"O comércio
ambulante, essa forma tão
antiga de negociação, está se unindo
à
internet, esse mecanismo tão inovador
de comunicação, e combatendo, cada um a
seu modo, um mesmo e obscuro mal: a censura"
Nos camelôs
de São Paulo, pode-se encontrar o vídeo do filme
proibido de Xuxa por apenas 5 reais. A notícia saiu
na semana passada. Junto, veio a informação
de que, além de não conseguir desarmar os camelôs,
Xuxa também está encontrando enormes dificuldades
de impedir que seu filme proibido apareça no YouTube.
O YouTube diz que tenta cumprir a sentença judicial,
expurgando o longa de seus arquivos, mas admite que é
difícil fazê-lo diante dos mais de 60.000 vídeos
que são postados todos os dias no site.
O filme em questão
é Amor Estranho Amor, de 1982, dirigido por
Walter Hugo Khouri (1929-2003). Em seu papel de estréia
no cinema, Xuxa interpretava uma ninfeta e, lá pelas
tantas, sua personagem se debruçava, nua em pêlo,
sobre um garoto de 12 anos com quem protagonizava cenas eróticas.
Depois que virou "rainha dos baixinhos" e passou a cobrir
até as canelas, Xuxa implicou com Amor Estranho
Amor. Não quer que a fita seja vista por mais ninguém.
No ano passado, recorreu à Justiça para impedir
que um site pusesse o DVD à venda. Alegou que eram
cópias piratas.
É interessante
notar que o comércio ambulante, essa forma tão
antiga de negociação, esteja se unindo à
internet, esse mecanismo tão inovador de comunicação,
e combatendo, nessa união improvável, cada um
a seu modo, e até mesmo de maneira involuntária,
um mesmo e obscuro mal: a censura. Sim, tirar Amor Estranho
Amor das prateleiras das locadoras, do comércio,
do Google, do YouTube, dos cinemas é uma forma de censura.
Uma forma clara de censura. O que foi feito para ser público
e se tornou público, público é. Do mesmo
modo como foi censura, forma clara de censura, tirar do YouTube
as cenas em que Daniella Cicarelli aparecia num entrevero
caliente com seu então namorado numa praia da Espanha.
O que foi feito em público, abertamente em público,
público é.
Quem não
quiser, sendo figura pública, ver-se flagrado em cenas
de incandescente intimidade que trate de protagonizá-las
em recintos privados. Quem não quiser ver-se filmado
em cenas eróticas com um garoto de 12 anos que não
as faça. Ninguém forçou Daniella Cicarelli
ou Xuxa a fazer o que fizeram. Ao bisbilhotar as cenas de
ambas, uma na vida real e em público, outra interpretando
uma personagem para o consumo público, ninguém
lhes viola a intimidade ou a privacidade se alguém
o fez, foram elas próprias.
É uma excelente
notícia constatar que a modernidade da internet está
dificultando a aplicação da censura, que sempre
traz consigo um imenso rosário de ignorância
no duplo sentido: no de não saber e no de saber
mal. O aspecto incômodo é que a censura, nos
dois casos, tenha tido respaldo em sentenças judiciais.
É duro constatar que, para a Justiça brasileira,
a vontade de Xuxa e Daniella se sobrepõe ao direito
do público de ter acesso ao que é público.
Daqui a pouco, quem sabe os juízes não criam
um movimento em defesa de Elton John, o simplório que
defendeu o fim da internet...