguntando se
eu ia mesmo soltar todos os presos." Surpreso, o ministro
ligou para o procurador, que lhe garantiu não ter comentado
o assunto com ninguém. Conclui Mendes: "Estavam me
acompanhando pelo telefone".
"A Polícia Federal se
transformou num braço de coação e tornou-se um poder político
que passou a afrontar os outros poderes. Basta ver o caso
Vavá. Constrangeram até o presidente. Hoje, falo ao telefone
sabendo que a conversa é coletiva." GILMAR
MENDES, ministro do STF
Com a libertação
de alguns detidos na Operação Navalha, o ministro
Gilmar Mendes julga ter conquistado em definitivo a antipatia
da banda podre da Polícia Federal e suspeita
que, a partir daí, começou a ser perseguido.
"Apareceram notas em jornais e sites de notícias dizendo
que eu estava soltando alguns dos presos porque um dos envolvidos
era meu amigo. Plantaram que havia conversas gravadas que
provavam isso", rememora. Publicou-se inclusive que o nome
do ministro estava na lista das autoridades que receberam
mimos da empreiteira Gautama, que coordenava a ladroagem investigada
pela Operação Navalha. "Recebi telefonemas de
jornalistas garantindo que a Polícia Federal tinha
confirmado que meu nome estava na lista", diz. Na tal lista,
constava o nome de Gilmar Melo Mendes, um engenheiro que não
tinha nada a ver com o ministro do STF, exceto pela homonímia.
"Isso foi uma canalhice da polícia para tentar me intimidar",
acusa o ministro. Ele levou o caso ao ministro da Justiça,
Tarso Genro, e pediu providências à presidente
do STF, Ellen Gracie. Diz o ministro: "Quando a Justiça
começa a ter medo de conceder um habeas corpus, o problema
é da sociedade. Esse medo hoje já é perceptível".
É farta
a crônica de grampos clandestinos no Brasil, inclusive
nas mais altas esferas do poder. Já se encontrou grampo
dentro do próprio gabinete presidencial no Palácio
do Planalto (João Figueiredo, 1983). Já se soube
de presidente da República cuja residência estava
inteiramente monitorada (Fernando Collor, 1992, Casa da Dinda).
Já se ouviu a voz grampeada de um vice-presidente da
República a cantarolar palavras melosas para uma jornalista
casada (Itamar Franco, 1992). Já houve presidente da
República grampeado autorizando o uso de seu nome nos
bastidores do leilão das teles (Fernando Henrique Cardoso,
1998). A fartura de casos pode levar à idéia
de que a grampolândia é simplesmente um dado
inevitável da vida nacional. Na verdade, esse pensamento
tolerante contribui para minimizar o problema e, com isso,
perpetuá-lo. Os sinais de que uma banda podre da Polícia
Federal está querendo intimidar os ministros da mais
alta corte do Poder Judiciário brasileiro são
gravíssimos e sugerem que o país pode
estar sendo presa das garras invisíveis de um embrionário
estado policial.
Beto Barata/AE
O perito Ricardo Molina, que
já encontrou indícios de fraude em gravações feitas pela
PF
"O estado policial
é a negação das liberdades, indiferente
de posição social ou hierarquia. É uma
antítese do sistema democrático", diz o ministro
Celso de Mello, cuja preocupação pessoal com
grampos telefônicos é quase nula. O ministro
fala pouco ao telefone fixo, não usa celular, mas se
revolta com o clima de intimidação no Supremo.
"É intolerável essa atmosfera que vivemos, com
a conduta abusiva de agentes ou órgãos entranhados
no aparelho de estado. A interceptação telefônica
generalizada é indício e ensaio de uma política
autoritária", diz o ministro. "O Judiciário
não pode ficar refém de ações
policiais, sob pena de, acusado, acabar autorizando atos arbitrários",
afirma Cezar Britto, presidente da Ordem dos Advogados do
Brasil (OAB) e um dos primeiros a denunciar vestígios
de um estado policial no país. "Se o magistrado decide
a favor dos estados e da União, ele está certo.
Se decide a favor do cidadão, é acusado de receber
propina. A lógica perversa segundo a qual o estado
sempre tem razão, e os cidadãos nunca, é
um símbolo maior desse estado policial", diz o advogado.
Os abusos no comportamento
da PF, no entanto, não se esgotam nas suspeitas de
grampo ilegal. Também há suspeitas de manipulação
do conteúdo de gravações feitas legalmente.
Pela lei, os policiais precisam transcrever todo o diálogo
telefônico monitorado, e não apenas um resumo.
"Hoje, pinça-se o que a polícia quer e o que
acha que deve ser informado. Os juízes decidem com
base em extratos. Isso é muito arriscado", diz o ministro
Marco Aurélio. Num caso em exame no Supremo, a PF informou
o resumo de uma conversa telefônica, legalmente monitorada,
entre um ministro do STJ e sua amante. Confrontando-se o extrato
com a íntegra das gravações, descobriu-se
que o motorista do ministro é quem estava falando com
a amante. Em outro caso temerário, o perito Ricardo
Molina, especialista em fonética forense, encontrou
indícios de que a PF pode ter fraudado, possivelmente
por meio de uma montagem, um diálogo que serviu de
prova contra um juiz, acusado de negociar sentenças
judiciais. "Não há segurança sobre a
autenticidade das gravações", afirma Ricardo
Molina.
Fotos Ana Araujo
"Hoje você não sabe
mais quem está ouvindo suas conversas. Um dia minha irmã
ligou para falar do espólio de meu pai. Repeti várias
vezes que os valores se referiam ao espólio. Era para
quem estava ouvindo entender." MARCO
AURÉLIO MELLO, ministro do STF
Com sua experiência
no ramo, o perito conta que já encontrou gravações
da PF com duração inferior à registrada
na conta telefônica. Só há duas hipóteses
para explicar esse descompasso: ou a companhia telefônica
registrou que o telefonema teve uma duração
maior do que a real ou a Polícia Federal eliminou um
trecho do telefonema. Em outro caso, um doleiro denunciou
que fora extorquido pela polícia e, como indício
probatório, disse que, pelo telefone, narrara o caso
a sua mulher. Como o doleiro estava grampeado, bastava à
Justiça requerer a gravação. Em contato
com a companhia telefônica, a Justiça soube que,
de fato, o doleiro falara com sua mulher no dia e hora informados
por ele, mas a polícia, por "problemas técnicos",
eliminara a gravação dos arquivos... Os ministros
do Supremo também reclamam de que agentes federais
vazam para a imprensa conversas telefônicas legais,
nesse caso para constrangê-los. Houve o caso
que tanto abateu Pertence. Em janeiro passado, veio a público
um diálogo entre um advogado e um lobista, ambos sob
investigação da PF, no qual se sugeria que Pertence
receberia 600.000 reais para tomar determinada decisão.
Era mentira, mas a suspeita demorou a se dissipar. "Eu virei
uma noite lendo comentários na internet. Chamaram-me
de tudo que é nome. É muito dolorido", diz ele.
"O que mais me preocupa é que setores do Ministério
Público e da polícia usam a imprensa como instrumento
de desmoralização. O efeito é criar um
fato consumado."
Dos sete ministros
ouvidos por VEJA, apenas Eros Grau e Cármen Lúcia
Antunes Rocha não suspeitam de grampos em seus telefones.
"Há uma suspeita generalizada de que nossos telefones
são grampeados. De minha parte não há
o que esconder, mas temos de medir as palavras com fita métrica",
diz o ministro Carlos Ayres Britto. "Hoje, você não
sabe mais quem está ouvindo suas conversas", conta
o ministro Marco Aurélio. "Um dia minha irmã
ligou para falar do espólio de meu pai. Repeti várias
vezes que os valores se referiam ao espólio. Era para
quem estivesse ouvindo entender. Se um ministro do STF tem
de tomar essas cautelas, o que não sofre um juiz de
primeira instância?" Nem é preciso descer aos
níveis inferiores da Justiça. No Superior Tribunal
de Justiça, que também fica em Brasília,
o ministro Felix Fischer não autorizou a prisão
de alguns investigados. Em seguida, começaram a aparecer
notas na imprensa de que seu filho, um advogado, estaria sendo
investigado sob suspeita de venda de sentenças. Felix
Fischer chamou o delegado do caso, acusou a PF de tentar intimidá-lo
e só não lhe deu uns sopapos porque foi contido
pelos presentes.
"Divulgaram uma gravação
para me constranger no momento em que fui sondado para
chefiar o Ministério da Justiça, órgão ao qual a Polícia
Federal está subordinada. Pode até ter sido coincidência,
embora eu não acredite." SEPÚLVEDA
PERTENCE,
ministro do STF
As suspeitas de
comportamento criminoso da banda podre da Polícia Federal
não podem servir para desacreditar as ações
policiais dos últimos tempos. No atual governo, a Polícia
Federal já fez centenas de operações
e tem mostrado um vigor digno de aplauso. As falhas que acontecem
aqui e ali têm sido usadas para que alvos legítimos
das investigações deflagrem a velha campanha
de desmoralizar a polícia, apenas como meio de se livrarem
eles próprios de investigações. "A força
que a Polícia Federal vem adquirindo institucionalmente
está sendo conquistada porque em regra tem cumprido
a lei", afirma o ministro da Justiça, Tarso Genro.
"Os eventuais erros ou injustiças que a PF tenha cometido
foram originários dela não como instituição
policial, mas de pessoas que ainda não se integraram
plenamente na ética pública de um estado democrático
de direito", completa o ministro. O ideal é que as
"pessoas desintegradas" sejam identificadas e devidamente
punidas. Só assim se pode impedir que a sombra de um
estado policial se projete sobre o estado democrático
tão duramente conquistado.
Ed Ferreira/AE
Operação Navalha: certeza de
Gilmar Mendes sobre grampos clandestinos
"Há uma suspeita generalizada
de que nossos telefones são grampeados. De minha parte
não há o que esconder, mas temos de medir as palavras
com fita métrica." CARLOS
AYRES BRITTO,
ministro do STF
Sergio Zacchi/Folha
Imagem
"Eu vejo muita preocupação
na corte. A imagem dominante é que a polícia prende e
a Justiça solta. A lei não vale mais nada. A sociedade
está abrindo mão de suas conquistas." EROS
GRAU, ministro do STF