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Montagem sobre fotos de Morgade/Alfredo Franco/Cristiano

O sexo masculino começa a descobrir que
a obrigação de corresponder à imagem de super-herói infalível é fonte de angústia e
de doenças que podem até levar à morte

Consuelo Dieguez
Com reportagem de Silvia Rogar


Veja também
Dicas de especialistas para reduzir a ansiedade
A radiografia do macho
Entrevista com o psicólogo americano Alon Gratch, autor do livro Se os Homens Falassem...

Homens são seguros, decididos, fortes, corajosos. São frios, auto-suficientes, agressivos. Homens sustentam a família. Só pensam em sexo. Não têm sentimentos. Homens não choram. Não há nada de novo nesses conceitos. O estereótipo do macho talvez exista desde que a humanidade começou a andar ereta e nossos ancestrais do sexo masculino tiveram de esquecer o medo para disputar comida com as feras. Com o tempo, outros adjetivos foram se incorporando a esse leque de caracterizações. Para as feministas da década de 60, eles eram, também, porcos chauvinistas. Mais recentemente, com os novos conceitos introduzidos pela globalização, cresceu a fama que já tinham de ser ferozmente competitivos no trabalho. Por qualquer ângulo que se veja a figura masculina, ela continua associada à força e ao poder. Durante muito tempo se acreditou que o homem levava uma grande vantagem por ser a fortaleza que costuma aparentar. Estudos psicanalíticos recentes, contudo, mostram que a obrigação de se enquadrar nessa imagem de super-herói tem sido, na verdade, a grande fonte de angústia masculina.

Não se trata de uma crise dos tempos modernos. O fardo da onipotência vem sendo carregado pelos homens através dos séculos – embora o aumento da competitividade tenha agravado o problema. O que há de verdadeiramente novo nessa história é que a angústia do macho tem sido cada vez mais analisada e encarada como uma questão de saúde pública. A cada dia surgem estudos alertando para a deterioração psíquica masculina, uma dor que pode ser traduzida em números. O sexo masculino lidera as estatísticas mundiais de suicídio, de mortes violentas, de envolvimento com álcool. De cada quatro dependentes de drogas em todo o mundo, três são homens. Dados do Ministério da Saúde revelam que, dos 6.985 suicídios ocorridos no Brasil em 1998, 5.530 foram cometidos por homens. Eles vivem, em média, dez anos menos que as mulheres. E também são mais acometidos por doenças cardiovasculares, crises de hipertensão, diabetes e obesidade.

 

RONI ARGALJI
47 anos, empresário carioca, casado, três filhos

Selmy Yassuda


"Comecei a trabalhar aos 17 anos, na empresa da família. Meu pai quis que eu fizesse estágio em todos os setores da companhia. Todos mesmo. A postura natural do filho homem é ver o pai como um deus. Não o condeno, mas não seria tão rígido com meu filho. Sempre fui muito ansioso e, há quinze anos, faço análise para aprender a lidar com isso. Se não fizesse, com certeza já teria úlcera, gastrite ou algum problema cardíaco. O homem tem de provar o tempo todo que está indo tão bem quanto gostaria. E é difícil separar os problemas de trabalho do resto. Muitas vezes, a gente acaba explodindo com a pessoa errada. Hoje, tento relaxar mais nos fins de semana. Quando posso, faço pescaria oceânica e esqueço do mundo. Também sou mais próximo de meu filho temporão, que está com 11 anos, do que fui de minhas duas filhas mais velhas. É praticamente impossível comandar uma empresa e, ao mesmo tempo, dar uma superatenção à família.
Dá uma culpa danada. Às vezes, quero participar mais como pai, mas não sei como. Minha mulher é que sempre fez o papel de supermãe. Mas acho que nunca é tarde para essa aproximação."

Nos países mais desenvolvidos, a luz vermelha se acendeu mais cedo. Os governos começam a montar centros de ajuda específicos para homens. No Canadá, por exemplo, já existem programas de assistência a jovens do sexo masculino. A medida não poderia ser mais pragmática: pretende evitar gastos previdenciários futuros com famílias que perdem cedo demais pais e maridos. No Brasil, embora ainda não haja uma preocupação institucional com o problema, estão surgindo grupos de amparo aos homens. Também é cada vez maior o número de publicações que analisam a psicologia masculina. Tudo isso porque se descobriu que, com essa história de terem a obrigação de ser bem-sucedidos, viris e seguros, os homens estão precisando desesperadamente de socorro.

A maior dificuldade para compreender esse drama, contudo, é que eles vestiram com tamanha competência a máscara da auto-suficiência que não conseguem pedir ajuda. As mulheres costumam considerar-se as maiores vítimas do enigmático comportamento masculino. No entanto, traduzir o pedido de socorro dos homens é difícil até mesmo para médicos e psicanalistas. Uma das mais recentes publicações sobre o assunto, o livro Se os Homens Falassem..., do psicólogo americano Alon Gratch, lançado no mês passado no Brasil pela Editora Campus, talvez seja um dos mais completos manuais para entender o que se passa na cabeça desses super-heróis em conflito. O autor dá o seguinte aviso aos leitores: "Os homens são difíceis. Na superfície, muitas vezes parecem distantes e arredios. Ou vulgares e repulsivos. E, quando tentamos conhecê-los, muitas vezes é ainda pior – eles ficam na defensiva e tornam-se inacessíveis". Essa é apenas uma definição bem-humorada do universo masculino e de como ele é interpretado. Gratch atende basicamente homens em seu consultório. E garante que, embora as mulheres os acusem de não falar, de não escutar e de não entender, com um pouco de esforço eles falam, escutam e entendem.

 

JOSEF BARAT
61 anos, economista em São Paulo, duas filhas

Rogerio Voltan


"Acho que o crescimento das mulheres no campo profissional deixou os homens intimidados. Hoje elas competem com a gente no mesmo nível. Já no campo afetivo as regras são outras. Elas ainda exigem que o homem seja o provedor, que seja forte e bem-sucedido. Geralmente olham nossas fragilidades como defeitos. Essas cobranças são uma angústia para o homem. É como se estivéssemos sempre aquém das expectativas. Não alcançamos nunca o que elas esperam de nós. Na relação familiar, a mulher pode se permitir o luxo de dar um tempo no trabalho. Ai do homem que decida fazer isso. Nem a mulher nem a sociedade aceitam uma atitude dessas. As cobranças são tantas que daqui a pouco nós vamos ter até medo de nos relacionar. Elas querem super-homens. Carinhosos, viris, bem-sucedidos, sensíveis e trabalhadores incansáveis. Se não somos essa perfeição, somos fracassados. Além disso, as mulheres abusam do direito de ser agressivas usando como desculpa a tensão pré-menstrual. E o pior é que nem direito a TPM os homens têm."

A realidade é que os homens têm de fato mais dificuldades de admitir que estão sofrendo, que estão em crise e que precisam de ajuda. Geralmente, quando chegam a procurar um analista é por causa de problemas relacionados ao trabalho. Ser demitido ou "reestruturado", palavra que entrou na moda nas grandes corporações, é uma experiência traumática para a maioria. Também são motivos de angústia a perspectiva de fracassar ou a de não conquistar o sucesso. Esses costumam ser os maiores estopins de uma crise. Outros fatores que também tendem a levar os homens ao divã são as dificuldades de tomar decisões nos negócios e o fato de se sentirem oprimidos pela empresa ou entediados e apáticos diante do trabalho. O curioso é que muitos homens de sucesso procuram um terapeuta para tratar da sensação de incerteza e da carência emocional que experimentam ao chegar ao topo da carreira. Alguns admitem que, embora tenham obtido tantas vitórias, sentem um enorme vazio, como se nunca fossem conseguir satisfação. Outros se queixam do enorme preço que pagaram por seu sucesso, como o distanciamento da mulher e dos filhos ou a ausência de realização pessoal. Por último, e não menos importante, muitos homens buscam terapia por causa de crises conjugais e problemas sexuais, como impotência, ejaculação precoce, infidelidade e dúvidas quanto à identidade sexual. Nesses casos, alguns se envergonham tanto de seus problemas que levam meses para contar a razão que os levou ao consultório.

A grande dificuldade para chegar ao que está por trás das crises masculinas é o temor de parecer frágil e vulnerável. Quando se pergunta a uma mulher o que ela está pensando, é sempre mais fácil obter uma resposta. Já com os homens a rota é muito mais sinuosa. Talvez a mais profunda dessas características seja a vergonha que vem da máxima "meninos não choram", repetida, ao longo dos séculos, em todo o mundo. Hoje, já é consenso entre os psicanalistas que essa tecla martelada desde a infância é a razão mais óbvia para os homens não se entregarem a diálogos emocionais. O problema é não perceber quanto isso pode ser destrutivo. Nos relacionamentos, eles tendem a projetar sobre a parceira a vergonha do próprio desempenho. Criticam sua aparência, o jeito de ela se vestir ou de falar. Essa é a forma que encontram de tentar se livrar da própria sensação de inferioridade. Já as mulheres submetidas a essa situação acabam se sentindo controladas e avaliadas. Pior, ficam envergonhadas das próprias imperfeições. Começa aí um jogo de acusações capaz de destruir o relacionamento.

Um dos maiores especialistas brasileiros no universo masculino, o psiquiatra paulista Luiz Cuschnir, que há vinte anos se dedica ao estudo da psicologia do homem, considera altamente destrutiva essa vergonha de mostrar os sentimentos, sempre mascarada pelo tradicional "tudo bem". A verdade é que a tortura de ter de mostrar que nada o atinge e que sabe tudo de tudo deixa o homem vulnerável a ser flagrado no engodo. Ao esconder os sentimentos, ainda que inconscientemente, ele acaba se sentindo um mentiroso ameaçado de ser desmascarado. Em alguns casos, quando mais maduro, ele consegue se abrir ou é forçado a isso, por circunstâncias da vida. Aí costumam ocorrer grandes reviravoltas. O empresário Soly Kamkhagi é uma completa tradução dessa realidade. Libanês, imigrado, sempre fez o papel do grande provedor da família. "Não podia ser diferente, faz parte da minha cultura", explica. Em 1999, aos 60 anos, sofreu um grande baque. Sua empresa têxtil começou a ter problemas e acabou fechando no ano passado. Pouco tempo depois, Kamkhagi descobriu que tinha um câncer no intestino, que considera resultado dos dois anos de angústia com os problemas financeiros da indústria. O que poderia ter se transformado em uma grande tragédia tornou-se fonte de aprendizado. Ao perder a empresa e ficar doente, Kamkhagi encontrou um grande conforto na família e nos amigos. Hoje o câncer está controlado e ele conseguiu ajuda para se reerguer financeiramente. Tem uma fábrica de bicicletas que lhe dá um retorno muito maior que a empresa perdida. Sua avaliação é que todos esses problemas o tornaram uma pessoa melhor e mais leve. "Aprendi que posso falhar. E que não preciso ter medo disso", admite. Também está muito mais próximo da família e dos amigos, convívio que lhe deu um novo prazer de viver.

 

SOLY KAMKHAGI
62 anos, empresário em São Paulo, casado, três filhos

Claudio Rossi


"No começo do ano passado, ao fazer um check-up, descobri que tinha um câncer no intestino. O estranho é que, quando me vi diante da doença, não tive medo de morrer. Essa possibilidade não me assustava. Olhando para trás, estou convencido de que esse câncer foi conseqüência dos problemas emocionais que tive na mesma época. Durante dois anos lutei para salvar minha empresa da falência e não consegui. O que me apavorava era deixar minha família desassistida. Sempre fui o provedor. Hoje percebo quanto carreguei sozinho essa crise. Quantas noites passei em claro sem dividir meus medos com minha família para não assustá-la. O mais fantástico é que esses baques me ajudaram a rever minha vida. Em todo esse processo, o que mais me tocou foi o apoio e o carinho que recebi de minha família e de meus amigos, de alguns dos quais eu estava tão afastado. Fiquei menos arrogante, menos exigente. Descobri que não sou infalível. Antes, minha vida parecia um filme. Era como se as coisas passassem na minha frente mas eu não as vivesse realmente. Eu estava preocupado só com o trabalho, com o sucesso. Agora estou muito mais preocupado com minhas relações afetivas. Afinal, é isso que importa."

Mas em geral só mesmo grandes trancos fazem os homens parar e avaliar como estão vivendo. Muitos passam a vida em um eterno estado de angústia, depressão e sofrimento, sem saber exatamente o que os aflige. Para os estudiosos do comportamento masculino, essa sensação de vazio está relacionada exatamente ao fato de serem sempre muito rígidos na exigência de representar o papel de fortes e bem-sucedidos. Essas exigências de ser o provedor e ter sucesso no trabalho e com as mulheres já começam na infância. Homens são treinados para ter um bom desempenho no trabalho e na cama. O resto é conseqüência. Uma pesquisa feita pelo executivo paulista Elyseu Mardegan Júnior, para sua tese de MBA, que se transformou no livro Homem 40 Graus, da Editora Mercuryo, dá a exata dimensão dessa situação. Mardegan, que trabalha na área de marketing de uma administradora de cartões de crédito, conta que, ao fazer as entrevistas com homens, percebeu que a maioria vivia uma enorme crise de insatisfação não só com o trabalho, mas com a vida. Acabou fazendo descobertas importantes. Uma delas é que o homem está tão focado no trabalho que ao ser indagado sobre como vai a vida a resposta só será positiva caso ele esteja obtendo sucesso profissional. Do contrário, a infelicidade é total. "Quando se pergunta a uma mulher se ela é feliz, ela pensará na família, nos amigos, na relação afetiva e no trabalho. Ela identifica várias fontes de prazer", conta Mardegan. "Já o homem só pensa no trabalho e no sucesso e não enxerga o que ele acumulou de bom fora dessa área."

O que ocorre com freqüência é que, após alcançarem o sucesso profissional, e para mantê-lo, os homens vão se afastando de elementos essenciais de sua personalidade. Deixam de lado prazeres mais simples, encontros afetivos, amizades mais íntimas. Adaptam-se ao que serve para o consumo de sua eficiência profissional. Desempenham o que se espera deles naquele papel, sem grandes questionamentos, indo, muitas vezes, até contra seus preceitos éticos. Na vida afetiva, acabam vivendo uma relação desvitalizada, porque perdem o contato com a mulher e os filhos. É evidente que no meio desse turbilhão de racionalidade os homens se acostumam a uma distância emocional, que pode devastar não só seus relacionamentos íntimos, mas também ter um efeito arrasador sobre sua vida. Homens que não sentem medo não são capazes de dosar o grau de risco da situação. Acabam se envolvendo em negócios desastrosos ou em terríveis acidentes. Para se ter uma idéia, os dados do Departamento Nacional de Trânsito revelam que, em 1999, dos 5.223 acidentes fatais ocorridos nas capitais brasileiras, 4.250 foram com homens.

 

FERNANDO VALENTE
26 anos, publicitário carioca, solteiro

Selmy Yassuda


"O homem, independentemente da idade, ainda se sente na obrigação de ser o provedor, de ser bem-sucedido. A maior prova disso é que a lei ainda é assim: o homem, quando se separa, é quem dá a pensão à mulher. A gente cresce sempre pensando em ir além. Meus avós tinham uma condição de vida, meus pais tinham outra ainda melhor, e eu quero engrandecer isso, crescer. Senti medo de trocar o certo pelo incerto quando larguei meu emprego numa agência de publicidade para fazer mestrado com dedicação integral em marketing. Só vou colher os frutos a longo prazo e sou muito ansioso. Senti uma falta enorme da adrenalina do trabalho. Os estudos são puxadíssimos, mas precisei passar por um processo de adaptação, ter uma nova cultura. Acho que estou abrindo novas portas para me valorizar. Meus pais sempre se preocuparam em me pôr nos melhores colégios, para entrar na melhor faculdade. É impossível não sentir essa pressão. Mas qualquer um precisa estar feliz para produzir. Quando você fala do problema, a complicação costuma ficar menor. Ser bem-sucedido é crucial para minha felicidade futura."

Ao tentar negar seus sentimentos, os homens foram se enredando numa teia aflitiva. Um dos maiores tabus talvez seja a insegurança. Ela costuma ficar oculta debaixo do exterior forte e protegido. Muitas vezes o que o homem queria era simplesmente não ter de agir, ou deixar que os outros agissem por ele. Mas, ao perceber que está fragilizado, acaba por reagir a esse sentimento assumindo uma posição mais masculina ainda. O risco se potencializa quando, ao negar sua falibilidade e sua mortalidade, os homens retardam os tratamentos médicos preventivos. As mulheres, desde a adolescência, estão atentas ao corpo. Fazem com freqüência exames preventivos. Os homens, quando procuram um consultório, é porque estão no limite do suportável. O cardiologista João Jorge Leite traça um perfil muito claro desse comportamento. Segundo ele, os homens procuram menos os médicos e são monossilábicos quando precisam falar de si mesmos. A maioria chega ao consultório pela mão feminina e resiste ao tratamento. Segundo Leite, a questão emocional tem um enorme peso nos diagnósticos. "Não se trata apenas de analisar o lado anatômico funcional. Para tratar um paciente eu preciso saber mais sobre ele. Seu ambiente em casa, no trabalho, seus conflitos. E arrancar essas confissões é um grande desafio", conta. O cardiologista percebeu ainda que muitos homens postergam a ida ao médico por temer que ele imponha alguma limitação a seu modo de vida. Nesse caso, eles receiam que um profissional mais saudável ocupe seu lugar na empresa. Como não procuram o médico, acabam levando uma vida muito mais sofrida do que precisavam. Dormem mal, engordam, sentem um cansaço permanente. "Isso não tem nada a ver com idade, e sim com sedentarismo", explica Leite.

Atordoados com seus medos não admitidos e com a angústia crônica, muitos homens, quando chegam à meia-idade, por volta dos 35 anos, entram em crise. Alguns procuram terapia. Entendem que precisam compartilhar suas dores e angústias antes de ir parar numa mesa de cirurgia para o implante de pontes de safena. Outros buscam uma vida mais prazerosa, trocam o emprego por outro que lhes dê mais alegria, aproximam-se mais da família e dos amigos. O empresário Roni Argalji, dono da fábrica de lingerie Duloren, percebeu a tempo que não queria permanecer na roda-viva destrutiva em que tantos homens se lançam. Por causa do trabalho, ele quase não deu atenção às duas filhas mais velhas. Percebeu que ia repetir o mesmo processo com o filho mais novo. Decidiu que era hora de mudar. Roni faz terapia e admite: "Se não fizesse, já teria úlcera, gastrite ou problemas cardíacos". Continua trabalhando muito, mas hoje procura conciliar o trabalho com atividades que lhe dão prazer, como pescar no fim de semana e participar mais do desenvolvimento do filho.

 

ANDRÉ PARAÍSO

40 anos, sócio de restaurante no Rio de Janeiro, ex-executivo de navegação, casado, um filho

Oscar Cabral


"Fiquei dezesseis anos trabalhando na área de navegação. Tinha diploma de engenharia, duas pós-graduações e cheguei a ser diretor-geral de um grupo. Do trabalho, ficava monitorando minha família. Eu realmente me preparei para ter uma carreira de sucesso. Há dois anos e meio, minha mulher abriu o restaurante Bazzar com um sócio. Sempre gostei de gastronomia e, com o tempo, meu conhecimento foi se sofisticando. Gostava de dar palpites no restaurante, sempre inventava de dar uma passada lá. Há sete meses resolvi largar tudo e me dedicar com a Cristiana ao negócio. O que me fez repensar as escolhas foi o casamento. Agora, posso dar muito mais atenção a minha mulher e a meu filho, Marcos, de 4 anos. Deu e ainda dá angústia por essa mudança, foi difícil no início. Ganho menos, mas estou investindo num novo estilo de vida, tenho a sensação de pôr meu sonho em prática ao lado de minha mulher. Trabalho muito, mas com menos pressão. Hoje, posso ir à praia com meu filho, fazer esportes e ler outras coisas além dos jornais de finanças."

Boa parte dos homens, contudo, não se dá essa chance. Incapazes de entender o que se passa em sua vida, eles entram em um processo autodestrutivo. Começam a beber, afundam-se cada vez mais no trabalho, destroem o casamento, saem em busca de uma mulher mais jovem que lhes dê a sensação de imortalidade. Atiram-se a prazeres fugazes, como gastar fortunas em um carro esporte ou numa moto incrementada. Em pouco tempo esses estímulos deixam de ser novidade e volta a sensação de vazio. As mulheres também colaboram, de alguma forma, para o aumento dessa ansiedade. Na busca daquilo a que têm direito em tempos de liberação sexual, exigiram um melhor desempenho sexual dos homens. Também fazem uma série de cobranças que deixam os parceiros desnorteados, com medo de não conseguirem atender a tantas expectativas. O economista Josef Barat acredita que elas, embora tenham conquistado tantos avanços no lado profissional, continuam cobrando dos homens o papel de provedor. Eles, com medo dessas mulheres poderosas, acabam tendo exacerbada a ameaça de fracasso. "A sensação é que nunca vamos atender às expectativas que elas têm em relação a nós", reclama Barat. "Temos de ser sensíveis, provedores, fortes, românticos, bem-sucedidos e bons de cama. É muita cobrança."

Para os estudiosos, só há uma saída para essa enorme crise. Os homens precisam começar a compreender que não precisam desempenhar à risca o papel para o qual foram programados. Não se trata de sair jogando tudo para o alto. Mas, como ensina Alon Gratch em seu livro, um grande progresso será os homens – e as mulheres – entenderem que eles não precisam ser tão rígidos consigo mesmos. Que podem se dar ao luxo de pequenos prazeres, como uma caminhada tranqüila, férias em família, um hobby. Não precisam ser potências sexuais nem se cobrar se falham algumas vezes na cama. Que podem aceitar sem vergonha suas fragilidades, que, quando reconhecidas, se tornam menos angustiantes do que parecem. "Ao entrar em contato com seus sentimentos, o homem vai perceber que é possível ter uma nova vida, com novos papéis nos níveis familiar, social e profissional", diz Luiz Cuschnir.




   
 
   
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