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Edição 1 714 - 22 de agosto de 2001
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Roberto Pompeu de Toledo

Deu para entender
a mensagem?

O moderno primeiro-ministro do
Japão
faz uma viagem rumorosa
em direção ao passado

O primeiro-ministro Junichiro Koizumi é a figura mais "moderna" que já ascendeu a esse posto no Japão. "Moderna" vai entre aspas por todas as reservas que a palavra merece, neste caso como em quase todos os outros em que é empregada. Koizumi, sabe-se lá o que pensa. Para um brasileiro, seria pretensioso demais tentar adivinhá-lo. Em todo caso, jamais se viu, em aparência, primeiro-ministro como ele, portador de vasta cabeleira de rebelde, ou pelo menos do que era considerado rebelde no tempo dos Beatles, e adepto de roupas informais. Seu tipo, jovial como o de um John Kennedy do Sol Nascente, tanto se distancia do apagado primeiro-ministro japonês convencional que ele virou herói "pop" no país, celebrado em pôsteres e camisetas. No entanto...

No entanto, coube a Koizumi empreender, na semana passada, uma das mais reverentes jornadas em direção ao passado que se pode conceber no Japão: visitar o templo de Yasukuni. Trata-se de um lugar consagrado aos "divinos espíritos" dos que morreram nas diversas guerras do país, desde a restauração Meiji do século XIX. "Divinos espíritos" é como a tradição xintoísta, tão voltada para o culto aos mortos, chama o que outras religiões chamariam de "almas". Em Yasukuni, fundado em 1869, cultuam-se 2,5 milhões de "divinos espíritos". Nos arquivos do templo, todos eles são identificados pelo nome, data, local de nascimento e circunstâncias em que morreram. Um capítulo especial é dedicado aos mortos na II Guerra Mundial. São então homenageados desde o primeiro-ministro da época, Hideki Tojo, considerado criminoso de guerra pelos vencedores, até os soldadinhos que morreram nas "operações especiais de ataque", como são conhecidas as operações suicidas.

O imperador e outros membros da família real costumam participar de cerimônias em Yasukuni. Quanto a primeiros-ministros, só um o havia feito antes de Koizumi – Yasuhiro Nakasone, em 1985.

A visita de uma autoridade japonesa ao local costuma liberar velhos fantasmas. As acusações de que o militarismo e o imperialismo ainda dominariam o caráter nipônico voltam à tona. Foi assim com a visita de Koizumi. A China e a Coréia do Sul, vítimas da invasão e das atrocidades japonesas durante a II Guerra Mundial, manifestaram oficialmente seu repúdio. Na Coréia do Sul, encenando um gesto extremado de protesto, vinte jovens cortaram a ponta do dedo mínimo.

Yasukuni é visitado por 8 milhões de pessoas por ano, inclusive turistas estrangeiros. É um dos pontos altos do roteiro em Tóquio. O lugar é bonito. Entra-se passando por baixo de um monumental torii, nome daquele típico portal de duas colunas e uma trave horizontal a encimá-las. O torii em questão, de aço, e não de madeira, como de hábito, é o maior do país e consiste, o atual, numa reconstrução. O original, também de aço, foi doado para a fabricação de armas, nos anos 40, como parte do esforço de guerra. Por aí se adivinha o espírito que anima Yasukuni. No museu que faz parte do complexo do templo, há retratos de soldados e suas últimas cartas às famílias. Há memoráveis primeiras páginas de jornal, como a do Asahi Shinbum de 9 de dezembro de 1941, com a seguinte manchete: "Grande vitória no Havaí e nas Filipinas". Tratava-se do ataque a Pearl Harbour. As missões suicidas merecem especial atenção. Réplicas dos célebres aviões dos pilotos camicases são expostas junto dos menos conhecidos torpedos que, conduzidos no mar por mergulhadores que lhes iam dando o rumo, procuravam o casco dos navios inimigos.

A ambigüidade do Japão com relação ao passado belicista, às vezes o lamentando, às vezes o cultuando, às vezes fazendo as duas coisas ao mesmo tempo, é motivo de queixas permanentes. Por que Koizumi, tão novo no cargo, tão popular e tão moderninho, foi mexer nesse vespeiro? Se não foi antes, não vai ser agora que ousaremos invadir-lhe a mente. Limitemo-nos à explicação que ele próprio deu: "Fiz esta visita para renovar meu empenho em prol da paz". Eis um paradoxo: visita-se um templo evocativo da guerra para celebrar a paz. Ou, então, eis um exemplo da infinita possibilidade de manipular os conceitos de guerra e paz. Tal característica não é exclusividade japonesa. Os monumentos a soldados desconhecidos ou panteões militares ao redor do mundo com freqüência são também justificados como celebrações de paz. Quem faria discurso em favor da guerra? No Japão, a justificativa dos que visitam Yasukuni, do imperador aos professores que conduzem grupos de alunos, é a mesma do primeiro-ministro. O próprio nome Yasukuni quer dizer, em japonês – cúmulo da ambigüidade – "país pacífico".

À saída do templo há, ou havia, ao tempo em que o autor destas linhas o visitou, faz alguns anos, um questionário em que o visitante é convidado a dizer se entendeu a mensagem ali transmitida. As alternativas são: "Entendi bem", "Mais ou menos", "Não entendi". O correto –. nenhuma dúvida a respeito – só pode ser cravar a última. Um solene e definitivo "Não entendi".

   
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