O maior dos primatologistas
mostra que traços
"exclusivamente humanos" também se encontram
nos outros primatas
Marcelo Marthe
O holandês
Frans de Waal, de 59 anos, é a maior autoridade mundial
no estudo dos primatas a ordem do reino animal à
qual pertencem o homem e os macacos. Desde 1977, ele se devota
à observação da psicologia e das relações
sociais de espécies como os chimpanzés. Com
suas pesquisas, De Waal demonstra que a distância entre
o ser humano e os animais é infinitamente menor do
que muitos cientistas e filósofos sempre supuseram
o que reafirma as idéias do inglês Charles
Darwin sobre a evolução. No livro Eu, Primata
(recém-lançado no Brasil pela Companhia
das Letras), ele revela como os padrões de conduta
na política e até a noção de solidariedade
são verificados nos parentes do homem e têm,
portanto, uma raiz biológica comum. Em seu lançamento
mais recente, Primates and Philosophers (Primatas e
Filósofos, inédito no país), De Waal
vai ainda mais longe: defende que a moralidade, atributo que
por muito tempo se acreditou ser, por excelência, humano,
também está presente em outros primatas. De
seu laboratório na Universidade Emory, na cidade americana
de Atlanta, o pesquisador concedeu entrevista por telefone
a VEJA em que fala das semelhanças do homem com uma
espécie considerada agressiva como os chimpanzés
mas também com os dóceis e libidinosos
macacos bonobos.
Veja
Para muitas pessoas, sobretudo religiosas, a idéia
de que homens e macacos têm parentesco é ofensiva.
Quão próximos estamos dos outros primatas, segundo
a ciência mais recente? De Waal Até
cinqüenta anos atrás, a ciência ainda achava
que o homem era o único animal com inteligência
para usar e fabricar ferramentas. Imaginava-se também
que somente nós éramos capazes de autoconhecimento
e de antecipar situações. Ou ainda de nos comunicar
com os demais da espécie por meio de símbolos.
Todas essas proposições foram condenadas ao
ocaso graças ao estudo aprofundado dos primatas. Há
diferenças, é óbvio, entre o homem e
seus parentes. Mas elas são muito menores do que se
pensava e só foram impressas ao nosso comportamento
de forma lenta e gradual. Para ter uma compreensão
completa sobre nossa espécie, é preciso analisá-la
dentro de um panorama de evolução biológica
que precede sua existência. A observação
científica demonstra que, para além das semelhanças
anatômicas, também comungamos nossos traços
comportamentais com outros primatas. Conhecê-los é
também um exercício de autodescoberta.
Veja
O senhor afirma que nem mesmo a moral é um atributo
exclusivo dos humanos. Por que se pode dizer isso? De Waal Porque em
outros primatas já se encontram os alicerces da moralidade,
como a capacidade de empatia, a reciprocidade e mesmo o senso
de justiça. Não digo que esses outros animais
sejam seres morais como nós. Mas não há
dúvida de que eles possuem as ferramentas fundamentais
com que se constrói um sistema moral. É um erro,
portanto, julgar que a moralidade do homem surgiu do nada
ou que é somente um produto da religião e da
cultura. Ela tem raízes em nossa psicologia, que é
muito similar à psicologia dos primatas em geral. Podemos
rastrear sua origem até um ancestral em comum com chimpanzés
e bonobos, 6 milhões de anos atrás.
Veja O
que muda com a descoberta de que a moral é um produto
da seleção natural? De Waal Isso põe em xeque, por exemplo,
a teoria sobre as sociedades humanas elaborada pelo inglês
Thomas Hobbes no século XVII. Ele acreditava que, no
estado natural, todos os homens estavam em guerra entre si
e que a moral foi inventada com o intuito de permitir a convivência
pacífica. A ciência hoje mostra que isso é
um mito. Viemos de uma longa linhagem de animais que eram
altamente sociáveis. Foi a natureza que criou as bases
para a vida em sociedade tal e qual conhecemos, e não
o homem. Mesmo o modelo econômico capitalista tem uma
explicação darwinista. Experiências com
os macacos já mostraram que entre eles também
vigora um sistema de incentivo aos indivíduos que se
aplicam em suas tarefas. O homem só aperfeiçoou
algo que já constava em sua natureza.
Veja O
senhor afirma que Maquiavel poderia ter escrito seu tratado
sobre o poder mirando-se nos chimpanzés. Somos mesmo
tão iguais a eles nesse aspecto? De Waal Sim, os
chimpanzés fazem política de maneira muito semelhante
à nossa. Num grupo de galinhas ou entre boa parte dos
outros animais, cada um alcança seu lugar no ranking
do poder de acordo com sua força, destreza ou outra
qualidade decisiva. Pode-se chamar isso de hierarquia
mas não de um sistema político. Já entre
homens e chimpanzés as disputas não são
ditadas puramente pela capacidade física dos indivíduos,
mas também e principalmente por sua habilidade
em formar coalizões. Alguém terá mais
chance de alcançar uma posição dominante
dentro do grupo quanto mais numerosos e importantes forem
seus amigos. E também, é claro, quanto maior
for seu poder de convencimento para levar esses simpatizantes
a defendê-lo. Para obter o poder, não é
suficiente ser bom de briga: é preciso cultivar relações.
E, ainda, ter algo a oferecer em troca aos aliados. Esse tipo
de transação é mais claro nos chimpanzés
do que em qualquer outro animal. Bem antes de Maquiavel eles
já sabiam que dividir os inimigos é a melhor
forma de conquistar o poder.
Veja
Como isso se dá na prática? De Waal Eles
formam parcerias (ainda que possam se voltar uns contra os
outros ao sabor das conveniências), traçam estratégias
de longo prazo e minam as coalizões dos adversários.
Em minhas experiências, coloco chimpanzés na
frente do computador e, por meio de um joystick igual aos
dos videogames, testo suas reações diante de
imagens de semelhantes. Eles demonstram ser tão bons
no reconhecimento facial quanto os homens (ao contrário
do que se pensou por muito tempo). Mas o mais surpreendente
é que têm reações diferentes de
acordo com o grau de ascendência política dentro
do grupo do indivíduo que lhes é apresentado.
Não raro, suas disputas de poder envolvem altas doses
de drama. É comum ver coalizões sólidas
entre dois machos ruir em razão da atração
de ambos pela mesma fêmea. Ou então fêmeas
se valendo de seu favoritismo e poder de sedução
para fazer intriga e incitar o ciúme.
Veja No
livro Eu, Primata, o senhor comenta que a reação
do ex-presidente americano Richard Nixon ao renunciar foi
igual à de um chimpanzé destronado da posição
de macho alfa. O que os políticos humanos herdaram
de seus parentes primatas? De Waal A política
é uma das áreas em que as semelhanças
de comportamento entre o homem e os macacos são mais
evidentes. Nossa linguagem corporal é basicamente a
mesma dos macacos e os políticos expressam essa
verdade como poucas categorias. Isso é flagrante no
jeito como eles inflam o peito e empostam a voz para falar
em público. Também não é à
toa que muitos políticos revelam a obsessão
de nunca parecer pequenos. O ex-premiê italiano Silvio
Berlusconi é um sujeito baixo e, por isso, não
dispensava um banquinho nas ocasiões em que precisava
ser fotografado ao lado de outros líderes. Isso vem
de nossa raiz primata. Para ser poderoso e intimidante, é
preciso parecer poderoso e intimidante. Há ainda outro
traço inconfundível. Em tese, as disputas políticas
deveriam ser travadas com base nos argumentos e na habilidade
retórica. Mas, do Japão aos Estados Unidos (e
imagino que também no Brasil), não é
raro que discussões acaloradas nos parlamentos descambem
para a agressão física. Embora acreditemos que
nossas democracias são sofisticadas o suficiente para
resolver as diferenças no campo dos argumentos, o instinto
primata volta e meia nos trai.
Veja Esse
instinto também se faz sentir no ambiente de trabalho? De Waal De forma
muito cristalina. Tempos atrás, o CEO da Microsoft,
Steve Ballmer, teve a reação esperada de um
macho dominante acuado diante das investidas do Google para
tirar profissionais talentosos dos quadros da empresa. Ele
atirou uma cadeira no chão e disse que daria uma lição
nos "garotos" que são donos da rival. Acessos de fúria
como esse não são diferentes dos que ocorrem
entre os chimpanzés. Por mais que vejamos esse tipo
de comportamento como algo negativo, ele de fato produz um
efeito intimidante que nos afeta, da mesma maneira que acontece
com qualquer primata.
Veja
Por que a descoberta dos macacos bonobos revolucionou o
estudo dos primatas? De Waal Os pesquisadores
travaram contato com os bonobos pela primeira vez nos anos
20, mas, na época, acharam que estavam diante apenas
de uma variação nanica do chimpanzé.
Ninguém imaginava quão especiais são
esses macacos. Os bonobos, como se sabe hoje, são a
antítese dos chimpanzés: em vez de se basearem
na força, suas relações sociais se lastreiam
na contenção dos conflitos e no uso do sexo
como uma ferramenta de distensão acionada a todo instante.
Só se começou a perceber isso nos anos 50 e
não faz mais que quinze anos que os estudos mais profundos
de seu comportamento trouxeram à tona os primeiros
frutos. O resultado foi uma guinada espetacular naquilo que
se sabia sobre os primatas, incluindo aí nossa espécie.
Até então, todas as comparações
entre os homens e seus parentes se baseavam nos chimpanzés.
O fato de haver outra espécie tão distinta com
o mesmo grau de parentesco mudou esse prisma.
Veja O
que temos em comum com os bonobos? De Waal Gosto
de brincar dizendo que, à maneira do Dr. Jekyll e do
Mr. Hyde, a personalidade de chimpanzés e a de bonobos
estão introjetadas no homem. Com os primeiros, comungamos
a agressividade, o comportamento territorial, o gosto pelo
poder e a dominância dos indivíduos do sexo masculino.
Com os bonobos, compartilhamos traços como o alto nível
de empatia e a tendência à resolução
dos conflitos por outras vias que não a da força.
É por esse contraste que gosto de dizer que o homem
é um animal bipolar. Quando somos maus, conseguimos
cometer barbaridades piores que as praticadas por qualquer
outro ser já observado. Mas, ao exercitarmos nosso
lado bom, também vamos além de todas as demais
espécies.
Veja Os
bonobos têm uma vida sexual incrivelmente movimentada.
O que eles revelam a respeito do papel do sexo na vida social?
De Waal Entre
os bonobos, qualquer disputa séria é deixada
de lado para dar vazão à libido. O desprendimento
e a liberalidade deles nesse campo são capazes de fazer
a maioria das pessoas corar, mas há uma semelhança
crucial: tanto nós quanto eles fazemos amor por prazer.
Eles constituem a prova biológica de que, ao contrário
do que querem fazer crer tantas religiões, manter relações
sem fins reprodutivos é, sim, uma característica
inerente ao homem. Mais que um instrumento de prazer, o sexo
funciona como uma moeda de troca social. A liberdade com que
os bonobos praticam sexo dá às fêmeas
desses macacos um poder de influência enorme. Isso talvez
ajude a explicar a repressão da sexualidade em tantas
culturas humanas e o fato de o matriarcado ser uma
exceção entre nós.
Veja O
poder e a violência são as melhores armas para
vencer na evolução? De Waal Não necessariamente.
Tome-se o caso dos bonobos. Eles são animais muito
bem-sucedidos, embora possam ser considerados os hippies primatas.
Levam uma vida folgada e sem rusgas. As sociedades humanas,
assim como as dos chimpanzés, se baseiam na luta pelo
poder e nos embates masculinos. Mas, ainda assim, em ambas
as espécies os machos não são apenas
brigões. A capacidade de cooperação entre
eles é um traço não menos importante.
Tanto quanto os traços que possam ser considerados
negativos, o lado bom do ser humano é uma vantagem
adaptativa depurada no decorrer de milhões de anos.
Veja
As guerras humanas encontram paralelo em outras
sociedades de primatas? De Waal Entre os
chimpanzés, é comum que grupos de machos se
unam para defender suas posses ou invadir outros territórios.
São investidas que não raro terminam em banhos
de sangue. Mas a guerra como uma atividade organizada é
algo que não se verifica em nenhum de nossos parentes.
Ainda assim, não se trata de uma marca exclusiva dos
homens, é preciso esclarecer. As formigas são
os bichos que mais se devotam à guerra no planeta.
Possuem exércitos regulares, com tarefas bem definidas
para cada pelotão, e promovem matanças de grupos
rivais. Mas nem entre elas existe algo equivalente ao genocídio,
o assassinato maciço de outro grupo da mesma espécie.
Só mesmo o homem é capaz disso em todo o mundo
animal.