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22 de agosto de 2007
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André Petry
O filme proibido
de Xuxa

"O comércio ambulante, essa forma tão
antiga de negociação, está se unindo à
internet, esse mecanismo tão inovador
de comunicação, e combatendo, cada um a
seu modo, um mesmo e obscuro mal: a censura"

Nos camelôs de São Paulo, pode-se encontrar o vídeo do filme proibido de Xuxa por apenas 5 reais. A notícia saiu na semana passada. Junto, veio a informação de que, além de não conseguir desarmar os camelôs, Xuxa também está encontrando enormes dificuldades de impedir que seu filme proibido apareça no YouTube. O YouTube diz que tenta cumprir a sentença judicial, expurgando o longa de seus arquivos, mas admite que é difícil fazê-lo diante dos mais de 60.000 vídeos que são postados todos os dias no site.

O filme em questão é Amor Estranho Amor, de 1982, dirigido por Walter Hugo Khouri (1929-2003). Em seu papel de estréia no cinema, Xuxa interpretava uma ninfeta e, lá pelas tantas, sua personagem se debruçava, nua em pêlo, sobre um garoto de 12 anos com quem protagonizava cenas eróticas. Depois que virou "rainha dos baixinhos" e passou a cobrir até as canelas, Xuxa implicou com Amor Estranho Amor. Não quer que a fita seja vista por mais ninguém. No ano passado, recorreu à Justiça para impedir que um site pusesse o DVD à venda. Alegou que eram cópias piratas.

É interessante notar que o comércio ambulante, essa forma tão antiga de negociação, esteja se unindo à internet, esse mecanismo tão inovador de comunicação, e combatendo, nessa união improvável, cada um a seu modo, e até mesmo de maneira involuntária, um mesmo e obscuro mal: a censura. Sim, tirar Amor Estranho Amor das prateleiras das locadoras, do comércio, do Google, do YouTube, dos cinemas é uma forma de censura. Uma forma clara de censura. O que foi feito para ser público e se tornou público, público é. Do mesmo modo como foi censura, forma clara de censura, tirar do YouTube as cenas em que Daniella Cicarelli aparecia num entrevero caliente com seu então namorado numa praia da Espanha. O que foi feito em público, abertamente em público, público é.

Quem não quiser, sendo figura pública, ver-se flagrado em cenas de incandescente intimidade que trate de protagonizá-las em recintos privados. Quem não quiser ver-se filmado em cenas eróticas com um garoto de 12 anos que não as faça. Ninguém forçou Daniella Cicarelli ou Xuxa a fazer o que fizeram. Ao bisbilhotar as cenas de ambas, uma na vida real e em público, outra interpretando uma personagem para o consumo público, ninguém lhes viola a intimidade ou a privacidade – se alguém o fez, foram elas próprias.

É uma excelente notícia constatar que a modernidade da internet está dificultando a aplicação da censura, que sempre traz consigo um imenso rosário de ignorância – no duplo sentido: no de não saber e no de saber mal. O aspecto incômodo é que a censura, nos dois casos, tenha tido respaldo em sentenças judiciais. É duro constatar que, para a Justiça brasileira, a vontade de Xuxa e Daniella se sobrepõe ao direito do público de ter acesso ao que é público. Daqui a pouco, quem sabe os juízes não criam um movimento em defesa de Elton John, o simplório que defendeu o fim da internet...

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